O nobre cão

A pata estava molhada e o cheiro não seria o melhor. Fred entrou lagoa adentro assim mesmo e começou a fazer o que todo cachorro sabia: nadar cachorrinho. Não demorou e o frio da água penetrou por entre o pelo, que se arrepiou.

O esforço contínuo o levou para a ilha no meio da lagoa. Lá, o característico sacudir de cachorro e uma corridinha o fizeram sentir-se melhor; o frio, no entanto, ainda estava instalado em seu corpo.

Não parou para nada e deu prosseguimento à sua busca. Olhou para cima e viu novamente a águia no alto do pinheiro, bem no meio da ilha.

A lembrança da águia levando Renan voltou a incomodá-lo. Fora há não mais de uma hora: uma sombra rápida e Renan, seu bichinho de pelúcia, fora arrebatado por um ser invisível.

Primeiro veio o susto, depois a descrença, e por último a tristeza, que brotara rapidamente do seu interior. Um suspiro e as lágrimas, que lhe vinham gélidas.

Foram minutos torturantes, e a decisão de salvar Renan veio com a confirmação de que ele ainda existia: uma recordação de canto de olho e Renan nas garras da águia. A satisfação de saber que havia esperança lhe deu forças. Correu.

Na ilha, Fred sentiu uma câimbra na perna, o frio era um inimigo sem trégua, mas a águia era seu enfoque principal. Ele sabia que o tempo estava contra seu intento e foi direto para o pinheiro. Lá chegando, latiu. A águia não acreditou no que via e veio para um galho mais baixo.

— Seu bichinho agora é meu! Vá embora enquanto não estou com fome, pois mesmo sendo você um animal de médio porte eu posso me sentir tentada a fazê-lo de repasto.

Fred olhou fixamente para a águia e respondeu:

— Não me faça rir, sua larápia. Desce e verás quem servirá de repasto.

A águia sentiu as palavras como uma grande afronta; quase desceu sem pensar, mas foi cauta e resolveu dialogar.

— Vamos fazer assim: você pede desculpas por suas palavras rudes e eu penso no teu caso.

O cachorro não se fez de fraco, pelo contrário, estufou o peito e latiu:

Que o medo morra em você, e não demora a devolver o meu bichinho, pois se demorar o medo vai te consumir.

A águia tremia de revolta, pois sempre fora tida como uma rainha, e aquele ser tosco a estava tirando do sério. Não deu ouvidos ao cão e tentou um ataque rápido, sua especialidade: um mergulho e uma estocada com as garras.

Qual não foi o susto… não do cão, mas da águia quando suas garras ficaram encravadas num tronco. O cão, esperto, fez da provocação seu trunfo e da argúcia sua salvação: colocando-se encostado em um tronco velho fez a finta bem no momento em que percebeu o ataque traiçoeiro.

A águia ficou desprotegida, e o cão, a olhando de frente, disse:

— Vou te dar o que necessitas! — Ato contínuo, ergueu a pata rápida e energicamente e a desceu com toda força.

Nesse ínfimo segundo, a águia pensou mil e umas. Vendo seu fim, fechou os olhos. Mas o fim não veio. Reabriu os olhos e estava solta. Subiu ao topo do pinheiro e trouxe Renan, que entregou ao cão.

— Obrigado, nobre cão! Você me deu de presente o que sempre necessitei… Um pouco de bondade!

A partir daquele dia, o cão e a águia fizeram grandes obras juntos, pois onde houver bondade e amizade é possível existir harmonia e desenvolvimento.

 

 

Edegerdo Hardt Junior

Edegerdo Hardt Junior nasceu em Jacareí, São Paulo, em 1974. Aos três anos foi morar em Taubaté, cidade onde vive até hoje. Descobriu o maravilhoso mundo da leitura com a mãe; no colégio descobriu a vontade latente de escrever, a que deu vazão por intermédio da poesia. Formado em advocacia, atuou profissionalmente em Taubaté por sete anos. Em 2010, com o falecimento de seu avô materno aos 100 anos de idade, ainda jornalista ativo, voltou a praticar outros gêneros de escrita que não o jurídico. Seu livro de estreia, Algo para pensar: uma aventura diária, será publicado em breve pela KBR.

3 comentários em “O nobre cão

  • 25/07/2012 em 22:26
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    Oi, Ed! Parabéns, seus textos estão cada vez melhores.
    Abraço

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  • 25/07/2012 em 18:53
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    Se nos pensassemos um pouco e chegassemos a conclusão que realmente um ato de bondade na maioria das vezes é o que os outros estão precisando, muitas desavenças deixariam de existir e teriamos um mundo melhor para conviver.

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