O homem que pintava dinossauros

Enquanto o cheiro do café adocicava toda a casa junto com o bolo de fubá, o homem em seu uniforme azul, cheio de manchas negras, colocava sua bicicleta na rua. Boné em riste, cobrindo a calvície, partia com seus olhos verdes.

Acoplado ao guidão, um radinho de pilha ia dando as notícias locais no máximo do volume, pois a idade já espalmava seus ouvidos. Crianças a caminho da escola apontavam com o dedo, riam daquela peça. O sujeito não ouvia os gracejos, e pedalava o seu amanhecer.

Na oficina, trabalho pesado no enorme galpão, com veículos mastodônticos espalhados na umidade fria. Sua tarefa era a de pintar máquinas tão intimidadoras quanto um tiranossauro.

Os pneus das retroescavadeiras eram o dobro daquele trabalhador. Seus braços, ex-peões de empreiteira, já tinham dificuldade para lixar os membros daqueles godzilas de aço.

Depois da aplicação da massa plástica, seu revólver disparava rajadas de tinta durante horas. Em seu bang-bang operário, o lenço sobre o nariz seguia tentando proteger seus pulmões do xerife tóxico: tantos anos nesse duelo já haviam prendido seu coração.

Um infarto trouxe a aposentadoria; mas os apertos domésticos demandavam a grana, afinal, a comida e o material escolar dos filhos tinham que ser dignos. Para o pintor de dinossauros, os filhos não poderiam ser como ele: a aventura do menino, sobrevivente da sífilis e barrado na escola por sua pobreza não seria reprisada.

Depois da labuta, o homem tinha direito a seus anestésicos. Passava no boteco do Juca Berinjela, pedia a cerveja e a cachacinha que acompanhavam conversas sobre o inacreditável gol do Osmar Guarnelli, o nascimento do filho do Dedeu Toscano, a falta d’água às quintas-feiras, o inalcançável mandi da feirinha.

Em casa, via o jornal e se deitava cedo: o fim da ditadura e o dragão da inflação nunca foram maiores que seu cansaço de homem legítimo.

Nos finais de semana, diversão com seu menino: ele o colocava na garupa da bicicleta e partia para o cinema. O operário era primo do dono do Cine Glória e o ajudava na projeção de filmes.

Numa tarde de domingo, comprou empada e guaraná Alterosa para o menino se distrair enquanto era exibido “Marcelino, pão e vinho”, a história do garoto que ouvia conselhos de um Jesus cravado na cruz enorme.

Em épocas natalinas, o homem enfrentava as vitrines. Durante os passeios com a família pelas ruas piscantes, o dedinho do filho apontava o autorama do Fittipaldi, a bicicleta BMX e o telejogo, o bisavô dos videogames.

“Meu filho, o papai não tem dinheiro pra te dar isso, mas você vai ganhar uma coisa bem legal no Natal”, ele dizia.

Quando chegava a tal data, inventada para escancarar as diferenças sociais e familiares, o pai entregava ao filho caminhõezinhos de madeira, pintados e filetados como os de gente grande. Enquanto o filho se distraía, o pai vertia lágrimas pelos autoramas dos meninos da rua, filhos dos sultões do Banco do Brasil ou da Coletoria do Estado. Mas logo o choro ia embora. Tinha amor demais para envolver sua esposa, e dignidade de sobra para ensinar aos filhos.

Este homem tem dificuldades para assinar o próprio nome; já demora demais para ler seu livro de orações, cujas linhas são percorridas pelo dedo indicador de quem viveu na simplicidade, mas apontando suas próprias direções.

Este homem está agora no hospital. Este homem brota no meu choro enquanto finalizo este texto. Este homem é meu pai.

 

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4 Resultados

  1. irani martins soares disse:

    verdadeiramente emocionante o seu texto , vc nao me conhece, sou de corinto amiga da serbia, eu te conheço pelas tantas coisas que vc faz de bom e uma delas é ser companheiraço de serbia. por isso estou pentelhando por aqui, não poderia deixar passar batido . pararabens pelas obras.

  2. Cristiane Pedrosa disse:

    Que bonito, Paulo! Seu pai trabalhou com meu saudoso avô Paulo Pedrosa. Talvez ainda se lembre. Sempre ouvimos falar bem de seu pai e vc agora me confirmou que não eram apenas elogios vazios. Sorte sua ter esse pai. Sorte de seu pai ter vc como filho!

  3. manuel funes disse:

    Boas lembranças….
    Os grandes feitos nascem do sofrimento e não da “Boa Vida”.

  4. CELSO MORAES disse:

    Emocionante! Chorei aqui, lembrando do meu pai, que hoje tenho apenas no coração e na mente. Parabéns pelo texto.

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