O ganhapão e sua paga

O coelho capota em seus pesadelos. O coelho capota em seus pesadelos. O coelho capota.
Marcelo Mirisola, Charque

 

Taí. Alguma vantagem tinha que ter esta vida de editora, dura, porém, muitas vezes compensadora, gente, eu rimo, sim, mas não é por mal. É pro bem, bem de quem não tem (aptidão pra rimar, sabem como é).

Eu rimo, e conto pra vocês por que: primeiro, claro, porque assim me ocorre, flui, e quem segue o fluxo não morre (ui); segundo, porque, vocês sabem, embora eu renegue o fato, e o seguirei renegando até o último suspiro, sou bruxa, e todo encanto cravado, para alguns, feitiço armado, baseia-se numa premissa muito simples: a rima. Podem conferir.

Vai daí que rimo tão somente para encantar vocês, enlevá-los, levá-los no embalo, pra que me adotem sem que sequer o sintam, ui, se consigo não sei, me digam aí vocês. Novesfora a ironia cotidiana, claro. Esta, aprendida aqui e ali com o rumo da vida, aprimorei com o mestre da tropa, James Joyce: leiam o que escrevo, mas não acreditem em nada daquilo que publico. Nadinha (em meu próprio nome, não custa ressaltar).

Tudo isso pra justificar que recebi esta semana um presente bem bacana, um exemplar dedicado e autografado do novo livro do Mirisola, Miri, Marcelo — como o chamo entre bem poucas pessoas, ele é que me diz, ai, somos íntimos, intimidade do autor com sua editora, uma das, pelo menos —, antes que chegue de fato ao mercado, quer dizer, à Mercearia: Charque… uma autobiografia, vá lá (sem os trespontos).

Confesso que me animei, adoro autobiografias, mesmo porque as pratico ainda que não passem de mentiras, suavizando, autoficções — afinal de contas, vida de escritor é ver a vida sob a lente infame da escrita apesar de que o que se vive nunca se escreve de fato, para, respira, apenas a versão revisada, revivida, editada, começo, meio e fim. Eu que o diga.

Pois fiquei sabendo não faz muito tempo — através de uma discussão na internet sobre a futura tradução para o inglês de Joana a contragosto a sair qualquer dia desses pela KBR (nosso prazo final, decretado pela Biblioteca Nacional, é 2012, se o mundo não acabar e o Alan não me matar, e blablablá) — que toda a obra do Marcelo é autobiográfica, o que, francamente, me surpreendeu: no final das contas, o livro aconteceu a contragosto de Joana ou de MM, ego do autor? (sem o “alter”, por favor)

A partir daí, devo confessar, meu interesse no escritor, que já era grande, ainda aumentou. E esta crônica seminal, eu sempre lutando pra não soar banal, era pra ser uma resenha normal do novo livro dele (não é da KBR, mas da paulista Barcarolla), que terá seu lançamento nacional no dia 31/10, das bruxas, será que ele percebeu? Deve ter percebido, porque cá entre nós o cardápio da noite será digno de um bom caldeirão — sapos, aranhas e cobras, dentes de leão? não…  mas um bom jegue ressecado puxado na manteiga —, peraí que vou ali tomar meu Meclin e já volto, abre o parêntese, Meclin, pra quem não sabe, é o remédio contra enjoo e vertigem que Dr. Alan G. de Google Sklar receitou pra mim, mas o meu problema, todo mundo sabe, é estafa e estresse, tudo bem, mais um ponto hitchcokiano para o assassino que meu marido oculta, depois não digam que não avisei, fecha o parêntese, jegue este do qual para meu desencanto passarei longe, ainda nem entendi que cazzo de jegue é esse, pois charque é de boi: seria outro ego do autor? Ops, meu, Miri, desculpe aí. Vai ser na badalada Mercearia São Pedro, segunda, agendem, que ao vivo eu nunca vi.

Não entendi, me explico, porque embora eu muito o desejasse não consegui ler o livro a tempo da resenha, e dia de crônica tem que meter a lenha, não tem desculpa. Por outro lado, também, porque comecei a leitura, como toda boa prática recomenda, pelo texto da contracapa, onde muito claramente estava escrito: “fujo das rimas e trocadilhos como o diabo da cruz”, mas não das frases feitas, né, mentira, li foi mesmo na página 10, ainda na “nota do autor”, e até sublinhei com a minha Bic vermelha, parei, respirei. Dei uma parada e fui ver tevê para desopilar o fígado. Mas eu volto ao livro, Marcelo, volto sim. Pode escrever. Mesmo porque fiquei muito aliviada ao saber que o risco de suicídio já passou do ponto pra você. Ainda bem.

Mas então, diriam vocês, se não há resenha, por que puxar o assunto do tal livro? Bom. É que uma linha, uma só em especial, no texto inteiro de Márcia Denser a respeito do mesmo, me falou ao coração, “… o menino de Pinheiros, bochechudo, rico e bem careta” e já conto por quê.

É que faz algum tempo uma conhecida minha me acusou exatamente do mesmo crime — bem, digo, do “bochechuda” ela talvez não saiba nada porque este trauma, pelo menos, ficou bem longe no passado da menina, tudo bem — de ser “rica”, e por conta disso incapaz de produzir qualquer texto que fosse que despertasse o mínimo interesse em quem quer que fosse, meros caprichos de quem não tem o que fazer, nada pra sofrer ou sobre o quê valha a pena escrever. É mais fácil um camelo vencer no mundo da caricatura do que um rico herdeiro adentrar o reino da boa literatura, não é mesmo? Não que La Denser tenha significado isso, muito pelo contrário.

Não sei. Já faz tanto tempo desde que eu tive dinheiro que não era meu que tudo o que me lembro é a dor que minha “alma” — ou cérebro, ou sistema nervoso, sei lá — sempre sofreu, sei lá por quê. Não fui abusada, nem maltratada, nem abandonada ao meu próprio excesso de sorte, simplesmente nasci assim. Fazer o quê.

O que não custa lembrar, neste vasto panteão de injustiças — cometidas, impensadamente, abre o parêntese, todo advérbio deve vir entre vírgulas, aprendi esta semana, ainda que, tardiamente, com um professor de português, fecha o parêntese, contra escritores que de alguma forma se dedicam à escrita por ter de alguma outra fonte, quiçá menos doída e deprimente, o sustento de que qualquer um necessita para sobreviver neste mundo de tablets e gadgets sem os quais não se pode mais viver, ufa —, é que as grandes obras literárias do passado foram escritas ou por quem tinha dinheiro ou por quem vivia sustentado por quem tinha dinheiro, até Joyce, podem acreditar. Não fosse um bom bando de mulheres achando que o que ele fazia deveria continuar sendo feito, custasse a quantidade enorme de libras que acabou custando, não teríamos Ulysses, nem Finnegans Wake e nem mesmo o mais básico Retrato do artista quando jovem, quem iria querer viver num mundo desliterado como esse, hein?

Segue o conselho destemperado, inevitável desde que voltei, na pele de editora, a mourejar por um ganhapão e sua paga, e imoral, pois história alguma vale coisa nenhuma se não houver nela implícita uma falta obrigatória de moral, confrontando a banalidade social: paguem, sim, para escrever.

O publicado, meus amigos, pode resultar impagável, preciosos fracassos da mídia, podem crer. E tenho escrito.

Editora Barcarolla
Páginas 224
ISBN 978-8598233604
Ebook  
POD R$37,89
Na Amazon https://www.amazon.com.br/dp/8598233609

 

 

 

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3 Resultados

  1. marcelo mirisola disse:

    E´ que não consigo ler, Noga. Sério. Quando não dá liga, não dá.
    Beijao,
    MM

  2. Noga Sklar disse:

    Ah, de Joyce, não… assim nós vamos acabar brigando! rsrs. Quem ama, odeia.

  3. marcelo mirisola disse:

    Além das rimas e trocadilhos, também fujo de Joyce… e o coelho capota, capota…beijo,MM

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