O medo

Hoje acordei estranha, sinto uma insegurança que não é minha. É assim como um tremor na alma, uma inquietude que me faz caminhar sem rumo, lentamente. Estou até meio desajeitada, fazendo ruídos que não costumo ao me movimentar. Essas folhas secas e gravetos estalando enquanto caminho, cuidadosamente, não deveriam revelar minha presença.

Não sei por que vêm à minha memória fatos de minha juventude. Eu costumava brincar por aqui, mesmo quando era ainda um bebê, junto de meu irmão gêmeo. Rolávamos pela grama macia sob o olhar meigo de nossa mãe, que raras vezes se mostrava irritada e nos indicava por gestos mais rudes, ou mesmo sons indicativos, que deveríamos nos portar de maneira diferente e ficar por perto dela.

São boas lembranças, mas me deixam ainda mais triste. Hoje eu é que tenho que assumir toda a responsabilidade de cuidar da minha prole, uma faina ininterrupta e sem descanso. Para as mães não há fim de semana, todos os dias são de trabalho. No tempo de minha mãe, que já não vejo há muito tempo, as coisas eram mais fáceis. Nossa casa era muito erma, e apesar de nosso pai ter abandonado nossa mãe antes até de nosso nascimento, ela parecia não se importar;  e dava conta de cuidar de tudo sozinha. Nossa casa estava sempre em ordem e segura. Depois do período de amamentação, sempre estava com nossas refeições na hora.

Parece uma sina, pois eu também fui abandonada pelo pai de meus filhos, e apesar de não ter me importado na época, hoje em especial sinto falta de alguém que me ajude e proteja a mim e à minha prole.

Este sentimento me irrita profundamente, pois eu deveria ser mais forte e independente. Lembro-me do dia em que meu irmão, após uma contenda comigo, virou-se e começou a caminhar sob meu olhar inquisitivo. Ainda ensaiei uns passos atrás dele, mas vi que ele estava determinado a não olhar para trás quando tomou aquela estrada empoeirada. Nunca mais o vi, ou tomei conhecimento de seu paradeiro. Poderia reconhecê-lo entre milhões, somente por seu cheiro característico.

Não sinto nem apetite, acho que hoje não vou comer. Não temos nada em casa, mas não me sinto tranquila o suficiente para sair e deixar meus filhos sozinhos; aliás, quero-os sob meu olhar o tempo todo.

Em um de meus volteios, escuto um som que não deveria, e ao me voltar me deparo com uma criatura que nunca tinha visto. Por um instante, cruzo meu olhar com esse ser e vejo medo. Eu também estou com muito medo, mas sei que posso encarar esse intruso, pois seu porte não é grande. Estou temerosa de que meus filhos façam algum ruído, pois ficaria mais difícil protegê-los.

Ele faz um movimento e eu me preparo para avançar em sua direção, quando escuto um som muito alto, ao mesmo tempo em que sinto uma pancada e um ardor em meu peito. Ainda avanço um pouco quando ouço novamente o barulho… e outro baque. Já não consigo mais me mover. Caio de lado e sinto algo quente escorrendo na minha frente, minha pele tão bonita ficando suja com aquela substância escura e as manchas pretas sob o fundo ocre perdendo sua beleza, os pêlos ficando grudados.

Ainda tento me limpar lambendo o local de onde sai aquele visgo. É inútil. A criatura se aproxima, apontando algo para mim. Ainda tento me mover, faço um esgar e ela para por alguns instantes, amedrontada. Minha visão começa a ficar turva e logo já não consigo mais divisar nada ao meu redor. Ainda solto um grunhido de advertência aos meus filhotes.

***

A onça pintada é o maior felino da fauna brasileira. É um animal magnífico e deve ser respeitado e protegido por nós.

 

 postado também no meu blog

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

7 comentários em “O medo

  • 15/11/2011 em 03:15
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    MINHA PRI QUERIDA:AMEEEEEEEI,DEIXO MEUS SENTIMENTOS A FLOR DA PELE…..VC VAI LONGE AMIGA…………PARABENS

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  • 13/11/2011 em 20:01
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    Nossa Pri…chorei de comoçao…lindas palavras…. como ja disse a Vanessa precisamos de muita conscientização para salvar esses animais….parabens….

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  • 12/11/2011 em 11:53
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    Maravilhoso, Priscila! Valeu por cada palavra lida…
    Beijos, amiga!

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  • 12/11/2011 em 10:53
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    Nossa PRi!!! Fiquei quase sem folego do começo ao fim. Minha amiga vc está se superando e enveredando para outros temas, este poderia ser o teu próximo livro: SUSPENSE. Parabéns

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  • 12/11/2011 em 00:53
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    Obrigada por ter escolhido este tema… Quase chorei. Espero que sua crônica ajude um pouco mais na conscientização das pessoas quanto à obrigação que cada um de nós tem de fazer sua parte (apontar uma arma é uma das poucas maneiras que temos de matar os animais e é a mais óbvia – deixar a comida estragar na sua geladeira, não fazer reciclagem, desperdiçar água, são algumas das coisas que levam à morte desnescessária de milhões de seres vivos no mundo todo ano!)
    Nem preciso dizer que esta foi sua melhor até hoje! Parabéns!

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