O máximo bem

“Deus às vezes tem muito de Blanche DuBois: é dependente da bondade de estranhos…”
Declaração do rabino no velho filme “Tenha fé“, que muito a propósito assisti na TV

 

Meu irmão mais novo é uma pessoa boníssima, um bônus, se considerarmos sua inteligência, dedicação, capacidade de trabalho, tudo o que o torna um sujeito bem-sucedido e pai de família excelente. Teve e tem seus perrengues como todo mundo, alguns que ele conta e outros que não, nem pra mim, que sou sua única irmã. Meu irmão merece tudo. E tem.

Zila, uma das enfermeiras de mamãe, é uma pessoa boníssima. Sempre digo que as pessoas que se dedicam a esse tipo de trabalho são especiais, têm um algo a mais; embora sejam razoavelmente bem remuneradas, nada justifica o amor àquele paciente por vezes endemoninhado, intratável e agressivo, substituindo, e com vantagem, os familiares incapazes de tal tratamento, digo, de amar assim, doar-se assim, assim eclipsar-se de qualquer julgamento junto à pessoa querida que já não reconhecem mais, porque, cá entre nós, não a encontram mais. Zila e Fátima merecem tudo. Nem sempre têm.

Zila, por exemplo, recentemente perdeu o marido num enfarte fulminante, e, como se não bastasse, seu único filho acaba de passar por uma cirurgia agoniante, correndo o sério perigo de perder os movimentos para sempre, risco, para nosso alívio, já eliminado, porque meu irmão, que sendo um sujeito importante conhece todo mundo, intercedeu para que fosse operado por um dos melhores cirurgiões neurológicos do país. No meio de toda a falta de sorte de ter um  filho  com um grave tumor na coluna, Zila teve a sorte grande de trabalhar para a mãe de meu irmão, que não teve tanta sorte assim por ter uma mãe tão doente, e por tão longo prazo demente, coisa que não desejamos a ninguém.

Mamãe, digamos assim, já não era tão boa, mas, fosse como fosse, nada fez de tão terrível em sua vida ativa para merecer um castigo duro como este: viúva aos 43 anos, vive há 7 trancada num corpo que já não reage a quase nada, um carma conjunto que afeta igualmente a mim e a meu irmão, um sujeito tão bom. Custa um bocado falar sobre isso, francamente.

Herdei de mamãe essa bondade relativa, eu acho: não posso dizer de mim que eu seja uma pessoa boníssima. Já deixei de apoiar uma amiga com câncer, recusei doar minha medula a um priminho doente (não que houvesse compatibilidade obrigatoriamente), deixei para trás no Rio meus velhos tios que hoje procuro raramente, e faltei recentemente ao enterro de outra tia, irmã mais velha de papai que faleceu aos 90 e tantos anos e que eu não via há mais de dez. Além do mais, me poupo com alguma frequência de frequentar situações desafiantes, confesso, sob a desculpa emocionada de não conseguir lidar com muito mais do que a eterna doença de mamãe, que me consome a pena integralmente.

Mas sou, de vez em quando, dada a atos de bondade extrema, como, por exemplo, telefonar para o médico e dirigir 40 quilômetros a cada 15 dias para pegar a receita e comprar o remédio de que Alan precisa para se livrar de sua dor crônica. Estamos numa viagem dessas quando começamos a conversar sobre esta crônica, sobre a bondade, o merecimento, e um de seus assuntos favoritos, também para ele um dos meus mais graves defeitos, além de ser liberal e ter apoiado o antissemita Obama nas últimas eleições americanas: não acredito em Deus, e que deus seria esse que, aleatório, castiga e premia? Isso, pra nem mencionar a perfeição inimaginável de uma flor, da montanha à nossa frente, do nosso corpo que, na maioria das vezes, funciona impecavelmente, e até das aranhas que mordem a gente.

Alan começa o sermão do dia explicando que essa noção de bem e mal é uma simplificação idiota e maniqueísta, coisa que a bem da verdade não existe e se deforma sob qualquer ponto de vista, e emenda numa parábola moralista como toda pessoa viciada em sabedoria: “Imagina que todo ano um sujeito semeia e cultiva seu milho, esperando curtir uma boa safra. Mas daí pode vir um vendaval, um furacão, e destruir toda a plantação antes da colheita. Faz o quê, esse sujeito? Respira, descansa, e replanta, pois não é uma questão de merecimento, nada disso, mas simplesmente um fato da natureza. E se ele nunca plantasse jamais teria a chance de uma colheita, entendeu? É como são as coisas. Às vezes a gente planta. Às vezes a gente colhe. Às vezes a gente cai e se recolhe, tudo faz parte da vida. A gente faz o bem porque isso nos faz bem, os outros ficam contentes e nós também, pois somos amados e aceitos como resultado da nossa intrínseca bondade.”

O que nos falta, segundo Alan, é apenas informação: no caso do furacão, tudo bem, mas no caso do filho doente… não sei. A gente deve seguir plantando o bem, ele diz, como se planta o milho, apenas por ser esta a natureza das coisas, e o sábio vai parando por aí. Eu, francamente, não entendi o suficiente para me converter.

Meu pai, de quem meu irmão provavelmente herdou sua bondade, era uma pessoa boníssima, tão boa que o amigo que estava com ele no dia do acidente sempre afirmava que até ao inferno ele seguiria o Abrãozinho… e seguiu mesmo. Morreram os dois, neste janeiro serão 40 anos que parecem menos de um, nesta mesma BR040 que vejo do meu terraço, será o motivo oculto de eu ter me mudado para cá? Vai ver nossa casa é obra da culpa inconsciente, vigiando do alto os desvios do destino, nada mais do que isso.

Abraão completaria 84 anos neste domingo, 4 de dezembro, de acordo com a certidão de nascimento, ou 86, de acordo com esta foto antiga aí de cima, datada no verso em 16 de dezembro de 1938 e que parece claramente um registro histórico de seu bar-mitzva, já que nasceu na Polônia e pode ter sido registrado tardiamente quando a família chegou ao Brasil, um jeito imigrante de facilitar as coisas naquela época em que conferir documentos era bem mais difícil do que é hoje, sabem como é — o lado mais humano de nossas inescapáveis improvisações cotidianas.

Pois essa pessoa boníssima, de memória irrepreensível, é a verdadeira culpada, segundo meu terapeuta Alan, de todos os meus problemas mentais, desde o medo de engordar até o incurável complexo de rejeição que corrói até hoje, dentro da minha mente doente, as mais bem-sucedidas projeções: pouco dado ao contato físico por conta de sua própria educação, papai me beijava somente uma vez por ano, no dia de Kipur, imaginem, coisa de destruir qualquer criança dependente. Ame-se com um trauma desses, não é mesmo? É meu segredo mais bem guardado, aquele que Alan, veladamente, ameaça revelar ao mundo em caso de divórcio litigioso…

Taí. Ninguém é feliz impunemente. Prefiro eu mesma confessar pra todo mundo, numa homenagem definitiva, prova incontestável do amor de uma filha, o lado mais negativo de minha personalidade impulsiva, impossível de ser contentada, talvez o que me leva a seguir sempre em frente, aconteça o que acontecer.

E um bom domingo procês. De onde estiver, lugar nenhum provavelmente, papai ficará satisfeito ao ver que sobrevivi à minha infância carente.

 post publicado tambem no Noga Sklar

3 comentários em “O máximo bem

  • 04/12/2011 em 13:49
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    Obrigada, Raul, eu disse ao Alan que no Brasil isso é até bem comum… falar nisso, bjs!

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  • 04/12/2011 em 13:45
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    Oi, Noga!
    Parabéns pela crônica!
    Sou filho único e, que me lembre, meu pai nunca me beijou…
    Ele morreu aos 56 anos, em 11 de março de 1958, dois meses antes do meu aniversário de 18 anos… “Foi uma pauleira…”
    E eu o amo até hoje.
    abraço, Raul

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