O prepúcio de Cristo

A boa literatura, como poucos sabem, não é tudo isso que está aí. É um pouco mais, que muitos não conseguem compreender, até porque dela não conseguem se aproximar, impedidos pelos traficantes de mentes que a tentam engarrafar.

Passado o frisson do desafio da sobrevivência do livro, ufa, contrariados finalmente os piores prognósticos dos amadores do peso e viciados em cheirar papel, com a deliciosa consequência de não ter sido decretado o fim do livro, mas sim seu renascimento, desembaraçado de qualquer constrangimento, estando neste momento o hábito da leitura adentrando os mais insuspeitados estabelecimentos, resta-nos a mais impertérrita missão, é isso mesmo — não entendeu, não? vá ao dicionário que vai lhe fazer muito bem, e além disso aprenderá uma nova coisa, tem dicionário online também e até embutido no seu Kindle, à distância de um botão, imagine —, de mostrar ao povo que além do fico, resta ao livro e ao eterno afinco do escritor a batalha do conteúdo.

E por falar em povo, não sei o que se passa com ele — come on, people, vocês nunca foram bobos, sempre detestaram aquilo que sabem que é um engodo. Todo mundo quer ler, mas eu acho que não sabem bem o quê, então ficam pra lá e pra cá como pau-mandado.

Já nem vou puxar a brasa para a minha sardinha, eu, inaudita autora de oito livros e um nono a caminho, mas um grande, imbatível mestre como Nelson Rodrigues, que chega agora ao meio digital, tem sido preterido pelas listas em favor de meros extratores de letrinhas como essa dona, de casa no movimento mas depravada só no pensamento, ou daquele que se diz mago mas a quem falta a magia do alto entretenimento, o dom de nos arrebatar pela inteligência de seu envolvimento. Nelson merece a lanterna, sim, mas não a das listas, e sim aquela que ilumina com arte e profundo discernimento nosso atribulado caminho pela vida.

O grande, impagável Nelson, grande em boa parte porque embora ficcionista derramava em livro o mais radical do real que lhe ia na alma em sofrimento (ui, era, é, muito engraçado também, embora sempre trágico), virou livro faz tempo, mas há outros ainda entre nós que mantêm acesa a chama da literatura, a que queima em neurônios enquanto arte com a mesma entrega, e talento semelhante. Mas penam como Nelson penou embora por muito mais tempo em busca de merecido reconhecimento, e às vezes me entristeço porque embora saiba, ih, já vou indo embora, fazer de um bom livro um grande monumento, tenho falhado continuamente em mostrar seu valor num mundo dominado, é, pois é, o erotismo é lindo e faz parte, mas à perversão de uma dominatrix de mercado falta… arte.

Mas não estamos aqui para falar do grande Nelson, nem das porcarias que cotidianamente conspurcam nossos colos e Kindles, chega de negativismo e teoria de conspiração, estamos aqui para falar de inspiração, da joia engastada que nos dá tesão, elevação, alegria de ser. E esta arte existe ainda, meus amigos, e no momento impertérritamente praticada em apartamento alugado num campo suburbano do Rio, pouco se importando se em troca de seu empenho haverá retorno, porque a grande arte é assim, se alimenta dele mas pouco liga para o entorno. Entorna, imperturbada e generosa.

Em outra ocasião já o nomeei o “Shakespeare de Campo Grande”, outros resenhistas o “Nelson Rodrigues de Campo Grande”, e agora com este novo livro que sai dia 12 me sinto tentada a apelidá-lo o “James Joyce de Campo Grande”, mas que monstro intelectual seria este?

Eduardo Borsato, vamos combinar, não é nem isso nem aquilo, nem justifica falar sobre ele como quem comeu, bebeu, e agora faz o quilo. Sim, engoli este novo livro e até hoje o estou não digerindo, mas degustando na mente. É soberbo.

Em suas curtas linhas à moda do cordel brasileiro, destila entre  venenos miúdos a droga da escrita que inebria os sentimentos, mas que gênio é este que nos faz, ao mergulharmos em sua leitura, merecer o epíteto de “humanos”? Ser humano é isto, não é ser vampiro, nem dominado nem dominador, mas um de si próprio e de seu próprio prazer exímio criador. E este é Eduardo Borsato.

Há no livro suspenses inacabados e desafios não completamente consumidos, ou consumados, pois no outro dia um grande crítico nos disse que a literatura é a arte da incompletude, claro que é, as entrelinhas fazem grandes o que não há de explícito na linha, e é isso que a gente busca pescar, e é por isso que pescar é instigante, não adormecer até que pegue a linha o peixe grande, linha de pensamento, claro.

Eduardo Borsato é tão bom que consegue ser linha e peixe ao mesmo tempo, óbvio e oculto sem alterar o ritmo do entendimento, e engraçado acima de tudo, sim, não é o riso que ilumina o discernimento? E como um Joyce, Shakespeare, Nelson, corcel sem comedimento, mistura música, prece, línguas e, por que não, puro entretenimento. Recomendo.

Como editora é raro que eu me dedique a algum favorecimento, nem posso, mas em certos casos a tentação oblitera o conhecimento, e este é um deles. E por entre os dedos lambuzados da gordura prazerosa deste herético cordeiro — se não fosse aético, não teria graça nenhuma —, podemos enfim compreender o que fazer para evitar que a boa literatura se transforme no prepúcio de Cristo, como Eduardo irônica e brilhantemente nos lembra, uma carninha malévola ausente do corpo e do sacrifício como pregam 6 mil anos de benefício intelectual, em outras palavras, sem serventia, nem para o gozo nem para a transfiguração, mas por que mesmo faltava o prepúcio ao corpo de Cristo? Fica lançada a pergunta.

Leiam, sim, que ler é bom. Mas leiam somente o que é muito bom, ou resta contaminada a nossa humanidade iluminada, resultaremos tristes, entediados e emburrecidos. Embora discreta, a KBR tem feito a sua parte para preservar a arte da literatura: não publicamos somente a vanguarda do livro, mas em muitos casos inéditos, a insuspeitada qualidade rediviva do conteúdo dos livros, livro digital, claro. E Eduardo Borsato, com sua curta vasta obra, é parte inestimável disso, já publicou conosco 6 livros, um deles também em inglês, todos aí, para o deleite de vocês, sendo este Agnus Dei o ápice do compromisso com a arte de escrever.

Ou nem nos empenharíamos em nada disso, devo ser sincera com vocês. A arte da escrita é o que interessa, o resto é tédio à beça.

Editora KBR
Páginas 136
ISBN 978-8581800905
Ebook R$12,17
POD R$28,90
Na Amazon https://www.amazon.com.br//dp/8581800904

 

 

2 comentários em “O prepúcio de Cristo

Deixe você também o seu comentário