O Livro da Vida Eterna

E finalmente é domingo depois de cinco dias expectorando, naturalmente um domingo encravado entre os “dias terríveis” para os judeus, sei lá, o rabino deu um nome mais suave para esses “terríveis” aí, dias graves ou coisa assim, não lembro qual, norá, noraim.

O certo é que de uns tempos pra cá, muito embora não pratique mais nenhuma religião, nem acredite na autoridade do síndico de nenhuma delas, não consigo deixar de ressaltar a qualidade meditativa destes dez dias de reflexão, ui, muda a crença mas não muda a memória viral, a cultura ritual encravada a fundo no corpo mental.

Este ano eu nem pretendia escrever sobre nada disso, garanto. Alan foi logo sugerindo o “ebook da vida” para título da crônica, mas essa jogada eu já fiz no ano passado (todo mundo sabe como é difícil se manter  por muito tempo no alto da genialidade, e por isso o Kindle original, por exemplo, continua imbatível), e embora o mercado ainda esteja nos devendo, graças à… bem, felizmente não mais por muito tempo, como todos verão em breve — pitonisa, eu —, neste domingo de reflexão não estou para brincadeira: é um momento para memórias tristes, digo, para limpar as minhas memórias tristes, e a minha gripe não nega a brabeira.

Há muitos anos, quando eu ainda me considerava uma “xamã” de carteirinha, e até escrevi um livro sobre isso — que, curiosamente, está sofrendo um retorno de mercado ultimamente — fazia parte do nosso “folclore” — nosso, digo, porque não só eu naqueles dias me considerava mágica, mas vivia cercada de gente ligada à magia — dizer que um simples resfriado era na verdade um profundo processo de limpeza corporal e psíquica. Pasmem, pois: fui ao Rio passar o ano novo (judaico, não custa “sklarecer”) com a família e voltei de lá deste jeito que estou hoje, neste domingo, digo, numa faxina biológica de fazer gosto como há muito anos eu não tinha, atchim.

Como íamos, Alan e eu, passar o Rosh Hashaná fora, decidi fazer no sábado anterior (relevem por favor a lei de que no Shabat não se cozinha) um bolo de ano novo. No meu livro xamânico, não sei se vocês sabem — um livro xamânico-judeu, claro —, tem uma vasta porção, sem trocadilho, de receitas mágicas, receitas culinárias mesmo, entre elas, claro, um bolo de ano novo, mas nos últimos tempos perdi não somente a fé que eu tinha, mas também o tempo que passava na cozinha.

Vai daí que a minha amiga de infância Ana Cecília saiu-se com um livro em vários aspectos semelhante ao meu antigo e primeiro — bom, por sinal, recomendo: O livro neurótico de receitas — com a pequena ressalva de que Ana escreve e cozinha como uma psicanalista, e eu como uma bruxa cronista; e em se tratando de um bolo e de um rolo mental, coisa traumática, sem dó nem aval, decidi em vez da minha experimentar a receita dela.

O mel que eu tinha, pra dar o tom psicanalítico correto à sessão no fogão, era o último pote que eu trouxera da casa de mamãe, e aí começaram as lágrimas e as lembranças. Mamãe era doceira de mão cheia, e boa consumidora de doces também, e como já contei, a última camada humana que nela restou foi a do prazer advindo da comida, que só lhe foi amputado pouco dias antes de ela morrer, ainda bem, nem sei se ela o perdeu também, pois a dois dias de sua partida, já depois da famigerada gastrostomia, ainda se lambia com o purê de maçã da reabilitação.

Calma, gente. É a última vez que compartilho com vocês essas memórias tristes, juro, minha faxina de alma derradeira. Até abri mão de meu futuro projeto de livro que somente aqui e agora descrevo num script que, se depender de mim, jamais haverá de virar filme, porque desisti antes de começar a escrevê-lo: entre as coisas que herdei de mamãe veio uma vasta coleção de cadernos escritos à mão por Fátima e Zila, as cuidadoras dela, descrevendo nos mínimos detalhes a derrocada da paciente de Alzheimer. Acreditei a princípio que eram somente relatórios da medicação diária, alimentação, essas coisas entre cuidadora e paciente, mas é muito mais do que isso, um texto dolorosíssimo de degeneração explícita.

Pensei por momentos em publicar, faria sucesso, as pessoas gostam disso, a dor crua exposta daquele jeito, misturada, por outro lado, à minha visão crônica, digo, crítica, reativa, textos que eu teria escrito ao vivo e ao longo daqueles relatos, ela no mundo dos alzheimerizados e eu no dos que à dor do Alzheimer mal e porcamente resistem, mas têm que seguir vivendo, são obrigados, sabem como é. Que pecado seria esse que ambas tínhamos cometido?

Enfim. Hesitei e hesito ainda entre guardar os cadernos para a posteridade e os eliminar num definitivo e nada ritualístico fim, kipur, kapará, que não sou mais de queimar para que a memória da dor se transforme em algo bom, como fiz até com o lindo vestido de noiva de meu fracassado segundo casamento, confesso, não acredito mais nisso de jeito nenhum, ainda bem. Já nem acredito em dia de jejum, a não ser um jejum que todos deveríamos praticar diariamente: o das dores guardadas no fundo do hipotálamo, pois tampouco me sinto bem afirmando que a alma existe, será que isso me torna uma desalmada racionalista?

Mas o livro maldito, não vou mais escrever e pronto, vou poupá-los nesse ponto. E a partir de hoje, domingo, setembro, manhã, início de uma primavera fatalista, declaro que deixarei em paz para sempre as dores de mamãe, e as minhas (mais antigas) também. Se não registrá-las em livro talvez num futuro daqui a pouco seja como se jamais tivessem existido, deixa quieto isso, para o bem da alma ascensionada… estranharam o termo? É pesadamente esotérico, sim, denota a passagem por esse universo histérico, histórico, escuro como o útero… de minha mãe.

E calada, emocionada, eu, que não creio, peço a Deus que realmente exista — mais do que o Livro da Vida, onde se pede a ele que nos registre, por mais um ano, a cada dia de Kipur, dito de perdão, mas, na verdade, de sacrifício, fome de fé, expiação, espia a fundo um ano terminado, comprometido e pleno de pecados — uma vida eterna, não por mim, que ando cansada, mas por ela, para que ela possa, finalmente, viver uma felicidade inerente, amém. L’chaim. À vida.

E um bom domingo procês.

 

 

8 comentários em “O Livro da Vida Eterna

  • 12/10/2012 em 16:57
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    Olá Noga, primeiramente quero agradecer-lhe o gentil comentário sobre o meu comentário em sua crônica do ano passado. Quanto a esta, trazendo estas questões familiares, doenças terminais, lembranças de tempos idos, fé e religião, acredito que tenha tocado em quase todos os grandes problemas que afetam os seres humanos desde sempre. Também não tenho religião, não por não acreditar em Deus, mas por acreditar que Ele não criaria um mecanismo tão cruel de separar Seus filhos, jogando-os uns contra os outros. Minha religiosidade é a fé na evolução do Ser Humano, até chegar ao estado “ascensionado” (viu como sei o que é?), cada vez mais perto Dele. Quanto ao livro sobre a doença, acho que também não publicaria. Certa vez, lendo a “Carta ao pai” de Kafka, escrevi uma “Carta à mãe”, mas, ato contínuo, rasguei-a, com medo até de reler algo que exalava tanta mágoa e rancor. Com um imenso trabalho interior, acho que consegui perdoá-la, por ter entendido que as pessoas não fazem o que fazem por mal, e sim porque ainda não sabem fazer melhor. Obrigada por colocar meu comentário no Face, vou continuar lendo suas crônicas, talvez em breve eu tenha um livro meu para te indicar.
    Beijo.

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  • 23/09/2012 em 17:35
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    Bem, como ATEO de carteirinha… Vou fazer um comentário pessoal. Nasci numa família que tradicionalmente revelou-se contra qualquer tipo de manipulação mental. Isto inclui religiões, política, Mídia… Temos suficientes questões preocupantes, para ainda ficar pensando em outras, colocadas “A priori” na nossa lista de “MEMES” (Genética da mente). Acredto firmemente que o sofrimento é produto de uma visão inreal do universo, e as religiões contribuem massivamente para isto.

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  • 23/09/2012 em 15:02
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    Oi Noga,nunca vou esquecer dos nossos almocos maravilhoso, fartissimos e festivos preparados pela Eva,que se repetiam todos os finais de semana em que moramos proximos e sempre tao bem acolhidos por voces.Saudades !!!
    Abracos e shana tova a voce e tua familia

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    • 23/09/2012 em 15:50
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      Simone, quando vier ao Rio, apareça! Shana Tova pra vc tb, Guita e os “meninos” rsrs.

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  • 23/09/2012 em 12:23
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    Querida Noga,fiquei emocionada com seu texto, repleto de judeidade, a brincadeira com as as palavras
    (“sklarecer” foi o máximo). Não vejo porque não querer mais falar dessas coisas , tão tocantes:” iamim noraim”,
    o jejum de “Yom Kipur”, o mal de Alzheimer da querida Evinha, sua mãe, receitas. Essas memórias estão entranhadas em nós, como tatuagem. Nós duas, que somos órfãs,temos o direito de “recordar, repetir e elaborar”(Título de um texto de nosso patrício Sigmund Freud). Parabéns pelo escrito. Beijos, Léa Meilman

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    • 23/09/2012 em 12:29
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      Obrigada, Léa, mas é que ando consumida demais por essas memórias, preciso “move on”, chega de luto, porque já houve muito luto ainda durante a vida da mamãe… Beijo!

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    • 23/09/2012 em 12:30
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      Mas Rosane, como eu disse, a lágrima foi atropelada pela glória, vamos em frente! Beijos!

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