O prodigioso Evaristo

Muitas palavras não combinam com a definição que lhes dá o dicionário, e prova disso é que quase todo mundo, alguma vez na vida,  já achou que o melão deveria ser o marido da melancia.  Assim, foi divertido quando Evaristo resolveu atribuir a algumas palavras um novo sentido, que realmente combinava com elas: “clavícula” virou instrumento musical e “véspera” um inseto pré-histórico.

Aos poucos, Evaristo foi despojando do significado original um número cada vez maior de palavras.  Várias pessoas tinham dificuldade para conversar com ele, mas não tinham coragem de admitir, porque sua inteligência era famosa.  Não se julgavam preparadas para contestá-lo quando ele chegava a uma lanchonete, apontava para o pão de queijo e dizia: “Por favor, me dê esta coxinha sem galinha”.  Criativo, o Evaristo.

De repente, ele começou a omitir palavras nas frases. Para pedir um pão de queijo, no lugar de dizer “Por favor, me dê esta coxinha sem galinha”, dizia simplesmente “Por favor, sem galinha”.  O sentimento geral foi de que o raciocínio dele era tão rápido que, para conseguir expressá-lo com a mesma velocidade, Evaristo precisava retirar da linguagem tudo que fosse supérfluo.  Brilhante.

O número de palavras omitidas foi se tornando cada vez maior.  Ninguém mais o compreendia, mas ele parecia não se importar.  Por unanimidade, passou a ser considerado um gênio, que preferia dedicar-se completamente ao pensamento abstrato sem necessidade de dar explicações inúteis.  Admirável.

Por algum tempo, Evaristo ainda usou vocábulos da língua portuguesa (embora completamente despidos do seu sentido original), mas, em permanente processo de evolução, não tardou a desprezar também a linguagem formal.  Agora só se importa com o conhecimento e o raciocínio, e fala coisas que soam como cdrjhh juinc.

Estudiosos afirmam que em breve Evaristo superará a si mesmo, libertando-se de qualquer forma de linguagem, só restando o pensamento em estado puro.  Estão convencidos de que ele será o primeiro ser humano a usar comunicação telepática.  Infelizmente, por enquanto não existem na Terra interlocutores à altura de Evaristo, nem a humanidade está preparada para compreendê-lo.  Mas muitas pessoas já perceberam que ele é o mensageiro de uma nova era de espiritualidade.

 

 

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2 Resultados

  1. manuel funes disse:

    Evaristo deve ser uma excepção.
    Se observamos as novas gerações na nossa volta, dificilmente falam o escrevem a língua materna de forma “aceitável”, sem contar que cada vez mais o “vácuo” interno aumenta, sem contar com desconhecimento de onde vem… sem querer ser pessimista creio que estamos entrando no que chamaria de “Era Obscurantista Tecnológica”….

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