O Eu, a Alma e a Lei

Há quem diga, usando termos psicanalíticos, que o homem sofreu três feridas narcísicas: a primeira quando percebeu que não era o centro do universo; a segunda quando descobriu que a Terra não é o centro do sistema solar; e a terceira quando percebeu que não controla nem mesmo o que acontece no seu interior — seus próprios pensamento e sentimentos —, esta última, obra da Psicanálise.

A Psicanálise se distingue de outras técnicas de psicoterapia por se desviar do aconselhamento, da catarse, das “terapias de conversa”, por se apresentar mais como uma “terapia de relacionamento”, já que o instrumento de trabalho do psicanalista é o próprio relacionamento que se estabelece entre ele e seu analisando, chamado de “transferência”; e é através da repetição dos padrões de relacionamento, que o paciente apresenta ao analista, que este vai poder fazer seus esclarecimentos. É, pois, na vivência, e não só na conversa, que ocorre a Psicanálise.

Até hoje me perguntam qual é a diferença entre Psicanálise e a Psicologia, se sou analista ou psicóloga, psiquiatra ou terapeuta, assim, puramente.

É claro que não sou eu que irei esclarecer assunto tão delicado. Mas uma vez fui morar numa cidade no interior de Minas Gerais e ninguém, nem os médicos, sabiam o que era Psicanálise. Assim, fui convidada para escrever um artigo para o jornal da cidade.

Fazendo um ultrarresumo daquele texto, eu disse que no decorrer do nosso desenvolvimento psicológico podemos distinguir duas forças principais. Uma delas é criativa, selvagem, peculiar, intuitiva, autoafirmativa, orgulhosa de si, que parece proceder do coração e ser o alimento da Alma. Quando estamos sintonizados com esta força, nossos olhos brilham, o coração se abre, e somos pura coragem, ardor, integridade. Nessas horas, temos desejos. Almejamos para nós uma vida rica em experiências e emoções, e nos sentimos aptos a consegui-la. Podemos dizer que já nascemos com essa força, que ela sempre esteve lá, no centro do nosso coração (a Alma).

A outra força é bem diferente. É despertada por nossos contatos com o mundo externo, desde que nascemos. É a mediadora entre nós e os outros, entre nós e o mundo. De fora, recebemos instruções sobre horários adequados, comportamentos adequados, perigos e áreas de facilidade, primeiro no lar, depois no grupo e na sociedade. Aos poucos, formam-se padrões em nossa mente, nossos modelos de certeza e adequação (a Lei). Cada vez que surge uma nova questão, consultamos esse nosso padrão para saber o que nela consideramos certo ou errado, bom ou mau. Sem essa segunda força, torna-se difícil ou até impossível o nosso convívio na sociedade. É ela que vai nos instrumentar para a realização dos nossos desejos.

Uma é uma força motriz, a outra é uma força maleável, mediadora e propiciadora. Uma é como um rio, e a outra é como uma roda d’água. Se operam em harmonia, maravilha, são grandes realizações. Se entram em conflito… é a neurose, angústia, insatisfação, perda da Alma ou perda de freios. Se a força maleável não for suficientemente amorosa e tolerante, a Alma pode se rebelar e declarar guerra, fazendo a pessoa se entregar a excessos de qualquer tipo, como a violência, drogas, álcool, fanatismo religioso, comidas pouco saudáveis, relacionamentos prejudiciais ou qualquer tipo de transgressão deliberada.

Se a Alma for ferida muito cedo, por causa da tirania da força maleável — a Lei, que parece vir do mundo externo —, a pessoa é aquela que se sente abafada, apertada, agoniada por dentro, com uma saudade muito profunda de alguma coisa que não sabe precisar. Tem enorme desejo de viver, mas se mantém ali, no cativeiro, até por medo de, ao se soltar, cair nos excessos irresistivelmente.

Mas se algum conflito que perdura é porque existe um fator equilibrador: é o que se costuma chamar de Eu, aquilo que em nós é capaz de consciência. Algo em nós é capaz de tomar consciência da situação dessas duas forças e intervir na contenda, é capaz de tomar uma decisão e promover a ação.

Sim, pois nada muda realmente sem uma ação que testemunhe e avalize a percepção interna (do Eu). O Eu é justamente quem age; por isso, o pronome é o sujeito do verbo, da ação. Graças a ele é que temos a opção de tomar as rédeas da nossa própria vida e influir no nosso destino. Caso contrário, os outros decidirão por nós, e nós, que já não podemos nos livrar da consciência, ficaremos com a desconfortável sensação de estar passando a vida em branco, sendo mais um número na massa, sem rosto ou coluna vertebral. Isso, sem falar em consequências mais graves.

A Psicanálise é um dos instrumentos de que podemos dispor para administrar favoravelmente essa contenda. O Eu é o nosso dom e a nossa obrigação. É a nossa questão, nosso ser ou não ser. A tomada de consciência começa com a percepção de que Eu não sou a minha Alma, nem a Lei; não sou minha mãe nem meu pai.

Eu sou Eu.

 

4 comentários em “O Eu, a Alma e a Lei

  • 12/11/2011 em 20:04
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    Rosângela.

    Parabéns. Texto agradável e didático.

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  • 12/11/2011 em 19:48
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    Oi, Rosângela!
    Como sempre, gostei muito…
    Estou até pensando em fazer análise.
    Você é psicanalista, não é?
    Pois é, mais uma vez Parabéns!
    Parabéns também pelos seus múltiplos talentos… Médica, psicalista, astróloga e
    cronista… Você escreve muito bem.
    Abraço,
    Raul

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