O livro

Um chorinho podia ser ouvido naquele mundo de poeira que existia na grande sala, abarrotada de volumes. Um novo, magro, olha em volta e chega à origem do derramante sofredor.

— Oi, amigo! — pergunta, todo faceiro. — Desculpe-me a intromissão, mas o que o está fazendo se debulhar em lágrimas?

— Não aguento mais a tortura! — e continuava a lacrimejar. — Você é novo por aqui; eu, no entanto, já estou encardido e torto de tanto repousar nesta prateleira. Acorrentado pela existência, não saio deste lugar há mais de século. Nem me lembro do último que me levou para um passeio.

A brochura olhou o grande volume e disse:

— Não fique triste! Você já devia ter percebido que o ficar estático não existe realmente. E o “conhece a ti mesmo” é a liberdade natural de qualquer ser.

O grande livro olhou para o pequeno, uma mera brochura como já disse, e argumentou com desdém:

— Olhe pra ti! Feito sem capa dura, nem tem amarra alinhavada, colado com cola vagabunda. Com certeza não durará muito… — E com todo despeito, emendou: — Não venha tentar me ensinar o que não sabes, moleque!

Os dias se passaram e o livrinho conversava com todos que estavam por perto. O grande volume dava apenas bufadas de desaprovação. Volta e meia, um ser humano entrava na ala em que estavam a brochura e o grande livro e procuravam até encontrar a brochura, e a levavam. Após dias, a brochura voltava, e o grande livro cada vez mais carrancudo.

Num belo dia de verão, eis que um ser humano se fez ouvir na biblioteca. A brochura chamou o grande livro e disse:

— Hoje vamos acabar com esta carranca! Você não serve para ficar na prateleira — O grande livro ficou todo agitado com as ofensas, sentindo-se espezinhado por um livrinho; e a brochura ficou a destilar um rosário de motivos que desabonavam a permanência do grande tomo naquele sítio.

Quando o humano chegou ao canto em que estavam a brochura e o grande livro, eis que este, por tão nervoso que estava, foi ao chão, como por magia.

O humano o pegou e logo os olhos brilharam de prazer.

— Finalmente descobri o que procurava há tanto tempo! — exclamou. — Como pude deixar de percebê-lo?

Aquele foi o primeiro dia de uso contínuo daquele volume, que nunca mais ficou parado numa prateleira. Seu conteúdo valiosíssimo serviu e serve aos alunos do curso de filosofia e aos pesquisadores, e, diariamente, um naco de puro conhecimento é extraído de seu conteúdo, um deleite para os que o leem e para o que é lido.

Todas as noites é possível ouvir a oração do grande livro:

— Obrigado, Grande Senhor, Arquiteto do Universo e provedor do conhecimento! Obrigado por ter me ensinado que temos em nós o que procuramos. E proteja a pequena brochura… sendo que sei o quanto aquele pequeno livro é forte em suas poucas folhas!

 

 

Edegerdo Hardt Junior

Edegerdo Hardt Junior nasceu em Jacareí, São Paulo, em 1974. Aos três anos foi morar em Taubaté, cidade onde vive até hoje. Descobriu o maravilhoso mundo da leitura com a mãe; no colégio descobriu a vontade latente de escrever, a que deu vazão por intermédio da poesia. Formado em advocacia, atuou profissionalmente em Taubaté por sete anos. Em 2010, com o falecimento de seu avô materno aos 100 anos de idade, ainda jornalista ativo, voltou a praticar outros gêneros de escrita que não o jurídico. Seu livro de estreia, Algo para pensar: uma aventura diária, será publicado em breve pela KBR.

Um comentário em “O livro

Deixe você também o seu comentário