O príncipe

Fazia tempo que ele olhava através da persiana a lua, mas existia um vácuo em seus pensamentos. Havia alguma coisa ali, ele sabia, mas não divisava com exatidão o que era. Pensou que se ficasse olhando fixamente acabaria por descobrir. Aqueles sons que ouvia por perto também não ajudavam muito — tosses, roncos de todas as espécies até o fizeram sorrir, tinha um que parecia uma trombeta, mas não queria perder o foco, já que estava tão perto de descobrir.

O luar batendo naquela grade em frente à sua janela, sim, ali havia alguma coisa  Aquele sobrado em frente com aquela grade… faltava alguma coisa naquele lugar. O que seria? Aos poucos uma mancha branca começou a surgir e parecia que havia alguém, sim, uma menina, melhor, uma mocinha, cabelos escuros, lisos e compridos, o rosto bonito não parecia tão infantil, mas aquele pijama de flanela branca estampada de bichinhos era de uma criancinha.

Ele estava passando quando a viu. Ia muito depressa, não estava a pé. Engatou a marcha a ré e retrocedeu o carro vermelho. Não tinha como ela não tê-lo visto passando. Àquela hora da noite não havia mais ninguém na rua, era uma noite fria de inverno, muito límpida, e o luar estava muito claro. O que ele lhe diria? Desligou o motor que fazia um barulho ensurdecedor com aquele escapamento aberto. Ficou ainda por alguns instantes sentado no carro, enquanto a olhava e tomava ânimo para falar.

Seria melhor sair do carro? Sim, ele era um cavalheiro. Pelo menos pretendia ser, um dia. Abriu a porta e levantou-se, mas não se afastou do carro, procurando proteção. Como poderia uma garotinha inspirar esse sentimento num rapaz tão grande? Ele não entendia, mas a boca estava seca e as mãos um pouco trêmulas, mas agora não havia volta, teria que se dirigir a ela de qualquer maneira. Sabia que já a tinha visto por ali algumas vezes, mas havia outras também naquela casa e ele não conseguia distinguir qual era qual.

Ela estava sentada no chão do alpendre com as pernas para fora da grade balançando um pouco. Seu rosto era sereno e ela o encarava com intensidade. Esperava. Finalmente, ele a cumprimentou e perguntou o que ela estava fazendo ali. A menina sorriu seu sorriso mais lindo, ao ouvir pela primeira vez aquela voz grave e de um tom bonito. “Nada”, respondeu, mas pensava que estava li sonhando como sonham todas as meninas. Sonhava com um príncipe encantado que a viria resgatar daquela torre, onde era tão infeliz. Ele perguntou seu nome, não sem antes passar a mão pelo rosto num gesto que se repetiria até o fim da vida quando ele estava aflito. Ela respondeu e perguntou o dele, mesmo sabendo muito bem qual era o nome do rapaz. Ficaram ali por alguns minutos numa prosinha boba.

Ele estava começando a se perder, e a perder a cena. Sua mente estava divagando e entrando no limbo novamente. Ainda viu sua própria mão no alto com um beijo arremessado para ela. Os dedos finos e as costas da mão iam mostrando aos poucos  manchas que ali não estavam havia pouco, o braço não ia tão alto e estava bastante trêmulo. A mocinha não estava mais por ali, mas uma sensação boa o invadiu e ele bocejou: “Acho que já posso dormir.”

Levantou-se e se deitou na cama estreita sentindo um calor antigo, uma saudade imensa, não sabia de quê.

 

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Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

5 comentários em “O príncipe

  • 14/01/2012 em 19:23
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    Caros leitores e amigos,
    É incrivel,como a metafora deste conto ,que tem aroma de poesia nos leva a divagar pelo abstrato de nossa alma.
    Sem dúvida alguma a Priscila tem o dom de transformar as palavras em sonhos e na realidade o que importa mesmo é a capacidade de viajarmos através das metaforas do conto de fadas que tem aroma de POESIA.
    Continue Priscila nos agraciando com momentos agradaveis através das metaforas.
    Beijos
    Aldi

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  • 13/01/2012 em 19:38
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    Eu diria que conto ou crônica, está no limiar dos dois, é o que se chama de Fantástico ou por alguns críticos, Maravilhoso.
    Seja como for, na leitura, quer-se mais. Então cumpriu seu papel!
    Abç,
    Cármen Rocha.

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