O julgamento da princesa

A notícia veio da Inglaterra: Kate Middleton, Duquesa de Cambridge, está grávida. Ela cumpriu seu papel, segundo observadores ingleses, ou pior, como disseram alguns, fez seu “trabalho”.

Triste destino de uma princesa, ser considerada apenas como aquela que concebe. O pior foi ouvir que ela se comportaria melhor do que a mãe de seu marido, pois, segundo alguns, Diana trouxe mais abalos para a realeza inglesa que Napoleão com suas guerras.

Ela, aquela que parecia uma doce menina, se transformou num problema para a Rainha, e por que não dizer, para Charles, seu esposo. Ela, que se recusou a permanecer quieta e passiva diante da indiferença do companheiro e de sua falta de amor. Decidiu não aceitar o destino que lhe foi imposto, e pagou um preço.

Recebeu um julgamento moral, do pior tipo, cuja pena não prescreve. Foi taxada de mimada, depressiva e inconsequente. Se viu despojada da coroa, mas não perdeu a majestade. Seu brilho ofuscava os falsos costumes, a hipocrisia e os amores escondidos. Exposta por tabloides e falsos amigos, sofreu em silêncio, se resguardando no carinho do povo, que a via além de seus belos traços. Não apenas aparentava ser uma princesa, ela o era.

Mas eis que sua morte prematura (e ainda duramente explorada) não lhe deu a paz. Mesmo longe dos olhos, seu espectro assusta aqueles que alimentam a hipocrisia. A compararam com a nora de forma pejorativa, como se fosse mau exemplo de mãe ou esposa. Seu pecado maior foi querer viver uma vida “real”, e não aquela farsa que queriam que desempenhasse.

Passados tantos anos, me assusta o fato de seu nome ainda ser lembrado com leviandade por tantos. Mas ser aquilo que se é ainda é visto por muitos como algo nocivo e deslocado. Não aceitar se submeter a uma tradição para não viver uma mentira é algo que ainda causa espanto a um mundo que se acostumou a viver nas sombras e na escuridão.

A sociedade muitas vezes não perdoa, se a seus olhos alguém fraqueja e cai. Se julga rápido fora dos tribunais, e na verdade não é incomum se pular essa parte do processo. A condenação vem muitas vezes antes da verdadeira história.

Quantos já não foram condenados por violar os bons costumes e a moral? Há poucos dias, um rapaz foi espancado na rua, pois cruzou o caminho de outros que não aceitaram sua escolha sexual. Num outro tempo, uma atriz loira quase foi linchada, pois assumiu um romance com um homem negro, abandonando o marido e os filhos.

O que falo aqui não é em defesa de uma postura, mas do direito de escolha que cada um de nós possui diante da nossa própria história. É difícil aceitar aquilo que nos outros nos assusta, a escolha de um desejo, a procura de uma verdade.

É mais fácil o silêncio que, dizem, pertence aos inocentes, pois quantos não são condenados, por um gesto ou uma atitude… Quantos agridem aquilo que no outro, é tão caro nele reprimir?

Quando penso em dignidade e coragem, lembro-me da Princesa Diana. Penso em alguém que foi condenada por muitos, mas que mesmo pagando um preço alto, buscou na vida aquilo que a fizesse feliz.

 

 

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