O inverno de nosso contentamento

Mamãe e eu na véspera de meu primeiro casamento com Nelson Sirotsky, em 1979

Aquilo com o que se consegue conviver muda com o tempo.

Kathryn Harrison, para o NY Times

 

A mesma mão que afaga crava a adaga, e a próxima serei eu, penso, destemperada, enquanto observo os inúteis esforços de Alan pra se livrar da gatarada que invadiu nosso terreiro abençoado, depois de ele adotar com carinho seu Clinton de pelo dourado, tratado por ele desde antes de ser desmamado, como eu já disse, a salmão e filé mignon. A mãe desnaturada, com olhos ferozes e muito mal-intencionada, rouba diariamente a ração caprichada destinada à sua cria em crescimento, tá nem aí, despertando em Alan uma irritação de assassino da qual, em minha ampla loucura, vejo em mim a vítima em potencial.

Algo o corrói por dentro há dias e não sei o que é, se a saudade dos filhos, a próxima viagem para visitá-los ou a lenta agonia que venho experimentando nos últimos dias sem nenhum disfarce, e que, por algum motivo que me escapa à psique, acredito que ele não consegue suportar.

Conversamos no hortomercado em meio a uma dose ou duas da cachaça local, ele tentando chamar para si uma atenção que eu não tenho pra dar, é “Alan isso”, “Alan aquilo”, eu digo, o mais sério sintoma de loucura é quando alguém começa a referir-se a si mesmo em terceira pessoa, sabia, “tudo ela fica com lágrimas nos olhos, poor Noga, sempre em lágrimas”, me defendo e me saio com essa: É, mas estou chorando em terceira pessoa. Rimos fracamente.

A mão dele me afaga com doçura enquanto se escoa a comporta dos soluços, descontrolada, não é o esperado telefonema no meio da madrugada, o anúncio de morte há tantos anos antecipado, nada disso, mas a constatação desalentada de que mais uma etapa foi ultrapassada, ela não escapa de nada, nenhum animal merece ser tratado desta maneira, nem um animal, digo.

Ele não se importa mais com nada, apenas com Deus e o estudo da Torá, esses são os piores, penso, com sua fé declarada, eu que não rezo oro em silêncio para que a levem de uma vez, pra que ela se deixe ir, a cada passo trilhado para o abismo rezo pra que o seguinte não venha nunca, mas ela encara todos eles sem se poupar nenhum, firme, autoritária, invasiva mãezinha, “doce velhinha” é como a chamam nestes últimos dias, como se fosse velhice a larva maldita que a destrói.

Não há perdão. Não há consolo. Nada. Apenas a crueldade médica hoje em dia disfarçada em metódica conservação da pessoa viva, mas há casos e casos, claro, e neste caso em pauta o que se esvai é o prazer da comida, primeiro e último contato de gosto com as coisas básicas da vida. Ela não se poupa nada e eu sigo soluçando. Não me conformo com a válvula gástrica que acaba de ser instalada.

Tento me concentrar um pouco e, juro por… bem, juro, são estas palavras que leio na tela no meu colo, atribuídas a Freud nesse romance inusitado do psicanalista mineiro Lúcio Marzagão em que tenho trabalhado: “Quando o analista profere uma interpretação, o paciente a ouve e reflete secretamente sobre o que ouviu, ao mesmo tempo em que estabelece um acordo tácito com o analista: meus pecados foram ouvidos, compreendidos e são tratados como se fossem de terceiros.”

O livro não poderia ser mais adequado, Freud e sua longa viagem morte adentro, mas a piedosa fortuna de Freud não nos é concedida pela moderna sociedade, que guarda com o sagrado uma eterna dívida moralista, confiram mais um trecho: “Sinto uma pequena picada e, em seguida, sou tomado por um intenso prazer, que há muito não sentia… minha respiração, incômoda e ofegante, rápida, ineficaz e superficial, cede lugar a um grande alívio; um leve calor percorreu meu corpo e, ao mesmo tempo, senti uma leve e agradável tonteira… minha pele, que antes estava fria, tornou-se aquecida… a respiração, antes superficial, tornou-se lenta e pausada, o coração passou a bater cadenciadamente, o suor desapareceu e os incômodos gases, também… consegui ver luzes e ter sensações visuais e sonoras… nada mais me perturbou.”

Dos pacientes de alzheimer diz-se que não sofrem, nada sentem, nada os perturba em sua “pacífica” alienação da realidade — mas há 3 meses ela grita, por que, ninguém me diz —, talvez por isso a desumanidade última desta válvula, nega-se tudo, até mesmo o último conforto de pô-los pra dormir afinal, nem a um cachorro doente, francamente. A “piedade” humana não conhece limites, e o restrito futuro vai assim plugado ao tubo por onde não entra nenhum socorro, nenhuma morfina alentadora, sonho nenhum para alimentar.

Abro de novo a comporta dos soluços pra me aliviar, e Alan diz, pra me confortar, que é o único a me testemunhar, ele e eu, somente nós dois, sabemos desta dor interior que não se deseja a ninguém. Já me conheceu assim, coitado. Nunca me viu sem esse sofrimento cortante que parece inerente a mim, como uma conexão a mais no circuito eletrônico que me mantém, a um ponto tal e há tantos anos que sem ele nem sei como viver.

Cai a tarde e a montanha entre as nuvens baixas sobre a nossa casa oferece um consolo rosado e branco, espetacular. Consigo me acalmar. Em seu leito no Rio, mamãe também, quiçá. Há um resto de solidariedade que ainda consegue nos conectar, conectá-la a mim, que sempre acreditei que ela pudesse me penetrar e lá de dentro traçar seus planos dos quais eu não conseguiria escapar.

Ao fim deste longo dia de sete anos e sabe-se lá quantos mais, seguimos para a próxima etapa da doença. Entre Alan e eu, entrelaçado ao nosso amor, há este segredo, uma morte premente, progressiva e demente, haverá no mundo intimidade maior?

Fecho este texto com as últimas reflexões de Freud via Marzagão, onde ambos comparam Psicanálise e Literatura, citando, por exemplo, Carta a meu pai, que “além de propiciar uma catarse a Kafka e ao leitor identificado, oferece uma bela oportunidade de entrever fenômenos psicanalíticos”. E através de mais esta crônica de domingo, estabeleço um acordo tácito com vocês, leitores: minhas dores foram ouvidas e compreendidas, e agora as sinto como se fossem de terceiros. Agradeço.

E um bom domingo procês.

 

 

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5 Resultados

  1. Paulo Lima Soraggi disse:

    Primeiro texto seu que eu leio, Noga. Estou aqui tropeçando nas teclas, com a alma tremendo. É muita beleza na sua escrita. Minha mãe está com a coluna mais torta do que a da menina Júlia. A qualquer momento ela pára (gosto do acento no verbo). E não quer mais fazer tratamento, está entregando os pontos. Força, Noga, força! Você é a montanha que te abraça. Boa semana!

  2. KBR disse:

    Obrigada, queridas, eu sei que vcs são a minha família de verdade. Bjs

  3. Claudia disse:

    Noga, acredite, vc não está sozinha, estamos todos aqui.
    bjs

  4. Noga…………….sem palavras

  5. Manna disse:

    Bonita foto. Voces se parecem, principalmente no cabelo, nao? Sabe Noga, minha mae morreu tao derepente,
    que acho nem sofreu. Falo com ela, mas nao me ouve…claro…e’ como se tivesse Alzheimer…esqueceu de tudo, perdeu tudo, nao lembra mais de mim, nao me responde…dizia que se eu amarrasse um lenco na cruz em sua sepultura, quando ele balanssace seria ela me dizendo adeus…mas a tantos anos ja ela foi “desenterrada” e colocada numa gaveta, talvez por isso nao fale comigo, Esta presa,para sempre.No alem. E penso….nas novelas sempre tem alguem que ve e ouve os mortos….serei eu tao fria e insensivel que nao vejo minha mae e nao consigo falar com ela????Bem…quem sabe quando eu tambem estiver no alem, eu a veja…afinal mae e’ para sempre….eternamente…se a sua, nao esta sofrendo, seus gritos devem ser de entusiasmo com algo…talvez seu cabelo crespinho , que sempre tive vontade de ter…..beijo…

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