O estranho coração de Salvador Gabi

Fiquei com a morte em 1998. O rolo foi em Itacaré, Bahia. O clima de vila de pescadores ainda estava em conserva, bacana remar no mangue vendo caranguejos vermelho-sangue.

Uma tarde, achou melhor chover. Mineiro na praia não admite isso. O sol tem obrigação de estar à sua disposição, sua condição de sem-mar protesta e faz piquete. Numa barraca da Praia Brava, o tédio me levou a invadir cervejas.

Mineiro não confia em cachaça estrangeira, então tive que tomar conhaque. Muitos. E fumei às pamparras. A irresponsabilidade solteira se encantava com a solidão.

E como reza o verão, o sol espaventou as nuvens e rachou com instantaneidade bíblica, como o verbo se faz carne.  Comovido, como o cara do Poema de Sete Faces, virei mais um conhaque e corri para o mar. Minha alegria era mais potente do que a da bicharada de Noé quando Deus desligou o dilúvio.

Mais gonzo do que Hunter Thompson, esborrachei-me no verde-azul. Fiquei brincando na violência das ondas, que conquistam surfistas, estava me dissolvendo num oceano de loucura.

Percebi que abrir os olhos seria uma opção interessante. Vi pessoas-siris, a praia linda, longe, longe. Minhas pernas se debatiam como as de Gregor Samsa, o baratão. Quanto mais eu nadava, mais me distanciava. Meu coração tornou-se uma Uzi. O ar não entrava, só a água salgada, que sempre chamei de tira-gosto. Pensei nos meus pais a perder o segundo filho e a morte beijou de língua meus ouvidos.

Vi um troço amarelo chegando: era a camiseta do salva-vidas. “Agarra a prancha e bate as pernas”, ele disse. Só tive forças para agarrar a vida. Quando meus pés pousaram na areia, andei como um sobrevivente no último dia do holocausto; ajoelhei-me na ressurreição.

A loucura tinha ido embora. Encaretado, esqueci Deus, só pensava no que teria que dizer ao salva-vidas. Pensei em dizer “obrigado”, e essa palavrinha mixa me fez vomitar. Pensei em dar dinheiro e vomitei mais. Fui até meu salvador e disse que colocaria uma prancha no lugar do crucifixo. Ele deu uma risadinha: “Tu é um tremendo vacilão. Tá cheio de aviso de perigo”, resmungou.

Esses dias fui parar em Búzios. Na Praia Azeda, uma menininha nadava ao meu lado; mesmo sem ondas, a água resolveu não deixar a figurinha voltar. Ela gritava: “Gabi, Gabi, não tô conseguindo”. E nada de Gabi. Levantei o polegar e perguntei se ela queria ajuda. Olhei ressabiado para a praia, pois o pai poderia pensar que eu era tarado ou sequestrador. Nada de pai. Estiquei a mão na barriguinha da criança e a levei para a areia.

Ela não me disse nada. Correu e desapareceu num piquenique cheio de bisnaguinhas. Se eu tivesse morrido em Itacaré, seria o meu próprio babaca. O pai da amiga da Gabi é até agora o escroto de Búzios.

Ultimamente, meu coração anda batendo fora do ritmo. O médico disse que são extrassístoles, uma percussão sincopada que entra no meio do compasso. É uma sensação de quebrada de andamento, muito esquisito e intimidador. Fiz eletro, ecodopler, teste ergométrico, tudo. Não deu nada.

Mas escrevo isso e sinto meu coração pirar no ritmo. Tem dia que acontece o dia inteiro. Às vezes, levo no foda-se. Outras, perco a cor me vendo no caixão. Para o médico, só tenho ansiedade, mas a sensação é de que o coração vai se dar um nó, parar e explodir. Escondido, bem na minha, peço a Jesus para me abanar. Morrer aos quarenta, assim, pá e bumba, não é bom negócio, Jesus.

Então vou seguir, tocar, cantar, já que não vou me mudar para Praga. Vou beijar minha mulher quando ela abrir os olhinhos, fazer caminhada de manhã cedinho, comer mandi ensopado, beber suco de laranjinha-capeta, ouvir Genesis com Peter Gabriel e pensar nos filhos que não quis ter. A um mineiro de pedra resta cada segundo, vivido com a profundeza do mar.

Quanto mais nado, mais me distancio. A amiga da Gabi sabe o que é isso.

 

 

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3 Resultados

  1. Alexandre Lima disse:

    Paulo , as lágrimas rolam há mais de 5 minutos , só de pensar ter havido a possibilidade de perda do segundo filho . Como é complexo o entendimento dos acontecimentos , as idas e vindas , as coincidências que nos levam a viver e a morrer. Que Deus te abençoe sempre!

  2. Rosangela de Souza Mello disse:

    Conheci o Paulo através do meu filho, que ensaia também ser escritor, embora a cada dia se afaste dessa praia e navegue nas águas da Administração Pública e começa a trocar as palavras por fórmulas sem fim.. Era Paulo isso, Paulo aquilo e eu, mãe, fiquei curiosa, querendo saber quem era essa figura que conseguia o impossível: ganhar a atenção e a admiração do meu filho Francisco, tão pouco franciscano na arte de achar todos os professores “gente boa” e muito crítico em relação a todos eles…

    Primeiro vi uma foto do Paulo, depois fiquei sabendo da uma banda, pensei que fosse um anarquista… Ainda mais depois ele ameaçou a tranquilidade da pacata Formiga quando escreveu sobre o “nosso Santo Padre” Fábio de Mello (aqui no sentido mais santo mesmo!…), causando um reboliço que me lembrou as cenas de novela Roque Santeiro…

    Aos poucos fui juntando peças, palavras, fotos, causos no Face Book, artigos lidos à ermo e …passei de mãe curiosa a fã do escritor Paulo Lima. Passada a desconfiança e a inveja causada pela admiração do meu filho por ele, ficou agora o gosto pelas palavras dele: “A irresponsabilidade solteira se encantava com a solidão”. E me vi mãe, mais ligada ainda ao meu filho, por meio desse cordão literário, que agora me encanta e me faz pensar que professores assim, benditos como ele, nunca deveriam deixar as salas para partir para o palco das letras…

  3. Rosangela de Souza Mello disse:

    Conheci o Paulo através do meu filho, que ensaia também ser escritor, embora a cada dia se afaste dessa praia e navegue nas águas da Administração Pública e começa a trocar as palavras por fórmulas sem fim.. Era Paulo isso, Paulo aquilo e eu, mãe, fiquei curiosa, querendo saber quem era essa figura que conseguia o impossível: ganhar a atenção e a admiração do meu filho Francisco, tão pouco franciscano na arte de achar todos os professores “gente boa” e muito crítico em relação a todos eles…

    Primeiro vi uma foto do Paulo, depois fiquei sabendo da uma banda, pensei que fosse um anarquista… Ainda mais depois ele ameaçou a tranquilidade da pacata Formiga quando escreveu sobre o “nosso Santo Padre” Fábio de Mello (aqui no sentido mais santo mesmo!…), causando um reboliço que me lembrou as cenas de novela Roque Santeiro…

    Aos poucos fui juntando peças, palavras, fotos, causos no Face Book, artigos lidos à ermo e …passei de mãe curiosa a fã do escritos Paulo Lima. Passada a desconfiança e a inveja causada pela admiração do meu filho por ele, ficou agora o gosto pelas palavras dele: “A irresponsabilidade solteira se encantava com a solidão”. E me vi mãe, mais ligada ainda ao meu filho, por meio desse cordão literário, que agora me encanta e me faz pensar que professores assim, benditos como ele, nunca deveriam deixar as salas para partir para o palco das letras…

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