O reverso do Feng Shui

Exif_JPEG_422Logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato, e abro os meus braços pra você.

Chico Buarque, “Com açúcar, com afeto”

 

Vou começar confessando que nem nos meus tempos de novaerismo mais radical eu dava muita bola para esse negócio de Feng Shui, pra quem não sabe — e será que alguma alma remota neste mundo ainda não sabe? —, uma técnica ou filosofia chinesa que promete garantir seu bem-estar através de algumas regras fixas na decoração de ambientes, entre elas uma fontezinha sempre corrente, um recipiente transparente com peixes, e, dificuldade das dificuldades, a tampa do vaso sempre abaixada, para evitar que nossa prosperidade tão suada escorra literalmente pelo esgoto da privada. Então tá.

Essa última aí é tranquila de ser mantida quando a gente mora sozinha, vamos combinar, sem ninguém para perturbar a ordem e o progresso de nossas mais incensadas intenções, mas experimente dividir seu banheiro com marido e filhos  — ah, taí, um fator a mais para atrapalhar a perenidade de qualquer prosperidade, não é mesmo? Nossa, como a vida em família come esforço e dinheiro… É de amargar.

Pois é. Deixando a magia um pouco de lado, me dei conta nos últimos dois dias de que pela primeira vez, em mais de quarenta anos de vida, estou por minha própria conta e risco, finalmente amadurecida e independente, sem ter que contar com um ombro amigo nem ser obrigada a me preocupar com quem convive cotidianamente comigo. Liberdade deve ser isso.

Explico. Não sei se vocês sabem, mas estou temporariamente sem marido, sem ter que cozinhar nem montes de louça pra lavar. Alan viajou na quarta-feira para visitar nossos filhos nos Estados Unidos, um evento anual que até hoje era sempre evitado e temido, mas desta vez, sei lá, vem me trazendo certo conforto e alívio.

Apesar de muito querida, a energia impositiva de um homem dentro de casa cobrou-me no ano passado um imposto conjugal difícil de compensar, e só me dei conta disso ao montar as crônicas de meu novo livro, Autorradiografia — de um casamento, de uma família, de um vasto arsenal de íntimos relacionamentos, inclusive comigo mesma, que sou igualmente difícil e exigente, muito mais com relação a mim mesma do que a quem quer que seja que cruze o meu caminho, podem acreditar. Sou dura na autoqueda, e esse é um fenômeno impossível de se controlar, haja terapia para a gente se aceitar.

Tivemos um ano difícil — cacete, lá vem essa palavra outra vez —, e se alguém decidisse perguntar ao Alan como foi para o lado dele, com certeza escutaria que não foi só esse ano, mas todos os anos desde que nos juntamos, e é verdade mesmo. Desde que nos salvamos mutuamente numa sala de chat na internet temos sido obrigados a lidar com eventos traumáticos, dolorosos para dizer o mínimo, mas isso, vocês dirão, faz parte da vida de qualquer pessoa, mais ainda de um casamento intenso como o nosso.

E como reagimos? Bem. Além de nos desequilibrarmos diariamente com a força caótica do nosso querer mútuo — feito, entre outras coisas, de um apoio constante, mas de um constante desafio também —, decidimos há algum tempo montar acampamento no paraíso, como vocês já sabem muito bem.

Levantado o estabelecimento, um misto transparente de morada e empreendimento, colocamos tudo em seus devidos lugares de acordo com nosso gosto e discernimento à época da construção, e depois nos desligamos de qualquer modificação.

De minha parte, mergulhei na rotina de editora tão profundamente que mal me dei conta de quantos anos se passaram, e de como se passaram, e esse divórcio entre as coisas que amo e a atenção que a elas devoto me cobrou seu alto preço, causando inadvertida carência àquilo que me é mais caro, meu marido estrangeiro, por exemplo.

E agora isso tem que mudar, mudei, mudará. Foi o Alan virar-me as costas na sala de embarque do Galeão, e eu me sentir disposta a me resgatar: de nossas perdas, deslizes, desentendimentos, falta de paciência cotidiana no embate da mútua compreensão. Como está, já não pode ficar. É preciso uma profunda intervenção na rotina esgarçada desse nosso estranho amor.

Nossa. Eu nem pretendia soar assim tão séria, francamente, mas os rumos da crônica costumam exibir sua própria miséria, muitas vezes oposta ao que o autor planejou, mas deixa isso pra lá. O caso é que assim que o gato se retirou, o rato, vendo-se livre e desimpedido, logo se espalhou: urdiu uma trama impensada e depois de rápida virada tudo se encaixou.

Nada disso é novidade. Muitas viradas de vida vieram de uma remanejada na decoração da casa, ou não seria eu uma arquiteta meio desarrazoada, não é mesmo? Pois assim que cheguei do aeroporto, e já antes disso, subindo a serra de volta a Itaipava, algo irrefreável começou a borbulhar dentro de mim, e não era um desejo de livrar-me do Alan de vez nem nada disso, ainda bem. Mas, simplesmente, de dar uma boa remexida no velho caldo de cultura de nosso cotidiano caldeirão.

Alan, como seria de se esperar, manteve por todo esse tempo alguns privilégios de marido — e me pergunto, será que ainda é comum hoje em dia a mulher ceder tanto assim para seu parceiro? —, o lugar no sofá vermelho, por exemplo, sempre de frente para a Maria Comprida. Mas nem por isso deixava de reclamar o dia inteiro, e o que mais o incomodava era a  visão permanente da antiga Brastemp que herdei de mamãe.

Pois agora isso tudo acabou, viu, meu amor? Pode acreditar. Carumba — Alan sempre erra esta palavra, faz com que soe meio como uma doença —, eu só precisava de um pouco de espaço pra me acomodar.

Bastou uma reforminha rápida, e quando Alan retornar… nem vai mais se lembrar de como era tudo errado na nossa organização, espacial, claro. E ainda ganhamos uma sombrinha extra nos fins de tarde, quando ferve a sala ensolarada, digo, toda envidraçada. A geladeira continua lá, mas da próxima vez que ele se sentar no sofá, estaremos ambos de costas para a cozinha americana, que alívio, nossa. E com a vasta amplitude da montanha a nos penetrar, uma coisa tão óbvia que nem vale a pena comentar, mas que há tantos anos eu não conseguia vislumbrar; porém, para o desespero dos adeptos do Feng Shui, de costas para a porta de entrada também: um crime inafiançável para a filosofia tradicional chinesa, mas que pratico contente, imersa na majestade da natureza aqui na frente, ô coisa boa, sô. Pensei até que no dia seguinte fosse me arrepender, mas, qual o quê, que mané Feng Shui o quê.

E um bom domingo procês!

 

8 comentários em “O reverso do Feng Shui

  • 03/02/2013 em 19:07
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    Gente, realmente é uma felicidade ser Ateu convicto generalizado (ACG). Desta feita aceitamos o Universo como ele é, sem qualificar ou esperar nada. O fogo queima e a chuva molha. Ponto. E um santo remédio para quase td. Confie em aquelas coisas que dependem de você…o resto bem é simplesmente efeitos colaterais de estar vivo, pelo menos por algum tempo.

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  • 03/02/2013 em 12:16
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    pode ser que vc esteja certa…mas se apegar ao passado não é uma coisa que seja boa para ninguem
    eu não faço nem nunca fiz Feng Shui, não creio em Numerologia e não dou a menor bola para a Cabala

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  • 03/02/2013 em 10:09
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    ué, vc não tinha geladeira antes?
    eu herdei uma Brastemp de gente que morreu e doei, guardei a minha geladeira velhinha que tinha a minha energia
    mas a nossa energia nunca deve ser substituida por alguem que amavamos ou odiavamos
    isso nada tem a ver com supertições; eu, pessoalmente preferia não ter geladeira nenhuma, ou roupa nenhuma a ter de usar a de uma pessoa que eu conhecia e sabia de suas dores, de seus sentimentos e de seu passado

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    • 03/02/2013 em 10:31
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      Rosane, eu já vivi assim a maioria dos meus anos, no Feng Shui, na energia, em crenças mil, mas felizmente me livrei de tudo isso e não me faz a menor falta hoje em dia nem nunca me ajudou em coisa nenhuma. E Alan é como eu, só acha a geladeira feia, porque o que ele quer é aquela novíssima de aço inox, e não o culpo, é o que eu quero também, ainda economiza energia porque tem o selo do Inmetro, kkk. Sorry. Sempre que eu posso eu falo isso porque acho que esse estilo de vida sufoca uma pessoa, e é tudo ilusão pura.

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  • Pingback: Noga Sklar | O reverso do Feng Shui

  • 03/02/2013 em 09:18
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    Rosane, pra doar a Brastemp vou ter que vender muito livro! Este ano eu chego lá, mas ela é, assim, uma Brastemp! Basta deixá-la lá!

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