O que pode uma mulher

fonteOntem à noite eu estava sem assunto para a crônica semanal, vocês sabem, ando cansada e o domingo parece que chega cada vez mais rápido, ou, por outro lado, com tantos assuntos para escolher que todos me pareciam, hum…

Não posso chamar de chata a questão da guerra, nem da crise, nem da violência que recrudesce. Chato, no máximo, é o problema da Oi que há vários dias nos deixa com a conexão instável, muito mais que chato, pois meu paraíso particular, a enlevação pela natureza que me mantém a salvo de todas as pirações que em volta nos ameaçam, inclusive a guerra também muito particular pelo mercado inexistente dos livros digitais, depende desta controversa maravilha moderna que é a internet. E nem adianta apelar para o modem 3G que tantas vezes no passado me resgatou, porque há coisa de algumas semanas o sinal da Vivo, perfeito por um bom tempo, resolveu desaparecer, dando munição extra ao explosivo pessimismo apocalíptico de Alan: “Eu falei que isso ia acontecer, é por aí que o fim dos tempos vai nos derrubar”, taí, somos todos drogados de computador e cada vez mais dependentes de nossas máquinas de comunicar, o que também acaba sendo muito chato no final das contas.

Mas voltando ao assunto do assunto, o anjo do assunto, como o anjo da vaga de estacionamento, nunca deixa de comparecer, e ontem à noite não foi diferente. Foi encerrar o expediente para aparecer na TV um filme interessante, tudo a ver com o tema que eu queria abordar, mas por um ângulo mais lúdico, menos estressante.

Tratava-se de um grupo de mulheres em uma aldeia primitiva de algum lugar da África, mas, ops, peraí, primitiva? Em primeiro plano, na primeira tomada, vemos dependurado no varal de roupas um celular, e logo mais à frente uma cena em que a matriarca, paramentada como uma beduína de três séculos atrás e ainda enfrentando os mesmos tipos de questão quanto à posição feminina numa comunidade, fala ao celular — montada em seu burrico que a leva aonde há sinal, praga mundial — com seu filho que mora na capital e que, ela pensa, está trabalhando para sobreviver e criar um capital, mas que está na verdade metido com a rotina fundamentalista da opressão contra as mulheres.

Está no Alcorão, eles dizem: “O homem tem o direito e o dever de bater em sua mulher e fazê-la obedecer”, nossa mãe.
Toda a questão do filme, “A fonte das mulheres”, gira em torno da falta de água corrente na aldeia. Não há água, não há eletricidade, e o maior oficial da cidade acha que está bem assim, porque se água e eletricidade houvesse, o próximo passo seria as mulheres exigirem máquinas de lavar, e sem roupas para lavar, o que haveriam de aprontar? Juro por Deus, juraria, se deus houvesse para nos acudir.

Buscar água no poço distante é “obrigação ancestral” das mulheres, e por que alguém haveria de querer mudar isso? Os homens, que já não se dedicam à caça, nem ao pastoreio, e, bem, pelo menos naquelas bandas aparentemente pacíficas, nem muito menos à guerra — e já vou acrescentar maldosamente, por própria conta e risco, nem mesmo ao terrorismo, a não ser contra suas próprias esposas —, nada têm a fazer, e se dedicam o dia inteiro a, literalmente, coçar o saco. Sem deixar de lado as discussões filosóficas e o cuidado extremo em perpetuar o conveniente atraso em que vivem, claro.

Seria digna de nota a passagem na qual o professor da aldeia, um sujeito milagrosamente esclarecido (“Há islamitas esclarecidos, você se espantaria”, bem, esperemos que sim, afinal de contas o mundo é cada vez mais só um),  e que, por sinal, acaba demitido por ser tão esclarecido, tenta convencer o mulá (com acento no á, ih, desculpem, escapou, estou uma peste hoje, vocês já saberão por quê) a convencer as famílias a enviarem suas filhas para a escola para aprenderem a ler, e “para quê?”, pergunta o mulá. “Se souberem ler, vão querer frequentar a escola na cidade, teremos que pagar a mensalidade, e, além do mais, quem fará o trabalho doméstico?” Então tá.

Antes de seguir, quero esclarecer que se trata de um filme excelente, lindíssimo, nota 7 no IMDB, com sofisticados atores de origem árabe, falando alguma língua de família árabe, dirigido por Radu Mihaileanu, premiado cineasta romeno… judeu, ah, bom, o filme é tão bom, tinha que ter alguma coisa errada, porque meu ponto era justamente esse: existe uma cultura islâmica viva e dinâmica entre nós, tem que existir. Afinal de contas, como o próprio filme aponta, a mente islâmica produziu tantas pérolas culturais ancestrais, como “As mil e uma noites”, por exemplo, isso, pra nem citar a arquitetura, a matemática e outros expoentes da literatura.

Mas o que se vê nos jornais do dia e na TV — e tudo já vai por aquele mesmo caminho irritante outra vez, com a maioria do mundo engolindo sem pensar as manobras publicitárias que igualam a maldade israelense à do Tsar, ou de Mao, ou sei lá mais o quê, francamente — são aquelas turbas barulhentas de hoje e de antigamente, bem antigamente, selvagens, atrasadas, mal sabendo ler, e dando o melhor de si para não aprender. Com a diferença de que hoje em dia dispõem de celular, isso, claro, se o aparelho “pegar”.

O que eu não entendo é como o mundo pode pensar que um de seus países mais evoluídos, top de linha na informática e em todas as ciências médicas e matemáticas, com uma das melhores sinfônicas, o máximo grau de democracia, igualdade e liberdade e vou parando por aqui para não transbordar o balde, se ocuparia de atacar e matar a não ser por pura, urgente e revoltante necessidade de sobrevivência, ah, lembra o Alan lá de dentro, é tudo propaganda para vender o Domo de Ferro, que, aliás, se provou extremamente eficaz. Ainda bem.

Se não houvesse a beleza estonteante e a tradição milenar redundante, com tantos sinais arqueológicos locais quantos nos dispusermos a descobrir de que aquela é a terra de nossos pais, ali, junto ao ouro reluzente (calma aí, ouro espiritual, é claro, porque no material é uma pilha normal de pedras envelhecidas) das muralhas sagradas de Jerusalém, e tem, portanto, que ser igualmente a nossa, não há discussão possível quanto a isso, eu diria que o Estado de Israel caberia melhor na tranquilidade próspera do Vale do Silício, afinal de contas, o que estamos fazendo perdidos na banda estreita do Médio Oriente, afogados e envolvidos pelo atraso secular renitente, e que faz da ignorância o seu escudo mais premente, qual diamante abafado em meio à merda enlameada do chiqueiro da falta de civilização?

Ops. Desculpem. E eu nem abordei ainda a questão central da guerra do sexo à moda de Lisístrata, mas isso vai ter que ficar para outra ocasião. Possa reinar a paz na velha terra sagrada de Sião, e sem protocolos demais, por favor.

No mais, não percam o filme. Está no ar na TV, isso, no caso de o cabo pegar aí procês. E tenham um bom domingo de feriadão.

 

 

3 comentários em “O que pode uma mulher

Deixe você também o seu comentário