O nome do boi

AlainDelonExiste uma figura sinistra que aparece nas religiões, desde as mais antigas até as contemporâneas, à qual é atribuído um enorme leque de nomes. Para não ficar enrolando muito, vou falar do Diabo, ou Satanás, porque foi e ainda é um dos maiores pop stars do planeta. Falando aqui das imediações onde habitei e habito, quer dizer, procurando apenas no saber circunscrito com o qual tive contato e achei que entendi: todo mundo tem uma ideia do que seja o Mal, o que causa dano, o que machuca, e, eventualmente, mata.

Coisas ruins acontecem. Às vezes são catástrofes da Natureza, mas a maior parte delas causada pelos próprios seres humanos. Cada um tenta se safar como pode da dor e do sofrimento, seja interno ou externo.

O pensamento humano já se desenvolveu muito, já deu voltinhas e mais voltinhas, foi e volta tentando compreender a si mesmo e à circunscrição que habita no Cosmos, lá até onde a visão tele e microscópicas alcançam. Porém, olhando de perto, ninguém consegue manter por muito tempo uma sensação de satisfação, de paz interior. Pode conseguir uma tépida resignação, no máximo.

Quando estamos relaxados, felizes, alucinamos que esse estado vai durar para sempre. Deveria! Afinal, é o resultado de certas vitórias, conquistas, trabalho, renúncias. Mas, sorrateiramente, começa a ficar chato.

Todo mundo sabe  quando a vida começa a parecer uma repetição chata de acontecimentos que dão certo. Ao olhar para o lado, vê a manada resignada porque não quer ter problemas, então atura até o seu limite o vaivém da feliz repetição. É então que, para começar, surge no meio dos pensamentos um esquecimento das grandes agruras que passamos, por nossa própria decisão ou distração. Fumamos maconha, não fumamos maconha, fizemos amor livre, fizemos amor de verdade, eventualmente nos machucamos; desobedecemos regras. Alguns exerceram transgressões que se aproximaram perigosamente da tênue linha que separa a transgressão do crime, e foram conhecer a marginalidade por dentro: dentro da cadeia.

Basta o começo: ter sido algemado com as mãos para trás por policiais truculentos e babando de vitória, deve ser inesquecível; deve plantar uma raiva difícil de desbotar…

Por que, meu Deus, por quê?

Porque é necessário. O equilíbrio mantido acaba por levar à morte, que é a cessação de movimento, ao fim do existir, porque só existe o que precisa ser aperfeiçoado.

Por isso é que do mesmo lugar de onde surgiram nossos mais sublimes pensamentos, ideias, resoluções benignas, deste mesmo lugar a voz muda de tom e começa a sugerir que estamos encaretando, nos domesticando, virando vaquinhas de presépio. Onde está a nossa honra, nossa coragem, nosso êxtase, nossos arroubos, nossas pernas tremendo de desejo, o coração batendo acelerado, a esperança ansiosa de alguma maravilha que está prestes a acontecer, corre, corre, corre…! Arfa, baba, geme, delira, se entrega a prazeres indescritíveis… — sussurra o Tentador, o “Anjo Mau”, o “Pai da Mentira”, o “Trapaceiro”, o Traidor sofista. Mentimos na maior cara de pau para nós mesmos, autossabotagem legítima, quando queremos justificar o que quer seja para obter o que desejamos urgentemente!

Alguns religiosos descrevem com perfeição quando alguém já se perdeu: deu ouvidos ao Astuto, Encantador e Pérfido Mentiroso, que é cada um de nós mesmo, e por isso conhece todos os nossos caminhos e sabe perfeitamente se insinuar em nós através dos nossos sentidos, da fantasia, da autocondescendência, da lógica e até da mais fina filosofia para nos induzir  a desvios. Ele é tão inocente na aparência quanto os conformes com nossas profundas e verdadeiras aspirações.

“Os demônios procuram arrastar ao inferno almas (psique) humanas”. É o Diabo, então! Satanás! Tão necessário para o nosso crescimento quanto as falhas às quais se refere, na orelha do seu livro mais recente, o premiado físico Marcelo Gleiser  “Criação Imperfeita” (não li o livro e nem sei quais são essas falhas). Ele diz: “O desequilíbrio estimula a criação. Sem assimetrias e imperfeições não estaríamos aqui: o universo não teria nada além de radiação.”

Assim, a gente já pode se ligar e criar um alarme que tocará todas as vezes que maré estiver mansa demais, ou mansa há muito tempo; quando  ideias bestas crescem e ganham valor na mente; ou quando estivermos no meio de qualquer dor ou tumulto, interno ou externo. Trata-se apenas de manter o movimento da existência, o que é uma redundância — existência  é produto do movimento. E podemos sempre melhorar este movimento a favor do nosso bem-estar interior.

 

4 comentários em “O nome do boi

  • 05/01/2013 em 18:16
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    Bem, o conceito de “DIABO” é típico de religiões digamos para suavizar a coisa: pouco inteligentes. As religiões mais “densas” abandonaram o conceito de “Satanás” e “Pecado”. é que por razões históricas lamentáveis, herdamos uma das religiões mais “bobas”. Bem os povos da península Europeia, no foram os mais civilizados de aqueles tempos (Assassinaram 70 000 000 de americanos nativos em menos de dez anos). Imaginem da noite para o dia, alguém acorda e descobre que: não é mais livre, tem um Rei e deve adorar um Deus que não tem nada a ver com sua cultura. Vou parar por aqui para não incomodar os “carolas” rs rs rs

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