O morto passa bem!

Expedido o atestado de óbito, os filhos de Efigênio dos Santos, durante o funeral, suspeitaram de que o pai não estivesse realmente morto. Coisas estranhas acontecem no mundo dos vivos.

Mesmo para mim, que lido com a morte todo dia, em minha genuína ignorância duas são as únicas certezas da vida: o imposto nunca falha, e a morte não tarda.

Já dizia Roberval do Santos, um ex-seminarista que virou viado: “A vida é um absurdo, somos cuspidos no mundo, um caroço de gente que não pediu pra nascer. E depois da chegada, tão logo tomamos consciência de nosso ser no mundo, todos nossos projetos são sistematicamente sabotados, tudo conspira para adiantar a nossa partida, o mundo quer nos aniquilar. Quem sabe não sejamos brinquedinhos de algum gênio maligno, demônio, ou de um deus sádico, que se diverte com nosso sofrimento?”

Bocejo, uaaaahhhh:

— O absurdo não é da minha conta. Morra e deixe o resto com a funerária.

No domingo, por volta das sete da matina, estava eu de plantão na funerária Vai com Deus, tranquilamente assistindo ao programa Pequenos Enterros Grandes Negócios, me atualizando sobre os lançamentos Da Hora: cerimônias fúnebres temáticas. A propaganda de caixão que eu mais curto é a da grife Caveira Preta, uma empresa que fabrica urnas ao estilo satânico e promove cerimônias de arrepiar os cabelos, despachando o cliente com show e tudo mais, fumaça, luzes, pacote com o melhor do metal pesado, sistema de som embutido no caixão, quatro caixas de 700 watts de potência na cabeça do defunto, cinco baterias de lítio no fundo do esquife com autonomia pra tocar 666 dias a discografia completa do Iron Maiden, Black Sabbath e Judas Priest.

Estava na maior leseira, curtindo um pusta som ao fim do plantão da madrugada quando recebi o telefonema inusitado. Era o filho de Efigênio dos Santos, cujo pai — um ex-pipoqueiro da melhor pipoca feita com gordura vencida, atualmente estreante no mundo dos mortos, idoso de 77 anos — eu próprio liberara na tarde de ontem, um sábado de pouco movimento. Cismei. Naquela hora de domingo o café da manhã no velório já deveria estar bombando, de modos que estranhei o telefonema a cobrar, depois de confirmar a chamada ao fim da chata musiquinha. É o que sempre digo: um dia calmo não me cheira bem.

— Bom-dia. Aqui quem fala é o filho do Efigênio, o pipoqueiro.

— Bom-dia! Funerária Vai com Deus, ao seu dispor.

— O senhor ainda se lembra de meu pai? É, aquele velhinho que o senhor pegou no Pronto Socorro Municipal… Foi… foi ontem… Sim… Sim… estou ligando daqui, do orelhão da capela do cemitério…

— Mas é claro que eu tô lembrado! Quando menino eu comprei muita pipoca na mão do Seu Efigênio! Que Deus o tenha. Diga lá, algum problema no velório?

— É que…

— Pode falar, meu caro, estamos aqui para melhor servir. Alguma reclamação? A família não gostou da decoração do caixão? Olha, os cravos são de primeira, as velas são de parafina importada!

— Não. Não é isso… É que papai não me parece bem. Quer dizer, o problema é com o corpo dele, tem alguma coisa de anormal…

Também pudera, pensei comigo.

— Ah, mas nós fizemos o melhor pelo Seu Efigênio. Lavamos e ensaboamos o corpo com os melhores aromas, untamos com creme da Índia, bronzeamos a face com óleo de sândalo, escovamos os dentes, cortamos o cabelo, fizemos a barba e aparamos o bigode, penteamos seus cabelinhos brancos e perfumamos o umbigo.

— Não… Não estou me referindo ao serviço — a voz mudou de tom, e sussurrou ao telefone. — Parece que papai está vivo!

Nesse ponto, fui surpreendido por uma voz feminina, que aos prantos arrancou o telefone das mãos do irmão e berrou do outro lado do aparelho, igual a torcida do Flamengo, afirmando:

— Papai não está morto coisíssima nenhuma, papai apresenta sinais de vida, pulso batendo, eu mesma vi mudanças em sua expressão facial, sem contar que a temperatura do corpo de papai está morna! Papai até se mexeu no caixão!

A vida é assim: hoje com saúde, amanhã no ataúde. Eu já vira aquele filme antes. Basta um comentário do tipo “como ele está corado!” para que os familiares aprontem o maior alvoroço. A choradeira de praxe. Só faltou falar que o velho se levantara do caixão e cumprimentara, um a um, os presentes: “Estou muito feliz por você ter vindo ao meu funeral. Ah, e não falte à minha missa de sétimo dia!”.

Caraça!

Tudo que é vivo um dia perece, mas, o que se há de fazer, o cliente sempre tem razão. Desliguei a tevê e me arranquei para o cemitério.

Conhecedor do assunto e sensível ao sofrimento alheio, chegando à capela usei todo meu traquejo para convencer a família de Seu Efigênio que o morto estava mais morto do que a múmia do Tutancâmon. Infelizmente, não fui feliz.

Pressionado por dezenas de pessoas — umas cinquenta, calculei, entre filhos, netos, bisnetos, amigos e pentelhos —, a parentalha do inquieto defunto não concordava com a minha insistente recusa. Sem opção, antes que chegasse a imprensa marrom, ajudado por cinco curiosos, acabei por colocar o caixão com o corpo do Sr. dos Santos no rabecão e levá-lo de volta ao hospital para um derradeiro exame médico.

— Não se preocupe, papai, o senhor vai ficar bom! — gritava a filha, inconformada, acenando para o cadáver do pai, enquanto eu colocava o esquife na Veraneio da funerária.

Os filhos não admitiam sepultar o pai sem a confirmatio mortis. Liguei a sirene do rabecão e zarpei.

Eram onze horas e vinte e três minutos da manhã quando cheguei ao hospital. Na emergência, o corpo foi submetido a vários exames, inclusive ao eletrocardiograma. O defunto não apresentava nenhum sinal de batimentos cardíacos. As pupilas estavam dilatadas, o que indicava a morte cerebral, lecionou o doutor — um cara magrelo com ar cansado — enquanto arreganhava, com frieza cientifica, os globos oculares do De Cujus, diante dos olhares crédulos e esperançosos dos herdeiros das dívidas do defunto.

Por fim, o médico, perdendo a paciência com a filha do Sr. dos Santos que a todo o momento teimava em lhe apontar o aspecto saudável de seu velho e finado pai, sem mais delongas sentenciou:

— Pode enterrar, o morto passa bem!

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