O protetor

O menino entrou na caverna com algo nos braços. Encurvado, protegia seu tesouro; não queria que os adultos que se reuniam em volta da fogueira o vissem. Ele sabia que, se percebessem o seu segredo, este seria destruído.

Encaminhou-se para o fundo do abrigo, junto a um ressalto de pedra onde guardava o que lhe pertencia e tudo aquilo que queria manter oculto. Delicadamente, colocou sua preciosa carga no chão. Vendo-se solto, o pequeno animal ganiu, algo amedrontado. Uma bola prateada de pêlo se movimentou cambaleante. Era um filhote de lobo.

O garoto, maravilhado e temeroso, reparou nas pernas finas e longas do bichinho. Seus olhos cor de âmbar olhavam com desconfiança, mas sem temor, para seu captor. O menino estendeu a mão para acariciar a pelagem de seu prisioneiro e levou uma leve mordida no dedo — um pequeno furo, um ponto de sangue.

Divertido com o incidente, ele limpou o corte na calça de pele de mamute, que o protegia do gelo e do frio. Colocou a mão novamente no seu algoz e o prendeu no chão. O amigo rebelde gostou da brincadeira e começou a tentar mordê-lo novamente. Aqueles dentes, apesar de ainda pequenos, se revelavam ávidos para mostrar seu valor. O garoto, entretido nesses jogos infantis, não percebeu sua mãe se aproximar para chamá-lo para a refeição.

— Judar! O que é isso?! — Exclamou a mulher, entre o espanto e a indignação.

— Mãe! — O jovem caçador reconhecia aquela a quem amava.

— Você enlouqueceu! — Exaltou-se a mãe.

— Mãe, deixa eu explicar!

— Não tem explicação! Jogue este animal fora daqui!

Homens e lobos eram inimigos naturais. Os últimos, animais fortes e que caçavam em bando, eram respeitados como hábeis predadores pelos que habitavam aquela planície. Como disputavam o mesmo território de caça, não eram bem acolhidos pelos humanos.

— Mãe, eu encontrei ele sozinho… A mãe foi morta por outro animal! Eu o vi ao lado do corpo dela. Estava sozinho e com frio.

A mulher olhou para o filho com admiração. Ela sabia que ele tinha um senso de proteção inato, um dom importante, que devia ser reforçado. Por ser o filho do chefe do clã, o destino do destemido protetor dos fracos e indefesos era liderar. Esta característica de amparar e responder pelos mais fracos era fundamental para a sobrevivência futura daquele grupo.

— Vamos falar com seu pai. Ele decide!

Judar se levantou temeroso, caminhou em direção à fogueira ao redor da qual os homens se encontravam reunidos.

— Thuram! Seu filho deseja lhe falar!

O garoto avançou para o centro da roda formada pelos guerreiros e disse:

— Pai, peço para criar este lobo — disse, estendendo o filhote à sua frente.

O homem olhou com interesse o garoto e o animal que ele tinha nas mãos. O jovem lobo, parecendo saber que sua vida estava em jogo, tremia, ciente do perigo que corria. Thuram examinou o bicho, mas se ateve principalmente à atitude do filho. Mesmo com medo de uma recusa ou castigo, o rapazinho reivindicava a manutenção de uma outra vida.

— Judar! Este filhote parece ser dotado de grande magia e proteção, mas precisará de alguém que cuide dele e de sua alimentação. Você assume esta responsabilidade perante este conselho?

O garoto se viu maior diante da questão. Os outros guerreiros olharam para ele, se fazendo de sérios em vista do desafio que o garoto enfrentava.

— Pai, eu vou cuidar do Ronin!

— Ronin?

— É este o nome dele — retrucou, olhando diretamente para o homem a quem tanto admirava. Este sorriu e lhe devolveu o animal trêmulo.

— Está bem. Ronin agora é sua responsabilidade.

O lobo, sentindo que o perigo se afastava, se aninhou nos braços de seu protetor com satisfação.

 

 

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