O reverso da magia

A base de funcionamento de toda a energia psíquica não é amar e ser amado. É querer e ser querido, eleito; único, pinçado entre todos os outros  o escolhido. Predileto, preferido.

Certa vez conheci uma mulher que havia começado a jogar um modesto bingozinho numa dessas enormes casas de bingo que estavam bombando na época. Pessoas perdiam milhares e milhões nesses lugares e cada vez os frequentavam mais! Já tinha ouvido histórias de pessoas que perdiam imóveis, carros, e, dependendo do cacife do perdedor, lanchas e jatinhos!

Bem, essa minha conhecida pretendia apenas inovar seus programas já repetitivos: muitas vezes, assistia televisão depois do jantar até dormir. Tinha aberto um canal de excitação, salão enorme, muita gente bem vestida  ah, como a pessoa se prepara para perder dinheiro…

Ela até que era, digamos, comedida, mas começou a notar que, no frigir dos ovos  nos implacáveis números  estava era a perder um bom dinheiro. Opa! Já não era mais inocente, já tinha estancado outros vícios adições, como se chama hoje , e sabia quanto o processo de exagerar, parar e reparar o estrago posterior a um inócuo gosto por chocolate havia lhe custado em todas as áreas de sua vida. Portanto, ao perceber que já estava passando daquele ponto em que a pessoa começa a arriscar mais do que deve, foi procurar ajuda.

Numa conversa entre amigos em comum, eu a ouvi contar, aflita, o seu caso com o bingo. Sugestão: leve apenas o dinheiro certo e quando acabar, acabou! Dê um tempo! Ela já havia tentado tudo isso e tinha voltado com uma voracidade maior ainda.

Foi então que fiquei curiosa para saber por que a pessoa encontrava tanto prazer em preencher uma cartela de números sorteados a esmo! Perguntei.

Ela me respondeu: porque quando eu preencho a cartela e grito BINGO!, antes de todo mundo, é de indizível prazer ver 2 mil olhos me fitando com inveja e admiração. E eu, apenas eu, fui a escolhida pelos números daquela vez. Olho em êxtase para o salão todo, sorrindo, como numa daquelas tomadas de cinema que faz um círculo em toda a volta da pessoa (esqueci o nome da tal tomada). A alegria de ser a escolhida mal cabe no peito. Então a pessoa volta, e volta e volta atrás desse êxtase.

Daí, retonamos ao início, à base do funcionamento de toda a nossa vida psíquica: o escolhido, é só o que nos satisfaz. Uma espécie de “Complexo de Espermatozoide” (© R.A.).

Daí, todas as dores, ilusões, fantasias e decepções dos amores. Dói mais você ouvir um “eu te amo, mas não te quero mais” do que a morte a pessoa amada. Perder para a morte, tudo bem. Mas perder para um “não há ninguém, apenas estou precisando ficar um tempo comigo mesmo”  o que é sempre mentira, tem outro, pelo menos em vista ou a meio caminho andado , é duro demais. Tanto que eu sempre digo que qualquer relacionamento é uma aventura de alto risco. Ainda mais inclui prática de sexo, quando o “complexo de espermatozoide” atinge sua máxima potência, explode, e a questão pode, como estamos cansados de presenciar, acabar em morte, catástrofe familiar e até social, de repercussão mundial! Já era de se esperar que a zona de poder mundano fosse extremamente perigosa.

Mas não devemos temer, mesmo porque, não adianta: não há como se proteger da força mais poderosa deste mundo  o desejo. Há apenas que aprender a lidar com ele. Não digo administrar, porque seria muita presunção da minha parte. A receita é mágica, como já mencionei em crônica anterior. E a magia é obedecer a si mesmo.

Compromisso -> ajoelhou tem que rezar -> confiança (abrir mão de querer que tudo aconteça exatamente como a gente quer) -> resultado: magicamente dá tudo certo!

O reverso: quebrar os compromissos, principalmente aqueles consigo mesmo, largar no meio seus propósitos por tudo o que parecer melhor, maior ou mais divertido durante a sua jornada ->baixa a autoestima e gera insegurança -> dispersão -> pisada na bola -> muito sofrimento ou mesmo catástrofe!

Espero, leitor, que você tenha entendido a ideia que eu quis passar. Se não, vou procurar me aperfeiçoar da próxima vez. Bom sábado para todos!

 

 

 

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4 Resultados

  1. cecilia disse:

    mto interessante o ângulo viciante proposto…

  2. manuel funes disse:

    Pensando…
    Bem, creio que procuramos fora o que não temos dentro de nós.

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