O pescoço de Eva

A primeira vez que meus olhos se viram refletidos na tarraxa daquele umbigo vermelho foi como ver um mar de lava venusiano. Ela perguntou o que eu estava olhando. “Nada”, respondi, e era a mais pura verdade, já que a garota vestia uma armadura tão cintilante que eu não conseguia enxergar quase nada, exceto o pisca-pisca no centro de sua barriguinha.

Eu a conheci em Marte, na fila da SCRH (Supervisão de Combate aos Resquícios Humanos). Ela entrou depois de mim, sentou-se no banco em frente e pousou o capacete nos joelhos, exibindo uma pequena e bela cabeça careca, de onde saltaram dois grandes olhos desprovidos de cílios, seios turbinados, belo traseiro, um par de coxas mecatrônicas torneadas e cabeadas com fibra ótica Trincalex. A única parte original do corpo de minha vizinha de fila era o pescoço.

Eva era seu nome, ela me disse,  exibindo trinta e seis dentes de titânio em um largo sorriso.

— O que você está lendo? — perguntei.

— A Diretiva Zero Nove, você ainda não conhece? Foi enviada com cópia para todos os robôs.

— Não.

— É a mais nova bobagem publicada pela Secretaria de Planejamento. Imagina! O Grande Jegue proibiu os servidores de trocarem fluídos no banheiro.

Pelo visto, a colega devia ser muito inteligente. Como ainda houvesse uns quarenta corpos de lata na nossa frente, e por estar sem assunto, perguntei (baixinho):

— Você pratica sexo animal?

— Não. Só faço sexo eletronicamente seguro.

— Eu também, cansei daquela coisa nojenta, cheia de suores e miasmas. E por falar nisso, como está sua frequência ultimamente?

— Quando o Sistema deixa, faço a troca de fluídos duas vezes por semana — respondeu a colega, na maior altura, olhos fixos na câmera acima da cabeça. — Nessa semana, por exemplo, deixa ver, hoje é terça feira? — ela abriu o celular intergaláctico, acoplado em seu antebraço esquerdo, e consultou a agenda eletrônica. — Hoje não posso, estou com a programação atrasada, tenho que pagar uns créditos por ter passado duas horas ajudando as vítimas do atentado atômico que devastou o Congresso Nacional em Brasília. Um horror! Morreram todos os Senadores e Deputados, menos um tal de Aébrio Neves, que estava de férias em Nova York. E não é que cortaram um dia de meu salário, só por eu ter saído sem autorização?

Nesse instante, a interrompi. Se eu permitisse, aquela  boca grande e bonita não pararia mais de tagarelar.

— O que você me diz de transarmos amanhã às 23h00? — propus, piscando o olho esquerdo. Podemos experimentar o iPHODE Nº 5, lançado há dois dias pelo holograma de Steve Tobs.

— Em que Estação? — ela me perguntou, recolhendo o celular no interior da manopla.

— Em que Estação? — repeti, feito bobo.

— Qual o nome da Estação Transacional que você frequenta? — ela falou, impaciente, batendo a luva no capacete.

— Ah! Quando estou na Terra prefiro a América Online, lá eles têm cabines maravilhosas, privacidade total, e não fica aquele cheiro de queimado ao fim da troca de fluidos.

— Combinado. Eu te mando uma mensagem, marcando o local.

Virei o pescoço e percebi o supervisor acenando para mim. O papo estava tão interessante que eu nem vira a hora passar, mas quando olhei em volta já estava na minha vez de ser avaliado. Olhei para os lados. Só restávamos eu e a gatatrônica na fila.

— Tchau — me despedi.

Coloquei minhas retinas em frente ao visor e entrei na Sala de Preparo. Lá dentro, fui recebido por um batalhão de assessores. Ao fundo, assentados em volta de uma mesa comprida, os membros da Comissão Avaliadora, composta por vinte e cinco Cyborgues da série Nexus 5. Um deles me inquiriu:

— Nome, matrícula, código da célula-ovo que o gerou, número de conexões, data e hora do último espirro.

Eu disse o que o imbecil queria ouvir, farto de repetir os mesmos números e senhas sempre que precisava atravessar uma porta por necessidade do serviço. Um dos Nexus, pegando minha mão direita sem pedir licença, e colocando-a em cima do Manual da Qualidade Total, ordenou que eu repetisse a frase:

— Juro dizer a verdade tão somente a verdade nada mais que a verdade.

Jurei dizer a verdade tão somente a verdade nada mais que a verdade, mas antes que eu terminasse de repetir a baboseira, num gesto brusco, o assistente retirou o Manual Sagrado de baixo de minha mão, jogando-o de lado, em cima de uma pilha de tabuletas usadas.

Depois, um zirconiano com cara de poucos amigos recitou para mim os direitos fundamentais dos homens de lata:

— Você tem o direito de ser controlado. Qualquer descontrole que você ocasionar poderá ser usado contra você para controlá-lo ainda mais.

 

O Paradoxo do Controle: quanto mais eles nos controlam, mais vão ter que nos controlar, pois nós, os robôs, fazemos apenas o que os controles nos permitem.  Tudo o que foge ao controle é considerado transgressão. Quando aparece alguma tarefa que não foi prevista, mas que necessita ser executada, o Sistema simplesmente trava, enquanto a atividade não for devidamente parametrizada. Mas a coisa funciona, o objetivo do excesso de controles é estimular nosso sentimento de inutilidade. Os inúteis não se arriscariam a fazer nada além do permitido pelo Sistema.

A pior parte da avaliação foi o teste de concentração no trabalho. Primeiro, eles me colocaram deitado, de barriga pra cima, dentro de um tubo, onde meu cérebro seria submetido ao Imageamento por Ressonância Magnética Funcional — equipamento que mede o nível de atividade em pontos determinados do córtex cerebral na chamada área de mentira. A teoria é que, para mentir, o cérebro consome mais energia do que quando falamos a verdade. Em seguida, dentro do equipamento, completamente escuro, meu mecanismo ótico foi exposto a vários slides, rapidamente. Num dos filminhos, aparecia um sujeito malhando com uma marreta; porém, dos quinze vídeos, a maioria trazia gostosas robôs-fêmeas com um copo de cerveja na mão, em trajes mínimos, refesteladas ao sol em ilhas paradisíacas, cercadas por cyborgues sarados.

Terminada a sessão, me perguntaram qual a figura que mais me chamou a atenção.

— A do robô trabalhando com a marreta — respondi.

— Por quê? — perguntou o examinador, aguardando uma brusca alteração no aparelho detector de mentiras.

Porque o trabalho humaniza a máquina — respondi — fazendo a mesma cara de lata feita pelo Secretário das Placas Tectônicas em seus pronunciamentos, sem que fosse registrada qualquer alteração em meu córtex cerebral. Peguei-os de jeito. Fui tão bem treinado que os caras seriam incapazes de saber o que eu estava pensando, mesmo com toda essa parafernália tecnológica. Os cyborgues fingiam que me diziam a verdade e eu fingia que acreditava nas mentiras que eles me contavam. Dizer a verdade pra quê? De qualquer forma, eles não vão acreditar em mim, obrigando-me a preencher toneladas de relatórios, por isso o detector de mentiras e os controles rigorosos: esse é o custo da eterna desconfiança.

Aliviado, fui aprovado em todos os trezentos e cinquenta e dois itens da Avaliação Individual de Desempenho. Nenhum ser humano seria tão perfeito quanto minha máquina.

Terminado o processo avaliatório, eu não via a hora de chegar o dia seguinte para me encontrar com Eva. Mas na hora marcada a gata acabou me dando o bolo, não me mandou nenhuma mensagem e eu não havia anotado o número de sua placa.

Passaram-se duas semanas. A vermelhidão de Marte me dava tédio. Era uma sexta-feira, eu estava de folga, assistindo ao vivo pela tevê as últimas tempestades do sol. Para espantar o desânimo, resolvi dar uma chegada à Estação América Online.

Do lado de fora, centenas de pescoços de lata na fila, esperando a vez de experimentar o iPhode Nº 5. Lá dentro, a coisa estava fervendo, impossível conseguir uma cabine pra tirar uma. Um barulho ensurdecedor, como o de uma tempestade em Saturno, impedia-me de abrir a boca — a expansão do ar simplesmente trituraria meus dentes de titânio.

Consegui comprar um coquetel de criptonita e encostei-me no balcão. Não é que do outro lado, ao voltar os olhos para uma morena que passava montada em um rabo de 80 centímetros, deparei-me com os olhos de minha colega de trabalho tomando uma bebida esverdeada, acenando pra mim com dois tíquetes na mão?

Com muito custo, consegui furar o bloqueio da multidão. Chegando perto, Eva ofereceu-me de seu copo e eu bebi. Passou o pratinho com perninhas de barata e eu comi, apenas uma, pois estava sem apetite. Depois, pegou na minha mão, e com um abanar de orelhas me convidou para entrar numa cabine. Ela tinha dois convites preferenciais para fazer um teste no novo iPhode. Topei.

Colocamos as fichas na Máquina do Steve, eu em uma e ela em outra, lado a lado. As cabines giraram numa velocidade de mil sóis. Naquele giro louco, bastaram quinze segundos para nos sentirmos eternos: nossos átomos, quarks, gametas e neutrinos fundiram-se ao Universo em expansão. Gozamos juntos.

Foi amor à primeira transa.

 

 

Um comentário em “O pescoço de Eva

  • 16/09/2012 em 12:43
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    Bem eu tenho um Chip novinho em folha de serviços de tele transporte, se puder pode mandar a sequencia binaria….. anota : 0101010001101010010100010010100101001000101001010100101001

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