O saco do Papai Noel

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E então é Natal, a festa pagã, do preto e do pobre, do rico e do branco e do alemão também. Mais um ano termina, e eu, o que fiz de minha vida?

Estou preso numa cela junto com vinte e seis animais. Faz dois meses que não tomo banho, não escovo mais os dentes. Perdi minha pança de cerveja, hoje só tomo cachaça. Minha barba branca e desgrenhada já está batendo no umbigo.

Durante dez anos trabalhei como Papai Noel. No início eu era contratado na semana de Natal. Depois, com a ascensão das classes C e D e o aumento do consumismo, passei a ser chamado a partir de novembro. Acostumado a andar de chinelos, camiseta e bermuda, eu passava dois meses suando mais do que um porco no rolete, doze horas por dia metido naquela roupa vermelha, ridícula. Quando comecei na profissão, até que eu achava divertido, as crianças eram mais puras, me tocavam o coração. Hoje em dia, fedelhos e adultos, homens e mulheres, todos querem a mesma coisa: consumir mais do que o vizinho.

Existe Papai Noel preto? Papai Noel nasceu na favela? Papai Noel tem pai? Será que o pai do Papai Noel também largou a mulher e os filhos, pegou um fuzil e saiu pelo mundo vendendo drogas, roubando e matando? Se o Papai Noel existe, por que ele não aparece aqui na prisão e abre o cadeado da minha cela e liberta todo mundo, que isso aqui tá um calor dos infernos? Carcereiro, carcereiro, tem um preso passando mal!

— Papai Noel, por que você não tem filhos? — um dia me perguntou um menino balofo, a cara escondida atrás de um pirulito de dois quilômetros de largura.

— Por que o meu saco é de brinquedo.

— Papai Noel, onde você estacionou suas renas?

— Deixa de ser besta, moleque, eu não vim de rena. Peguei três ônibus pra chegar aqui no Shopping.

— Papai Noel, qual é o seu nome de verdade?

— Uochinton.

— Papai Noel, na sua casa não tem papel higiênico?

— Tem, mas eu só limpo a bunda com jornal. Uso sempre a página policial.

Eu continuava aceitando aquele emprego como forma de pagar meus pecados. Ser um sujeito do bem, foi uma promessa que fiz pra minha mãezinha, antes de ela morrer na fila do Posto de Saúde com dengue hemorrágica, vazando sangue até pelos olhos. No Natal, a partir de novembro, quando eu me fantasiava de bom velhinho, dava um tempo em minha vida criminosa.

Duvido que qualquer um de vocês, que se dizem cristãos, teriam saco pra ficar tirando fotos com crianças chatas sentadas no colo, distribuindo beijinhos e balinhas, sempre sorrindo, enquanto os pentelhos te puxam a barba, pisam no seu pé e te chutam as canelas. E sem ter o direito de lhes dar umas palmadas, afinal, eu era o Papai Noel. Mas, em caso de emergência, sempre trazia comigo um vidrinho contendo duas formiguinhas quenquém…

Meu tormento maior era ter que ler as cartas e rabiscar uma resposta para ser entregue junto com as fotos. “Papai Noel te ama. Seja sempre um bom menino (ou uma boa menina)”. Merda.

Era uma petição que não tinha fim.

Para uns, motocicleta, cesta de Natal, carrinho de controle remoto, mochila nova, bicicleta, ursinho de pelúcia, boneca Barbie, camisa do meu time, o “título de campeão”; para outros, sapato, casamento, espada do Darth Vader. Um pirralho de nove anos, em papel sujo, amassado, a letra em garatujas, pediu um cavalo voador e uma capa do Super Homem. Cabelos — lembro-me até hoje —, uma adolescente queria uma máquina pra alisar cabelos, pra ficar bonita igual modelo. Bola, calça jeans, feijão preto, telhado novo para o barraco, carro — “podia ser usado” —, telefone celular, calça Zoomp, camisa Lacoste, relógio — “pode ser rolex do Paraguai”. Parar de beber, pediu-me um menino para o pai de quarenta e cinco anos. “Uma mulher, Papai Noel, eu preciso de uma mulher, estou com sessenta e dois anos e faz vinte que não faço sexo, desde a morte de minha esposa”. (Bate uma punheta, pensei). Perder peso. Engordar. Fama, fortuna e reconhecimento. Boneca. Dinheiro. Material Escolar. O novo disco da Xuxa, “Bila-Bilu”. Emprego. Amizade, e mais dinheiro pra pagar a conta de luz “por que sem televisão é impossível a gente ser feliz na vida”. Saúde para mamãe “que tem 93 anos e quebrou o fêmur ao cair da cama”. “Conhecer a Torre Eiffel”. Outro não queria nada, só encontrar o pai que saiu de casa pra comprar cigarro, faz quinze anos, e até hoje não voltou. Aparecer na televisão. Paz, “eu não suporto mais apanhar de minha mulher”. (Por que o filho de uma égua não sai de casa?) “Eu não tenho pra onde ir, é ela quem trabalha e coloca as coisas dentro de casa, sou paralítico de corpo inteiro, quem escreveu essa carta pra mim foi minha filha” — responde o sujeito, uma linha adiante.

O que pensam que sou? Papai Noel? Ora, por que não escrevem para o Chupa Cabra? Até hoje não sei o que deu em mim, quando eu e mais dois colegas resolvemos assaltar, na noite de Natal, o maior supermercado do Shopping. Rou-rou-rou, ri-ri-ri, feliz Natal para todos!

 

 

 

3 comentários em “O saco do Papai Noel

  • 24/12/2012 em 22:09
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    Gato, francamente o nosso Natal de crianca e’ que era bom: presentinho qualquer so’ para as criancas e familia reunida para um bom rango. O resto e’ consumerismo desnecessario. O ser humano “quanto mais tem mais quer”; bom, pelo menos uns que pensam que dinheiro e bens materials traz a felicidade as pessoas.

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  • 20/12/2012 em 12:11
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    Papai Noel…nao tive quando crianca… por isso acho sempre engracado, o seu foi demais….

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