O menino e o passarinho


A cidade era pequena, mas singela e acolhedora. Nela, havia uma praça; na praça, uma igreja. O responsável pela paróquia era um clérigo simples, mas de imenso coração. Se pudéssemos dizer que tinha algum defeito, era a paixão por passarinhos. Porém, como sabemos, este mal não está listado entre as coisas que não se deve fazer.

Padre Geraldo atendia a todos com carinho e atenção, rezava missas, fazia batizados, encomendava a Deus aqueles que tinham partido, mas que alcançaram a paz eterna. Quando, entretanto, se encerrava a celebração das 7 horas da manhã, e até a hora das aulas de catecismo às 9 horas do mesmo dia, ele se entregava àquela atividade que era sua paixão: os pássaros, seus cantos e gorjeios.

Possuía-os de várias espécies; todavia, os prediletos eram os curiós, aves de pequeno porte e plumagem escura, cujo canto límpido de delicada melodia adquiria uma dimensão única para aqueles que, como o religioso, se sentiam nas nuvens e — por que não dizer? — mais perto de Deus quando ouvia o belo trino do bichinho se espalhar pelo quintal.

Dentre esses curiós, também apelidados “avinhados” ou “bicudos”, nosso querido pároco tinha uma predileção especial por um exemplar. Ao Moreno (era esse o nome), dotado de um canto singular, distinto de todos os outros, o padre dedicava sua maior atenção: um pedaço de jiló partido ao meio de vez em quando para atiçar o trinado, a bacia de água mais espaçosa para que o pequeno grande cantor se aliviasse do calor. A gaiola era colocada junto ao pé de jabuticaba, para que a sombra dos galhos se projetasse sobre o artista. Enfim, ele era o xodó do sacerdote.

Assim seguia a vida: padre Geraldo atendia a seus paroquianos, rezava suas missas e cuidava dos passarinhos. Até o dia em que, nos seus afazeres diários, tratando de seus amigos emplumados no quintal, ele escutou um chamado:

— Ô de casa!

— Pode entrar, estou aqui no fundo!

Um menino de nove anos, de cabelo castanho, algo franzino e magro, não se fez de rogado e entrou cumprimentando:

— Bom dia, seu padre. Sou eu, o Zezinho!

— Pois não, meu filho.

— Estou fazendo a catequese com o senhor!

— Eu sei, eu me lembro de você.

— Então, seu padre, eu vim até aqui pedir para o senhor uma coisa.

— Pode falar, meu filho, se eu puder ajudar…

— Bom, seu padre, eu gosto muito de passarinho, e como o senhor tem muitos queria ver se o senhor me dava um.

O padre olhou para o garoto, que, com os olhos brilhantes, aguardava sua resposta.

— Meu filho, eu não costumo dar passarinhos, pois cuido deles desde pequenos, mas, como você é um bom menino, abrirei uma exceção.

— Muito obrigado, seu padre, vou levar agora mesmo! — Disse isso e partiu em direção à jabuticabeira.

— Ei! Espera um momento, garoto, esse não! O Moreno não pode ser!

— Mas, seu padre, é esse que eu quero. Ele é o que tem o canto mais bonito.

— Sinto muito, meu filho, mas esse não pode ser.

O menino, cabisbaixo, saiu do quintal desapontado. Padre Geraldo sentiu o golpe. Homem de bom coração, não podia ver sofrimento de ninguém, quanto mais de criança. Mas do Moreno, não podia abrir mão.

Todos os dias que se seguiram, na mesma hora da manhã, Zezinho passava na casa do padre e pedia o passarinho. O santo homem resistiu por mais de um mês, mas, exausto com a insistência do garoto, acabou cedendo com um aperto no coração.

Os anos se passaram, mais de vinte, para ser exato. Numa manhã de domingo, no confessionário, o nosso religioso ouvia a confissão de uma moça donzela da cidade.

— Bom dia, seu padre!

— Bom dia, minha filha!

— Na verdade, seu padre, não é um pecado que quero confessar, mas a intenção de cometê-lo.

— Minha filha, resista à tentação e afaste esses pensamentos.

— Sabe, seu padre, eu estou noiva e vou me casar daqui a um mês, aqui mesmo na igreja. Mas meu noivo insiste em fazer as coisas antes do casório.

— Minha filha, nem pensar. Mantenha-se casta e pura até a noite de núpcias!

— Seu padre, eu amo meu noivo, e ele a mim, mas ele é muito insistente. Todos os dias ele me pede a prova do meu amor. Eu já estou cansada de resistir aos apelos dele.

— Não, minha filha, não ceda!

— Padre, o José de Arimateia não desiste.

— Espera aí, minha filha! Seu noivo é o Dr. Zezinho, o advogado que cria passarinho?

— É este mesmo, seu padre, o senhor o conhece?

— E como!… Neste caso, me parece que o amor de vocês é verdadeiro e irresistível. Siga seu caminho, com minha bênção, pois nem Jó aguenta a insistência desse menino!

 

 

6 comentários em “O menino e o passarinho

  • 27/11/2011 em 22:53
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    Adorei!
    Amei o final! kkk

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    • 27/11/2011 em 23:25
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      Que bom que gostou Alessandra!
      Um pouco de alegria não faz mal!

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  • 06/10/2011 em 15:10
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    Guta, tá lindinho, parece uma canção com ondas, e é engraçado no final…
    Seguimos cuidando de pássaros, flores e orando…
    Na Alegria, Cinthia.

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    • 06/10/2011 em 22:40
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      Thanks Baby!Que bom que vc gostou!
      Beijo

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