O prepúcio ou pinto-calçudo

por Eduardo Borsato

 

— Ai, não faz, doutor… não faz…

E ele, a voz quebrada, pastosa, os dedos a lhe subir pelas coxas:

— Dêxa… só um pouquinho… 

Telepata espiritual, Florinda tinha dele a mais nítida das visões. Do passado, sabia-o casado, dentista, pai de um casal de filhos, com consultório na Augusto de Vasconcelos, ao lado do Corpo de Bombeiros (onde, aliás, agora estavam, ela na cadeira, ele à sua volta, afogueadíssimo). Do futuro, sabia-os ligados, vivendo a mais descabelada das paixões. Depois vinha o mistério, o advento do anticristo, oh, nada mais sabia ela, nada mais, além de sentir-lhe as mãos, ver-lhe os olhos bambos, o risinho afobado, bobão e nervoso dos apaixonados.

— Não… não… — gemeu, fazendo menção de se levantar. E, súplice: — Pelo amor de Deus… eu sou casada…

— Sei…

— De respeito…

— Sei, sei…

Há seis meses, começara a nascer-lhe um siso, extemporâneo e dolorosíssimo:

— Magina… tou quase chegando aos trinta e só agora… — queixara-se a uma amiga.

— Procura o Dr. Olinto. Ótimo profissional. E, com um risinho: — Respeitador como poucos.

Procurou-o e, diga-se de passagem, mais pelo risinho do que por outra coisa. Não se decepcionou. Ele lhe pareceu um sujeito seríssimo. Zolhudo, magro, um pepino ressecado, baixinho, o pomo de Adão a saltar-lhe, tremendo gogó, a ponta revirada, em cedilha. E, surpresa das surpresas: também telepata espiritual, como ela discípulo de Shiva, participante da Grande Fraternidade Branca.

           

Hara hara

Gurudeva

Parabrahma

Parameshwara

 

Na posição de lótus sob o luar, na aldeia da lua orvalhada de Yin Tsé Yam, era este o mantra que recitavam, todas as quartas, quintas e sextas, a partir das quatorze horas, antes de se iniciar o tratamento do canal no maxilar superior esquerdo.

— Diabo de tratamento esse. Não acaba nunca — reclamava Nerval, o marido.

Já fazia três meses que ela ia ao consultório e, falando francamente, o que mais desejava agora era que o tratamento não terminasse tão cedo. Isso, porque os pontos em comum que tinham, ela e Olinto, a cada consulta mais se ampliavam. As altas especulações filosóficas que ele fazia a encantavam a ponto de… Por exemplo: suas preocupações a respeito do paradeiro do prepúcio de Cristo eram de fazer cair o queixo de tão profundas, transcendentais. Explicava: Cristo tinha ressuscitado, não tinha? Logo, seu prepúcio devia ter ressuscitado com ele. No entanto…

Interrompeu-se, o olho fundo:

— Sabe? Prepúcio. Aquela carninha.

— Sei…

— Mesmo?

— Ora…

— Fica bem atrás da…

— Sei, sei…

— Olha, vou-lhe mostrar.

Ela, débil:

— Não… não…

— Para esclarecer qualquer dúvida.

Ela, mais débil ainda:

— Não… não precisa…

— É demonstração necessária.

— Hein?

— Científica.

— Ah…

— Anatômica.

— Ahn…

— Respeitosa. Acima de tudo.

— Ahã…

           

Em casa, pediu ao marido:

— Me deixa ver o teu prepúcio.

— O quê?!

Prepúcio. Aquela carninha.

— Sei…

Cristo não foi enterrado com o dele. Sabia?

— Não…

Mas devia.

E ele, depois de uma pausa, num repelão:

— Ei! Que papo é esse? Ficou biruta?

Impossível não comparar os dois. Olinto era tão… enquanto Nerval… Casaram-se muito cedo, ela bobinha, ingênua, ele pinto-calçudo, mas lindo de morrer, os olhos verdes cor do mar e ela por eles se encantou e num dia de mar revolto, pertinho de onde moravam, em Sepetiba, deitada num matinho, ai, a brisa que vinha do mar foi e levou e foi e levou sua ingenuidade, ai, mãe, acho que tou grávida, De quem?, Foi o Nerval?, Então tem que casar, seu pai  mata os dois, e os dois se casaram, era rebate falso, tinha filho nenhum e passaram a morar ali mesmo, perto do mar, ele pescador, saindo e ficando no marzão verde, dias e dias pescando e pescando, ai, Nerval sempre preocupado com as marés, com os baiacus, enquanto Olinto… e foi se cavando entre eles um fosso tão fundo que… e agora era aquilo, ela a sentir a mão de Olinto nas entrecoxas, ui, o que seria dela, aquela quentura, aquela…

Implorou:

— Para, para! Pelo amor de Deus! Senão…

— Senão?

— Ai… não guento… faz… faz…

— Oh! Oh!

— Faz tudo… tudinho…

— Oh!

— Ai! Ai!

E ela deu mais uma porção de gritinhos abafados, gritinhos que a gente dá quando se perde no mar. Mar que a eles agora sorvia, toda vez que Nerval por ele se ia e nele ficava dias e dias. Ah, perdiam-se nas águas, em mergulhos sussurrados, em desmaios desvairados, por atônitas sereias testemunhados, iaras, cachalotes, baleias.

           

Assim quedaram-se, 

por dias e noites, 

por noites e dias

sem fim,   

ela, o anjo decaído,  

ele, o querubim. 

Até que Nerval,   

um Netuno de tanga,            

de horrenda procela   

fugido,  

os dois surpreendeu   

a viver  

aquele amor bandido.

 

Então, autêntico Tritão de opereta, gritou:

— Ahã!

Os amantes, gelados, se encararam.

— Agora tou entendendo.

E ela:

— O quê?

— Então era o dele?

— O meu?!

Era ou não era?

— O dele o quê, Nerval?

— Não sabe, sua desalmada?

— Não…

— Nem desconfia?

Ela fez um gesto vago. E Nerval:

— O prepúcio.

— Hein?! — assustou-se Olinto.

— O dele. O preferido.

Nerval esfregou as mãos, numa aflição:

— Por que, Flori? Por quê? — E depois, os olhos marejados: — Você tá me punindo?

— Não, não…

— Mas eu… eu… — Desmoronou, em lágrimas: — Eu não sou culpado… não sou…

Fez-se uma pausa. Olinto pigarreou:

— Olha, num primeiro momento… quer dizer… bom… até que ela o culpou mesmo.

— Foi? — e Nerval engoliu as lágrimas.

— Foi? — repetiu Florinda, arregalando os olhos.

Olinto fez um gesto grave de cabeça, encarou Nerval:

Por que acha que o tratamento estava demorando tanto?

— Ora, o que o canal tem a ver com o…

— Na verdade, nada.

— Pois então? Afinal, o que…

E Olinto:

— Estou falando da culpa. Eu a estava tratando da culpa, não do canal.

— Estava?! — e Florinda arregalou de novo os olhos.

— Espera. Ela estava sentindo culpa?

— Estava.

Droga, que culpa?

— A mesma que você.

— A mesma, é?

Nerval fez um gesto desarvorado. Olinto sorriu. Florinda sorriu amarelo. Perguntou:

— Tem certeza?

E Olinto, beatífico:

— A dor no siso. Um sinal. Mas não o maior.

— O maior então foi…

Olinto completou:

— Ela se entregar a mim.

— Peraí. Quer dizer que ela se punia dormindo com o senhor?

— Ahã.

— Então ela não sentia…

— Prazer?

— No mínimo, né?

E Olinto, sempre sorrindo:

— Ela pode até pensar que sim. Mas, no fundo, no fundo, sofria. Muito.

— Verdade, Flori?

— É… pensando bem…

Olinto reforçou:

— Ela praticava a imitação cristã. Sabe como é… imitar o sofrimento de Cristo para compreendê-lo perfeitamente.

— Verdade, Flori?

— Só que, em lugar do Cristo, ela imitava o seu sofrimento. Para, quando o tratamento terminasse, voltar aos seus braços, amá-lo mais ainda.

— Muito mais, Flori?

— É… muito…

Nerval deu um sorriso tão grande, mas tão grande que nele se podia dizer que estava guardada toda a felicidade do mundo. Olinto desviou os olhos, pensou em sua infância, em pradarias, em corcéis a correr, a perderem-se por planícies e montanhas, a varar nuvens de borboletas, girassóis, ouropéis.

— Mas a gente pode viver isso tudo sem sofrimento nenhum — disse Nerval.

E, sempre sorrindo, antes que Olinto pudesse fazer qualquer coisa, pegou Florinda pela cintura e com ela mergulhou, levou-a para as profundezas.

Olinto contemplou as águas, o grande círculo que fizeram, até que se fecharam, novamente plácidas. E de novo os corcéis lhe apareceram, mas não quis mais acompanhá-los. Saiu do quartinho pequeno, apertado. Também não quis ver as manchas escuras, avermelhadas, que escorriam pela porta quando a fechou atrás de si. 

 

 

 Eduardo Borsato é teatrólogo, contista e novelista. Foi ghost-writer, redator da Rede Globo e adaptador de novelas de televisão para bolso e livro. Por dez anos, editou house-organs e jornais de bairro. É autor de Minha filha também, e outros contos de cordel urbano, pela KBR. Eduardo Borsato está na Amazon.com.br, confira.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

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