O medo de viver e os paraísos artificiais

De repente, nos encontramos aqui neste mundo. Com o tempo, vamos aprendendo: papai, mamãe, planeta Terra, rua, casa, outros. Respiração. Medo, alegria, e tudo o mais que conhecemos. Morte certa, e, depois dela, o que alguém sabe ao certo? Especulações de toda espécie: nosso lar, inferno, paraíso, e mil etecéteras. A morte parece o mais obscuro dos mistérios: convivemos com pessoas, e de repente, resta só um corpo, uma casca. O que não nos falta é imaginação para nos confortar do medo que sentimos deste total desconhecido.

Afastando para bem longe da nossa memória imediata esse fato incômodo de que um dia não estaremos mais aqui — pelo menos não como somos — vamos vivendo, sem perceber que a vida é tão misteriosa quanto a morte. A gente nunca sabe o que vai acontecer amanhã, daqui a alguns segundos: se estaremos calmos ou ansiosos, rindo ou chorando, falando pelos cotovelos ou meditando.

Felizmente, a vida se desenvolve em ondas, ciclos. Há o momento de ir para a escola, as mudanças hormonais da adolescência, o crescimento do desejo sexual, no tempo lógico para produzir filhos e conservar a espécie os relacionamentos amorosos, familiares. A participação na luta pela sobrevivência e pela excelência da vida, o que podemos conquistar, até que patamar de conforto e bem-estar podemos chegar no outono da meia-idade e no inverno do envelhecimento. Como será a nossa comédia?

Sim, porque, como dizia o artista Chacrinha, o programa só acaba quando termina! Só depois que a pessoa morre é que podemos dizer quem ela foi, quantos pontos marcou, quantos corações comoveu. Antes do fim, cada um está lutando ferozmente, porque por um triz pode perder tudo e terminar sua história tristemente — fulano teve seus 15 minutos de fama, sua fase de sucesso, mas morreu sozinho, doente e abandonado…

Falei em lutar e não vou nem explicar, porque acho que todo mundo sabe que a vida é luta renhida. Mesmo o playboy milionário tem que se entender com o seu tédio, com o chamado para os excessos, com a insegurança emocional — será que sou amado pelo que tenho? Será que sou amado? Será que amo?
Pois sem conforto emocional o fulano pode estar pedindo para morrer na suíte presidencial do mais elegante hotel europeu, por exemplo… Sem falar nas drogas, na tentativa de dar um fim para a solidão. Essa ladainha todo mundo conhece.

Como já disse, felizmente a vida se desenvolve em ciclos, dramáticos momentos de mudança alternados com o conforto do período de estabilidade que permanece um tanto, depois da mudança — dependendo, é claro, da importância desta.

Ah, os períodos de estabilidade, que maravilha! Chegamos, conseguimos, comemoramos, curtimos até que aquela situação vai ficando antiga, repetitiva, chata, incômoda, desconfortável; mas vamos ficando porque esta já conhecemos, até que, como diz uma frase atribuída a Freud na internet: “Quando a dor de não estar vivendo for maior do que o medo da mudança, a pessoa muda” — seja lá de quem for a frase, faz muito sentido para mim.

Da minha parte, estou numa longa fase de grandes mudanças. Mas já cheguei à meia-idade, já passei das vãs tentativas de fugir à luta, de tentar alcançar algum Nirvana ou outro paraíso que me desse a paz definitiva nesta vida. Assim, tenho uma vantagem sobre quem está ainda nas suas primeiras crises: sei que vai passar. Aprendi também um pouco de gratidão. Então, quero dizer para todas as pessoas que estão em meio a alguma dolorosa crise: perseverando. passa. Bem. Se arrastando, passa também, de qualquer maneira. Ufa.

Pode não parecer, mas estive falando de Astrologia até agora, dando outros nomes aos mesmos bois…

 

4 comentários em “O medo de viver e os paraísos artificiais

Deixe você também o seu comentário