O Rei e o servo

Havia, num reino distante, um homem forte e poderoso, que governava uma região de rara beleza. Ali, os campos eram cultivados com capricho, os animais tratados com cuidado e sem sofrimento. Mas era em relação às pessoas que o mandatário daquela região se destacava. Não lhe importava se eram servos ou senhores, a todos tratava com respeito e dignidade.

Vivia num castelo antigo, mas majestoso; sua esposa o amava e lhe dera um filho. O reino vivia uma época de prosperidade e paz, até que uma doença se alastrou por aquelas terras. Deixava as pessoas com febre alta, e muitas não resistiam. Apesar do esforço do Rei e dos médicos do reino, muitos morriam sem que nada se pudesse fazer.

Um dia, a Rainha adoeceu; o Rei se desesperou, e apesar de todos seus esforços e daqueles que zelavam por sua saúde, veio a falecer. O Rei, abatido, entristeceu; e se fechou em seu quarto e na sua dor. Lá permaneceu, mal comendo e sem querer conversar com ninguém.  A criança era sua única alegria, mas mesmo sua presença o entristecia, pois tudo nela lhe lembrava a mãe. Uma dor pungente dilacerava seu coração.

E enquanto o Rei, preso em sua dor, se esquecia do mundo, suas terras e seus servos sofriam com sua ausência. Sem sua liderança as pessoas se sentiam desamparadas, e logo um grande sentimento de abandono se espalhou por todos os lugares. As colheitas não eram colhidas, e se eram, isso era feito de forma desleixada. Os animais viviam ao relento, sem proteção e comida, pois o desânimo era geral e ninguém se animava a  fazer nada.

E o senhor daquelas terras permanecia trancado em seus aposentos, sem querer saber de nada. Apenas a um velho criado, que servia no castelo desde o tempo de seu pai, era permitido entrar em seus aposentos. Conhecia seu senhor desde criança, e o Rei por esse homem estima verdadeira e serena confiança .

O velho servo via o sofrimento de seu senhor, mas sabia que para as doenças da alma apenas o tempo era o grande remédio. Um dia, entrando no quarto daquele homem poderoso, que se encontrava em completo desalento, ouviu dele uma pergunta lançada ao vento, em pleno desespero:

— E agora, meu Deus o que faço?

O velho servo, vendo a dor no rosto daquele a quem tanto estimava, não se conteve e falou:

— Majestade! Perdoe-me o atrevimento! Mas posso lhe falar?

O Rei, ouvindo a voz daquele homem que tanto apreciava, levantou o rosto e disse:

— Diga!

— Senhor, sei que a dor que o atinge é devastadora, mas há muito aprendi com um homem sábio que se a dor na vida é inevitável, o sofrimento é escolha nossa!

— Não deixe que lhe faça esquecer quem és! Um Rei forte e poderoso! Responsável por liderar seu povo!

O Rei, espantado com as palavras, fortes, mas sábias, daquele homem, o olhou com admiração. Este sustentou seu olhar e acrescentou:

— Vamos, senhor! Faça o seu trabalho e nos lidere!

O Rei despertou de seu desespero. Levantou-se da mesa, e caminhando em direção ao velho serviçal, apoiou a mão no ombro dele e disse:

— Tens razão! A vida e o dever me chamam!

Daquele dia em diante, o Rei se refez, e pouco a pouco ele e seu reino voltaram a sorrir.

Passados alguns anos, outra moléstia atingiu o reino. O Rei não se deixou esmorecer como na primeira vez, e redobrou seus esforços para proteger aqueles que estavam sobre sua tutela. Assim, poucos pereceram ou ficaram gravemente doentes. Infelizmente, o velho servo foi um desses que a doença atacou.

O Rei chamou novamente os melhores médicos, mas estes lhe disseram que, apesar de todos os esforços, a idade e a moléstia haviam se aliado contra aquele bom homem. O Rei visitava o doente diariamente. Num desses dias, com febre alta, ele pediu num quase delírio:

— Água! Um pouco de água!

O Rei tomou a caneca da jovem que acompanhava o paciente, e pessoalmente ergueu-lhe a cabeça e levou à sua boca o líquido refrescante. O homem abriu os olhos e reconheceu seu senhor. Um leve sorriso surgiu em seus lábios e ele falou:

— Obrigado, meu Rei! Nem todos nascemos para mandar, mas todos podemos servir! — olhou nos olhos de seu senhor e este, com os seus cheios de lágrimas, viu os de seu amigo lentamente se fecharem, para nunca mais se abrir.

 

 

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