O paraíso

Paraíso: esta palavra evoca de imediato na mente um lugar de paz e descanso, alívio, trégua, tranquilidade. Imperturbável. Geralmente, uma linda paisagem com folhas de palmeira se balançando à brisa suave, ou como a que acabei de ver num CD da minissérie “Razão e sensibilidade” da BBC inglesa — quase toda passada numa das costas íngremes das terras altas inglesas, de rochas pretas e ásperas, batidas pelas espumas branquíssimas que explodem como finíssima renda brilhante a brincar com o preto das pedras. É de tirar o fôlego.

As mocinhas da história, coitadas, ficaram pobres por perda de herança, e foram obrigadas a aceitar a oferta de um primo e ir morar num pequeno mas “romântico” — segundo a mais nova delas — chalé (cottage) em frente a essa explosão maravilhosa e contínua de beleza.

Quanto minha retina entrou em contato com essa maravilha — apenas a primeira do filme — a ideia que surgiu sozinha na minha mente foi: é o paraíso!

Suspiro profundo.

Depois do deleite, não consigo evitar a reflexão. Mas o que seria o paraíso? Na verdade, o paraíso é tão indescritível quanto a quantidade de gente no mundo, multiplicado pelo número de vezes que cada um pensou nele, no mínimo — mesmo porque ele não existe.

Não é a satisfação de um desejo, porque é inesperado. É o que brota no coração de alguém que espera outro alguém querido num aeroporto, rodoviária, seja lá o que for e se surpreende ao sentir a emoção brotar, derrubar a barreira de contenção no peito, atravessar o espaço-tempo e encontrar a mesma emoção impetuosa no outro, e naquele momento se unirem, até que a morte os separe, naquele abraço apertado; ou ainda amantes que ao começarem um simples beijo entram num vagão de beijos loucos, numa trilha de calor que gira, sobe, desce, faz curvas sensacionais como numa montanha russa, onde o amor eterno  flui sem empecilhos de coração para coração.

Paraíso é pensar que se perdeu o filho pequeno na praia e de repente alguém vem trazendo o pequeno paraíso assustado e cheio de areia. É ver a casa finalmente pronta, o carro novo na rua em frente à sua porta, receber o resultado positivo ou negativo de algum exame médico, querendo dizer que está tudo bem.

Não vou mais me estender nos exemplos. Todo mundo tem uma imensa lista de paraísos,

Por isso não se pode forçar sua repetição. Parar para esperar que ele aconteça de novo. Ou esperar ansiosamente por um pássaro que sabe ele mesmo seus caminhos; pousa aqui e ali, não dá explicações a ninguém. Não dá para adivinhar quando vai acontecer, não dá para prever seus movimentos nem suas paradas, nem com todas as magias, astrologias, macumbas, estatísticas, pesquisas científicas.

Também não dá para dar de ombros ou ficar sentado esperando que ele volte. Quando forçamos, ele foge. Quem não o reconhece quando ele acontece, limita-se a esperar a morte, para ter esperanças de que, saindo deste mundo, vai encontrá-lo e colocá-lo numa gaiola, senti-lo para sempre, socorro! Aí é o inferno!

Inferno e paraíso convivem conosco, se entrelaçam, se cumprimentam e até tomam um café juntos, de vez em quando. A companhia de um ou de outro depende de uma chave simples, de duas opções somente: o abrir ou fechar do coração. Perdão, gratidão e senso de humor o abrem. Rancor, mágoa, ressentimento o fecham. Aí a gente alterna as posições da chave,  justamente porque ninguém é perfeito nem nasce sabendo viver.

 

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