O Sacro Ofício

Há tempos tenho me debatido com uma questão muito sensível para mim, a minha alimentação. Vejo na mídia como os animais para abate são criados e finalmente mortos e fico horrorizada, até o fundo da minha alma. Totalmente horrorizada. Angustiada. Angustiada porque, apesar de diminuir o meu consumo de carne vermelha (?), não opto por me tornar vegetariana nem fazer qualquer outro tipo de variante de alimentação que me diminua a culpa pela comilança de animais, que são tratados como produtos para indústria e comércio, assim como frutas, folhas, árvores, minério, produtos fósseis… Destes, falo mais à frente, prometo.

Lembrei-me então, como já mencionei em outra crônica, que me aproximei mais de duas religiões, para me orientar o espírito e sossegar a alma: o judaísmo, por conversão, e o candomblé, por medo.

Segundo a lei judaica, a alimentação está sujeita a várias restrições; uma delas, com relação à morte e preparação da carne para ser considerada Kosher (em hebraico, “bom”, “próprio”, “justo” e “correto”) e poder ser ingerida, é que o animal tenha sido morto por uma pessoa treinada — shochet — para executar a morte de modo que o animal não tenha sofrido ao morrer. Isso impede um judeu de caçar animais, ou comer algum que tenha sido morto por outro animal.

Ah. Apesar de ter me convertido ao judaísmo, jamais pratiquei seus rituais. Preferi ficar em cima do muro, inicialmente confortável por não ter nenhuma religião, mas sim acreditar num Deus que do Caos extraiu a existência, assim, bem sem compromisso.

Quanto ao candomblé, foi mais ou menos a mesma coisa. Por medo, como já disse, segui o conselho do babalorixá que havia consultado e me prontifiquei a fazer um ritual chamado bori, para começar a me harmonizar com o meu Orixá. Tranquilo, pensei.

O ritual era dividido em várias partes, tudo tranquilo, até que fiquei sabendo que a última parte, que seria realizada à noite, incluiria o sacrifício (sacrifício, ou  sacro-ofício, quer dizer: tornar sagrado) de um bodinho pequeno, que seria realizado numa casinha do lado de fora do Ilê (a casa templo em si).

Então eu vi o bodinho, tremendo de medo — ele e eu. Esbocei uma reação que não concluí, porque o babalorixá disse: “Não pode chorar”. E pegou a cabeça do bodinho com seus olhos assustados, encostou sua testa na minha e mandou que eu dissesse: “A lei que tira a tua vida é a mesma que tirará a minha  vida um dia”. Sem chorar nem olhar, o sacrifício foi feito, o bodinho não emitiu um som, porque foi morto por um Axogun, que não pode deixar o animal sentir dor ou sofrer porque a oferenda não seria aceita pelo Orixá. Tampouco continuei a frequentar o candomblé, apenas mantive todo o respeito, como quanto ao judaísmo, sabendo que essas duas experiências haviam marcado a minha alma.

Agora, passados muitos anos desses acontecimentos, me encontro novamente em meio aos vários movimentos em favor de parar com a crueldade para com os animais, domésticos ou comestíveis.

A crueldade. Só vou citar uma, light: galinhas poedeiras e codornas passam toda sua breve vida dentro de uma gaiolinha do tamanho delas — luzes acesas dia e noite para que ponham ovos sem parar — de modo a alcançar a comida e pôr os ovos.

Me lembrei do meu pai, que já criou galinhas poedeiras em enormes galpões, soltas. Mal ouviam o ronco de papai chegando na fazenda se alvoroçavam todas, até papai, que as amava de paixão, entrar no galpão, distribuir ração nos comedores, lhes falar e fazer carinho enquanto elas lhe davam bicadinhas nas calças, correspondendo.

Para mim, a questão já ultrapassou em muito o come-não-come carne vermelha, branca ou outra qualquer. Encontrei novamente o pecado mortal, que ganha cada vez  mais adeptos na humanidade: a ganância. Mortal, porque exterminará a humanidade e tornará o planeta um deserto — agora volto a falar da ganância para com os frutos da Terra: água, frutas, árvores, minério, produtos fósseis etc. E, por trás dela, a soberba, que nos faz pensar que somos donos do mundo, a nata da criação, portanto, agraciados com alucinados privilégios.

Esta crônica vai ficar sem fim, acho. Quanto a mim, trato de me empenhar em descer do maldito muro da hipocrisia como puder, e tomar o lado da ética do Kosher: “bom”, “próprio”, “justo” e “correto”.

Como puder, porque, obviamente, estou longe disso: como falei tanto de galinhas, de grão em grão, através do sacro ofício de agir como considero correto e arcar com as consequências do que faço. Ufa.

 

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10 comentários em “O Sacro Ofício

  • 17/12/2012 em 12:22
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    Não entendo como o ser humano que todo dia inventa tantas futilidades desnecessárias ainda não conseguiu inventar um GÁS ANESTÉSICO para fazer com que os animais que devem ser ser abatidos inalem o mesmo involuntariamente e percam a memória por alguns minutos(durmam e apaguem) antes de serem abatidos.Esta provado que quem dorme ou desmaia nada ver e nada sente.Seria mais humano do que cortar,marretar e fura-los ainda consciente.Não falo em asfixia e sim em perca de memória pois a asfixia também terminaria causando DOR. Deveriam também proibir o abate de animais fora de estabelecimentos aprópriados multando os infratores de maneira que eles nunca mais fossem capaz de abater um animal onde nao se uasam as tecnicas necessárias para tal.

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  • 17/09/2012 em 07:59
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    Rosângela.
    Gostei muito da crônica. Estar no muro é sempre uma posição desconfortável. Bem-vinda para o lado de baixo.

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  • 15/09/2012 em 19:38
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    Obrigada pelo comentário, Carlos, aliás muito intrigante…Eu não sabia. Talvezo macaco rir do Super Homem de dentro de nós tenha sido demais para o filósofo… Abraço grande!

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  • 15/09/2012 em 18:12
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    questão interessante, o último gesto lúcio de Nietzsche foi tomar o chicote de um bruto que espancava um cavalo em Turim. Depois, não sei se foi por compaixão ou loucura, Nietzsche nunca mais voltou ao mundo real. Talvez, se nos víssemos nos olhos dos animais, nós é que estaríamos enjaulados. Seríamos o macaco que ri do humano dentro de nós?

    Salve,

    Carlos

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  • 15/09/2012 em 15:12
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    Oi, Rosângela!
    Descer do Muro, em minha opinião, é a opção certa.
    Nem que seja escorregando, ou mesmo pulando!
    Acredito ser “sine qua non”!
    Eu fiquei em cima do muro por décadas, sofrendo sem saber porquê…
    E eu só posso falar por mim, mas acredite, quando desci senti uma grande sensação de Liberdade!
    Graças a Deus consegui descer a tempo de tentar ser feliz.
    Parabéns pela crônica, gostei!
    Abraço,
    Raul Augusto

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  • 15/09/2012 em 15:11
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    Na realidade, morar na cidade… “Civilização” nos tornou míopes sobre a realidade deste planeta. Existem duas necessidades básicas nos animais: SOBREVIVER & REPRODUZIR. Comer outras espécies animais, vegetais e (sic) minerais e nossa forma natural de existir. Alias, o canibalismo ainda existe em algumas populações isoladas.

    Não quero ser o último a comer-te

    Não quero ser o último a comer-te.
    Se em tempo não ousei, agora é tarde.
    Nem sopra a flama antiga nem beber-te
    aplacaria sede que não arde

    em minha boca seca de querer-te,
    de desejar-te tanto e sem alarde,
    fome que não sofria padecer-te
    assim pasto de tantos, e eu covarde

    a esperar que limpasses toda a gala
    que por teu corpo e alma ainda resvala,
    e chegasses, intata, renascida,

    para travar comigo a luta extrema
    que fizesse de toda a nossa vida
    um chamejante, universal poema

    Carlos Drumond de Andrade
    .

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