O homem de um braço só

O homem de um braço só nem desconfia, mas do alto do edifício alguém o mantém na mira de um rifle automático.

O homem de um braço só dirige um Mustang vermelho, último modelo — carro hidramático tem suas vantagens. Com a mão esquerda no volante, o homem de um braço só não precisa mover o câmbio, de forma que o braço que ele não tem fica livre para fazer coisas menos estressantes.

É um modo relaxante, esse, de manter o braço ocupado, o esquerdo, enquanto o homem de um braço só flutua com seu conversível pelas ruas da cidade. Do lado direito, onde deveria estar o braço que ele perdeu, o maneta traz uma morena gostosa no banco do carona — a mão direita dela na própria coxa e a outra no ombro sem braço do homem de um braço só. De tubinho branco e sem calcinha, a morena parece feliz, mais ainda por estar saindo do motel ao lado do homem de um braço só, que lhe acaricia as coxas por telecinese.

A felicidade do homem de um braço só é uma afronta aos homens de dois braços. Até parece que o homem de um braço só ganhou na loteria, sem contar os benefícios tributários e outras preferências: “Morram de inveja, otários”. O cara troca de carro de dois em dois anos, cinquenta por cento de desconto, livre de impostos.

Por que eu era tão infeliz quando tinha dois braços? — ele se pergunta. Ao perder o braço direito em acidente com asa delta foram-se todas as minhas inquietações. É como se no braço que perdi estivesse concentrada toda minha infelicidade.

A confiança do homem de um braço só é tamanha que ele virou goleiro. Sim, o melhor goleiro do pedaço. Antes, quando ele jogava no time da Gameleira, todos o chamavam de perna-de-pau. E apontavam-lhe a vaga do gol— ninguém o queria marcando bobeira no meio do gramado. Hoje, com o corpo faltando um pedaço, ele só aceita jogar se for no gol. Deu até no Guinness: o melhor goleiro de um braço só do mundo!

Quanto tempo eu perdi quando possuía dois braços! Agora, que tenho apenas um, faço o dobro das coisas que fazia antes — agradece, todos os dias, antes de ir para o trabalho. Ele é pneumologista, e tem uma secretária de parar o trânsito.

Quanto a mim, sou jornalista. Um dia fui escalado para entrevistar o cara.

— Doutor, como é que o sr. faz pra cortar as unhas da mão esquerda?

Ele estava escrevendo, a mão esquerda deslizando sobre o papel, e continuou escrevendo, como se eu não estivesse à sua frente e não lhe tivesse feito uma pergunta idiota. Evidente que era uma provocação. O médico terminou de fazer as anotações e chamou a secretária pelo ramal; a secretária entrou no consultório, recebeu a folha escrita e saiu, rebolando o traseiro. Olhando para mim, o médico de um braço só depositou calmamente a caneta em cima do bloco de papel e me disse:

— O homem nasceu pra ser feliz e espalhar o bem. Isso que você está vendo (sinalizou com a mão esquerda a extensão de seu corpo, do nariz até o dorso) não passa de uma casca, uma bela casca, por sinal. Quando eu tinha dois braços, era como se não tivesse nenhum. Bebia. Fumava. Batia na esposa, fui acusado até de afogar meu filho, mas o menino morreu por acidente. Hoje estou divorciado, não fumo nem bebo. Sou um homem realizado.

Silêncio. Ele olhou direto em meus olhos, esperando reação. Fiquei calado, enquanto ligava o gravador.

— Você viu a Patrícia? – perguntou, mostrando a porta que dava para a recepção. — Não é um belo espécime de fêmea? Pois então, dia desses ela chegou pra mim e falou: “Doutor, eu nunca transei com um homem de um braço só”. — Ele soltou uma gargalhada. — “Não seja por isso, minha querida”. Sacou?

(Saquei).

— Como dizia o samba do João Nogueira, “com um braço só já fiz o que você não faria”. Parei de fumar depois que perdi o braço direito, onde estava a mão que eu usava para levar o cigarro à boca. De vez em quando, sinto saudades do gesto de bater o dedo no maço e fazer saltar um cilindro de fumaça. Quanta babaquice. Também não bebo mais. Beber pra quê? Quando bebia eu não passava de um macaco, imitando os artistas do cinema, aquela gente artificial que fica o tempo todo com o copo de uísque na mão. Passei a cuidar mais da saúde, acordo às cinco e meia da manhã todos os dias. Antes de vir para o trabalho, corro dez quilômetros em trinta minutos. E você? Faz alguma atividade física?

Balancei a cabeça: “não”.

— Pois devia. Além de correr, treino Karatê. Carne vermelha? Nem pensar. Pelo aspecto de sua pele, vejo que você está intoxicado. Carne pra mim, só peixe, acompanhado de arroz integral, verdura e muita água. E de manhã, em jejum, bebo minha própria urina. Você sabia que a urina é rica em sais minerais? Tenho cinquenta e dois anos, ontem fiz um check-up e o meu cardiologista me falou que estou com o coração de um rapaz de vinte e dois. E tem outras vantagens: depois que perdi o braço ficou bem mais fácil pra vestir o paletó. Ah, e quando alguém me estende a mão, faço questão de mostrar o braço que está faltando, o direito. Ninguém nega a mão a um homem de um braço só. Quando chego em uma festa, logo viro destaque: “Eis o homem de um braço só!” — ele gritou, de modo teatral, alargando o braço esquerdo. — Mulheres, não me faltam. Para dançar, ter apenas um braço é ótimo. A parceira, para me acompanhar, tem que espremer a virilha na minha, colada ao meu lado esquerdo, o que torna a dança muito mais agradável e sensual. Para você ver como são as coisas, antes, quando eu tinha dois braços, eu não gostava de dançar. Mas para um homem de um braço só, tudo é permitido, até dançar com aquela calça de viado apertando as bolas. Todas quartas e sextas frequento a aula de bolero.  Dançar é um ótimo remédio, por que você não experimenta?

— Não gosto de dançar — comentei. — Posso acender um cigarro?

— Não, aqui dentro não se fuma.

Que pena. Fim da entrevista. Sai do consultório com vontade de matar o homem de um braço só. Parei em um boteco copo sujo. Para esquecê-lo, pedi ao garçom um prato de maçã de peito com bastante gordura e dois maços de cigarro. Depois de vinte cigarros e doze cervejas, eu já me sentia bem melhor…

 

 

3 comentários em “O homem de um braço só

  • 12/08/2012 em 16:12
    Permalink

    rapazes, grato pelos comentários!

    Carlos

    Resposta
  • 11/08/2012 em 20:02
    Permalink

    Realmente, os conceitos “Ocidentais” de perfeição são o maior fiasco.
    Basta perceber a que ponto nos levam, neste século XXI.

    “Da Perfeição da Vida
    Por que prender a vida em conceitos e normas?
    O Belo e o Feio… O Bom e o Mau… Dor e Prazer…
    Tudo, afinal, são formas
    E não degraus do Ser!”

    Mario Quintana

    Resposta
  • 11/08/2012 em 11:12
    Permalink

    Muito bom! Ironia fina e uma cutucada sobre o que se pensa normalmente a respeito dos conceitos de “perfeição/imperfeição”.

    Resposta

Deixe você também o seu comentário