O governo de Arak

Amanheceu. Da sacada do Palácio, Arak o Néscio mirou o feio horizonte, outrora um vale coberto de verde, agora transformado em terra devastada, rasgada por crateras, de onde as mineradoras extraem a hematita,  vendida a preço de banana para o estrangeiro.

Ao longe, no alto da serra crestada pelo fogo, movia-se o olhar vigilante de Filomeno, o Monstro Tributário de um  olho só que enxergava todos os fatos geradores. O governo ia bem, mas a saúde e a educação do povo, aos trancos e barrancos, conquanto a arrecadação do imposto de consumo batesse todos os recordes.

Mesmo adorado pela mídia mercenária, o Governador de Arak não estava contente. Para ele, não bastava pagar as contas. Zerar o déficit é obrigação de todo governante, é só manipular os números. Calcando os pés no parquet, assoalho brilhado e encerado pelo Engavetador Geral do Estado, um tal de Jarbas, que também lhe servia como mordomo, o Néscio mandou chamar os Secretários.

Mais que depressa, entraram o Conselheiro Acácio, o Professor Naná, Se Me Dão Se Me Deu e o Adido Phu, este último acompanhado de Pierrô e Colombina, ambos brigados pelo amor de Arlequim. Reunida a cúpula, faltavam quinze minutos para as dezesseis horas quando Arak contou-lhes o sonho que tivera naquela profícua manhã, enquanto o povo trabalhava. Depois de ouvirem atentamente o relato, e como ninguém era louco de contrariar o Primeiro Mandatário, os secretários embarcaram na carruagem oficial do governo e zarparam para a cidade de Delfos, onde foram consultar o Oracle, um poderoso banco de dados. Já era noite quando atravessaram os portões da Cidade do Silício, fizeram as libações de praxe, pagaram adiantado em dólares e assinaram os contratos sem ler no rodapé as letrinhas miúdas. O Néscio, ajoelhando-se em frente ao Poderoso Computador, foi direto ao assunto:

— Grande Oracle, preciso de um novo Palácio, mas não quero que o povo se revolte contra os tributos que serão criados. Oh, cérebro eletrônico, como podemos diminuir a criminalidade sem investir em segurança pública? É possível melhorar a saúde do povo sem investir um centavo? Ensinai-me, honorável sábio informático, como gastar menos do que o exigido pela Constituição em saúde e educação, sem que meu Governo seja punido pelos órgãos de controle. Dizei-me, o que fazer?

Na voz de uma linda pitonisa que aparecia seminua no telão, o profeta eletrônico respondeu:

— Não se preocupe, nós temos a solução para os seus problemas. Invista em Tecnologia da Informação. Alimente o Ciclope com nosso novíssimo banco de dados. Para aumentar os tributos sem que o povo perceba, tire os escribas da rua, feche as barreiras de controle, aumente as tarifas de energia, comunicações e combustíveis, privatize os serviços de água e esgoto, faça parcerias com os grandes e desça o cacete nos pequenos. Ainda no lado da receita, crie uma taxa exorbitante sobre a exploração mineral, aguarde as mineradoras espernearem, depois lhes ofereça um desconto de 71,25%, desde que as empresas desistam das ações na Justiça. Quanto à escalada da violência, o problema do crime organizado é que ele é muito desorganizado e imprevisto. Você elimina um chefe e logo aparece outro, sem concurso público. Ao contrário do Governo, os criminosos são ágeis, trabalham em rede, suas células são descentralizadas, estão por todos os lados e atuam nos locais e horários mais impróprios, de madrugada, nos feriados e finais de semana, quando o Governo está dormindo, de folga, ou fazendo merda. Para reduzir a criminalidade sem gastar com a Polícia, crie um programa de computador, o PROCRIME. Baixe um Decreto obrigando os meliantes a registrarem todos seus projetos criminosos no Sistema, antes que eles aconteçam. Sabendo onde o crime será cometido, fica fácil administrar a Polícia. Para gastar menos do que o exigido pela Constituição em saúde e educação sem fazer fumaça, redija um termo de ajuste de gestão, com o aval do Ministério Impudico e do Tribunal de Contas Secretas, tudo devidamente aprovado pela Assembleia Legislativa.

Era o que eu tinha pensado — gabou-se o Governador de Arak, enquanto despachava um bilhetinho para que Acácio lhe conseguisse o telefone da moça que emoldurava a apresentação.

— Mas, Alteza, não podemos aumentar os impostos. Já temos tributos em excesso, como a Taxa de “Saúde!” pelo  segundo espirro — lembrou o Adido Phu, preocupado com a impopularidade da medida, que  certamente estouraria em sua corcova.

BLÃO! BLÃO! BLÃO! — ouviram-se as batidas solenes do gongo. O Oráculo havia terminado e não admitia questionamentos. Em seguida, o computador foi baixando lentamente, envolto em jogos de luzes e novelos de fumaça, ao som de Time, do Pink Floyd.

E assim, todas as determinações dos técnicos de informática foram cumpridas. Meses se passaram. Tudo caminhava para o melhor dos mundos, até o dia em que Filomeno apresentou sinais de fadiga. Sufocado pela rotina, cruzamentos de dados, relatórios e mais relatórios, o monstro já não dava conta de digerir tanta asneira. Estafado, o caolho confundiu as tomadas e levou um choque, sofreu uma congestão e estatelou-se no chão da Caverna Administrativa. O Sistema caiu, barragens romperam-se, inundando vasta região.

Convocaram-se os técnicos em teratogênese. Era imprescindível encontrar uma desculpa plausível para o problema. O diagnóstico foi unânime: o monstro precisava de uma segunda versão.

— O que isso significa? — perguntou o Controlador Geral da Despensa.

— Uma fêmea, Vossa Intolerância, é disso que o bicho precisa — esclareceu o Diretor Geral de Informática.

Quem se arriscaria a enfrentar novamente as noitadas de Ísmaro, pra capturar viva uma esposa para o terrível Ciclope? Quem teria coragem de se meter nos subterrâneos da Ilha de Creta, lutar contra a máfia russa, comandada por um sujeito com cara de touro, conhecido por Minotauro, que tinha o péssimo hábito de beber o sangue de suas vítimas direto na carótida?

O problema foi levado a Phu, de Phu chegou às mãos do Conselheiro Acácio, que o encaminhou para Naná, que o levou pessoalmente no mesmo envelope de circulação interna para o Néscio, que confabulava com o Rei do Balacobaco  sobre o próximo final de semana e não poderia ser interrompido. Diante da insistência do professor, o governador de  Arak pautou o tema para a próxima reunião do Conselho de Emergência, que aconteceria dali a trinta dias.

Depois de um mês de esbórnia, sem saco para aguardar o diagnóstico final da reunião, o Néscio, berrou, furioso:

— Chamem Aquiles! E que ele não me apareça sem os marmanjões!

Os marmanjões eram os homens de Aquiles, famosos por usarem umas sainhas de couro, escudo e uma espadinha curta. Juntos (o Néscio, Aquiles e os marmanjões),  haviam participado de várias baladas.

— Príncipe, o Brad Pitt está gravando na Ilha de Malta, contratado a preço de ouro pela Warner! Os marmanjões estão fazendo bico como guarda-costas no Morro da Urca. O ciclope sofreu um apagão, faz um mês que ele não trabalha. O Governo está quebrado, não temos recursos para contratar Aquiles e seus Homens para buscar uma fêmea para o monstro!

— Então nomearei o primeiro idiota que aparecer à minha frente — falou Arak, fechando os olhos e dando voltinhas na sala, chacoalhando os saltos dos sapatos, enquanto os voluntários se movimentavam, mudando de lugar, alvoroçados. Por fim, Vossa Insolência estacou: Uni duni tê, sa-la-mê nin-guê, o escolhido foi vo-cê! — e apontou o dedo mindinho para a vítima.

A escolha não poderia ter sido pior. Protocolo, o sortudo, ainda que morresse tentando, sempre cumpria os prazos — desde que eles pudessem ser alterados. Sem saída, Protocolo solicitou ao Professor Naná que libertasse Prometeu, condenado a viver acorrentado ao obelisco da cidade por ter trocado a pedra do Isqueiro Zippo d’o Néscio por um punhado de farinha estragada.

— Libertar Prometeu? — enfureceu-se o príncipe de Arak. Aquele incendiário? Você perdeu a noção do tempo, Protocolo? De jeito nenhum! Vocês viram no que deu a instituição da famigerada taxa de incêndio? A culpa foi daquele incompetente. Os cadastros pegaram fogo, muitos de meus súditos foram tributados em duplicidade! Se minha irmã, Cassandra não tivesse amordaçado a imprensa, nós estaríamos perdidos.

— Mas, Príncipe, Prometeu é o único de nós que sabe fazer fogo esfregando um pauzinho no outro! Sem ele morreremos de fome ou de frio!

— Hum… Deixa eu pensar…

Fingindo preocupação, o governante arregalou os olhos e emudeceu. Andou em círculo por 15 minutos. Um silêncio sepulcral encobria a sala de audiências.  Depois de escutar, ao pé da orelha, o conselho de Acácio, o Néscio, mais calmo, decretou:

— Está certo, mas imponho uma condição.

— Diga lá, meu Príncipe.

— Que Prometeu leve consigo Zorba, o Grego. Não suporto mais aquele exibido andando de sunga pelo Reino.

 

***

 

Chegando à terra dos monstros de um só olho, depois de quase ser tragado pelo maravilhoso canto das sereias, Protocolo não encontrou dificuldades em embebedar e convencer a fêmea da besta a vir junto com a expedição. Fabíola, esse era o nome da fêmea caolha, era tão feia quanto Filomeno. A vantagem era que a futura esposa do ciclope tinha quatro grandes tetas, onde se poderia colocar para mamar, com folga, duzentos assessores por hora.

De volta ao Reino de Arak, até que fosse devidamente instalada, a segunda versão do ciclope acabou com o sossego dos analistas de sistemas. Panelas voaram. Quilos e mais quilos de fezes, fios de rede por todos os lados, miolos tostados em uma grande frigideira, parafusos espanados, milhares de bugs nos programas, plataformas em curto, até o dia em que os monstros entraram em sintonia e copularam. Foi a glória suprema para a Diretoria Geral de Informática e uma alegria extra para os quatrocentos especialistas, responsáveis pelo acasalamento dos monstrengos, que, diante do acontecido, tiveram garantidos seus empregos por mais oito anos.

Satisfeito o instinto animal de Filomeno, em menos de um trimestre a receita bateu a supermeta, quintuplicando o recolhimento de impostos. Tudo corria às mil maravilhas, até que um dia Fabíola engravidou e passou a ter desejos de consumo. Primeiro exigiu uma televisão de 80 polegadas, depois uma geladeira de 5.000 litros, vestidos, tapetes, móveis, perfumes, 300 pares de sapato, roupas, batons e joias…

Depois de trinta dias de nascidos, pesando quase cem quilos, os ciclopinhos teimaram em sair pelas ruas, correndo e pulando feito centauros na festa de Pã. Foi preciso contratar 200 assessores para acompanhar os dois irmãozinhos do capeta. Pra complicar a interface do Sistema, Filomeno e Fabíola começaram a brigar por incompatibilidade de programas, até que exigiram a separação de protocolos, aumentando as despesas de custeio do Reino com a montagem de duas plataformas, unidas por uma nova linguagem de programação.

Com a piora do relacionamento entre os ciclopes, dos três mil funcionários da Secretaria de Coletas, dois mil e quinhentos ficavam por conta de alimentar os monstros, o que incluía limpar e trocar as fraldas dos dois capetinhas. Somente quinhentos escribas trabalhavam nas ruas e nas repartições, colhendo no bolso dos súditos os tributos que cabiam ao desgoverno de Araque.

O bicho pegou quando faltou carne. A princípio, os zoiúdos começaram devorando os relatórios, depois passaram a comer também a fiação dos equipamentos. Enlouquecidos, digeriam qualquer porcaria. Ao ver os filhos guinchando de fome, Fabíola arrancou de um só golpe as cabeças de dez analistas de sistemas que examinavam a latrina em busca de falhas no sistema, depois, ferveu-as em água com sal e deu-as para os meninos sugarem o tutano.

Uma crise de confiança abateu-se sobre o mercado. Investidores fugiram, outros cancelaram empreendimentos, mineradoras pararam de cavoucar as minas e o povo revoltou-se contra os altos impostos. Houve um panelaço de fazer inveja aos argentinos do Boca Juniors.

Sem saída, o Néscio pediu socorro aos bancos. Contratou financiamentos a taxas exorbitantes, confiante que os Korta-Goelas rolariam a dívida do Reino. Escudado em parecer encomendado ao Escondedor Geral das Injustiças, com uma só penada decretou que fosse privatizada a Administração Tributária. Para gerenciar a caverna, o Néscio criou o Fundo Monstruoso de Investimentos, que passou a ser o novo dono das bestas, que ele deu como garantia para o pagamento dos juros.

E tudo continuou como antes no Governo de Arak. O povo, iludido pela propaganda mágica, pagava tributos cavernosos para alimentar os monstros de um só olho. Enquanto isso, o Néscio, em frente ao seu novo palácio de dois bilhões de dracmas, posava de bom moço para as revistas de fofocas.

 

Nota: Quem conta um conto aumenta um ponto. Quem governa um povo inventa mil histórias para continuar governando esse povo por mil anos.

 

 

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