O gênio fora da garrafa

"Paris para principiantes", da KBR, é o livro mais vendido na Amazon BR. meu "sem graus" neste momento é nº 15, top em relacionamentos e  4º em romance, logo atrás da mania "50 tons".
Paris para principiantes, da KBR, é o livro mais vendido na Amazon BR. Meu sem graus de separação neste momento em que escrevo é nº 15, top em relacionamentos e 4º em romance, logo atrás da mania “50 tons”.

— Noga, acorda, você é número 17! — me chama o Alan assim que amanhece.

Já tinha acordado, ligado o computador e conferido no site da Amazon BR, gracinha, ele sabia que eu tinha ido dormir preocupada porque estava no número 34 e não queria ser rebaixada, vocês sabem, estou numa campanha desgraçada, não só para mostrar meu livro sem graus de separação, mas para provar que ele é melhor que alguns outros que são sucesso por aí.

Acabei me levantando, indo até a sala — onde deixo o computador por precaução, ou estaria dormindo menos ainda — e… descobrindo que a tal 17ª posição era apenas a ponta de um inimaginável iceberg, francamente.

A KBR estava bombando loucamente na Amazon, 24 entre os 100 mais vendidos na Kindle Store Brasil, para os íntimos TOP100. E mais o best-seller geral, o Paris para principiantes do Paulo de Faria Pinho. Não acreditei.

Não acreditei, digo, claro que acreditei. Todo o meu louco trabalho de anos, sementes enterradas, iscas atiradas, palavras aos ventos e telas de todas as redes frutificando finalmente, e minha mente doente, bem, tenho que confessar, ainda preocupada com toda aquela gente que me rechaçou, ignorou, criticou, e a cereja do bolo que agora entrego a vocês, me ameaçou por telefone na semana que passou! Pode?

Antes de eu me acalmar, me deitar sobre os louros que ajudei a plantar, deixa eu despejar um pouco do veneno que ainda trago na alma e já já vai se dissolver: o sujeito “importante” me ligou, me chamou de “esforçada” e pouco depois o empregado pobre-coitado, que não faz tanto tempo tinha dado como desculpa pra não mostrar meus livros (da KBR, não meus pessoais, mas estes também incluídos) no site o fato de que “não eram bacanas”, teve que me enviar um email “oficial” informando que estavam tirando meus livros de lá, ah, bom, nem pisquei de preocupação, imaginem agora como devem estar se roendo… Ô, bom. Desculpem a maldade em meu coração.

Mas melhor deixar pra lá, é hora de “esquentar o prato”, se é que vocês me entendem. Focar no que é bom, pensamento positivo, pescoço pra cima e otras cositas más, cá entre nós, o cara se equivocou tanto que merecia até ser demitido da multinacional, vamos combinar, um erro de julgamento sensacional: os livros da KBR são muito bacanas, este é que é o problema. Problema deles, digo, porque pra mim é capital investido: capital intelectual, aquele que eu sempre fiz questão de ver mantido.

Posso falar de cadeira, meus amigos. Não sou como esses resenhistas aí de fim de semana, esse povinho leitor que o “Prosa” do Globo enfatizou e que neste domingo são meus favoritos de todos os tempos, não, gente. Li todos os livros publicados pela KBR com uma atenção que não é normal, e dei a eles, agora posso contar, um tratamento VIP que nenhuma editora dá, nem se quisesse poderia, podem perguntar. Nenhuma delas tem uma editora de textos chamada Noga Sklar, entenderam? Sorry, periferia.

E agora chega de me autocongratular.

Como depois de uns 40 anos de batalha, 12 deles como escritora e 3 acumulando a função de editora, enfim cheguei no começo da estrada por onde pretendia, pretendo mais do que nunca caminhar, vou agir como todas as pessoas grandiosas desta vida: serei simples, humilde, acessível, simpática e modesta.

Pago pra ver isso acontecer, juro. Tenho certeza de que não vai rolar. Ao contrário, vou ficar orgulhosa, contente, toda prosa, consciente, finalmente, do meu valor que tanta gente tentou negar, obrigada, não fossem vocês a insistir em me derrubar, e eu nunca estaria chegando onde estou prestes a chegar, francamente. E daqui pretendo continuar, ou vocês pensavam que quando “vencesse” eu iria finalmente sossegar?

Tudo isso, claro, devo creditar, além do gênio que deixou sua garrafa só pra me contentar, àqueles que criaram um sistema no qual enfim pude confiar, entre eles Jeff Bezos, meu guru, que — vocês são testemunhas — nunca deixei de celebrar, e seu fantástico Kindle — eu diria, se não fosse com isso exagerar, que não me furtei a estudar, esgruvinhar, estripar, dissecar, até entender como a coisa funcionava. E o resultado aí está. Ainda bem, ou estaria passando mais este domingo ocupada em apenas chorar.

Citando o mestre da culinária David Zisman, que li ontem no Globo: “A mudança [no meu caso, a invenção do Kindle] foi uma renovação para mim, e o mais importante é saber que, mesmo após os 60, ainda tenho um grande futuro pela frente”. É isso aí. Agora todos sabem que é a pura verdade.

Quanto a quem não está sabendo o que fazer para seguir o rumo dos acontecimentos, que, claro, podem virar a qualquer momento, pois assim é o jogo da vida online — e torcemos pra isso não acontecer, obviamente, ah, meu velho tio sempre me disse que por conhecer este advérbio, “obviamente”, eu acreditava que sabia escrever, obrigada, tio! — faço minhas as lúcidas palavras de Paul Krugman a respeito do que ocorre com o GOP, partido republicano americano: “A grandiosa e radical agenda do (aqui substituam por quem de direito) está em ruínas, mas ele não sabe como lidar com isso e ainda tem muito poder para causar imensos estragos quando se revolta, em frustração”. Que o bom senso possa nos proteger desta maldição.

Aos mais do que bem-vindos novos leitores de sem graus de separação, tenho o seguinte a dizer: sempre confiei neste meu livro, mesmo enquanto escrevia os outros 7. Sempre confiei no que escrevo, e embora em muitas ocasiões tenha sofrido bem mais do que seria capaz de descrever, com todo o ostracismo e rejeição, nunca fui capaz de desistir, deixar o ofício de lado, tocar o barco e virar quitandeira, como se diz. Nasci para escrever e ponto. Tenho que conviver com isso, com tudo de bom e ruim que a profissão pode me trazer.

Apesar de nada ter de autoajuda, nem de religiosismo — tá bem, eu sei que a palavra correta é “religiosidade”, mas Joyce não se incomodaria nem um pouco com isso —, sem graus é um livro mágico de verdade: foram 42 dias em que conversei com o Alan na internet — e também trepei, amei, fui amada, me transformei — e pasmo em ver que ali está descrito tudo que a gente viria a realizar juntos nos 8 anos que se seguiram, e não era coisinha simples, nada disso: encontrar, casar, sair do Rio, construir uma casa, ter uma montanha sagrada no quintal de casa, criar um negócio, ter mais de mil orgasmos e outros desafios desse mesmo calibre. Mas uma das principais profecias só agora está deixando o terreno das firmes intenções para se tornar realismo, e esta é transformar o nosso diálogo online em livro, não um livro qualquer, mas um livro que mudasse vidas, a de muitos, mas principalmente a nossa, a minha, se transformando finalmente num novo modo de viver: como uma autora bem-sucedida.

E um bom domingo procês. Todos merecemos.

Ah, e nunca é demais repetir. A KBR está onde está porque todos os 91 livros do nosso catálogo são livros muito bacanas, e está na hora de a crítica especializada também descobrir isso. Pronto. Falei.

 

 

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