O espelho

O quarto estava em penumbra, mas isso não me impedia de reconhecê-lo. Dormia, aparentemente tranquilo. O único som que se ouvia era o marcador cardíaco, com seu ritmo constante.

Entrei lentamente. Não queria acordá-lo. Apesar de o movimento no CTI ser constante, eu o observava em seu leito, sem me ater aos outros passageiros daquela nau que navegava em águas turbulentas. Sentei-me na poltrona que se encontrava à sua direita.
Não conseguia me ater ao presente: me via em sua casa, brincando, quando menino.

Eu o seguia por todos os lugares, parecendo cachorro sem dono. Ele não se importunava com a minha presença, só sorria e me deixava brincar com suas ferramentas. Sempre estava ocupado na marcenaria. O cheiro da madeira retorna com as minhas lembranças. Ele cortava, serrava e polia. O som das máquinas, misturado ao odor da serragem, era ininterrupto.

Eu me colocava a uma distancia segura, e me deixava ficar com os pedaços de madeira, que moldava em minha imaginação, raspando e lixando como eu o via fazer em escala maior. Ele tinha uma habilidade nata, fazia desde pequenos consertos para os amigos até moveis mais elaborados. Só não tinha compromisso com o tempo: seu acabamento era próprio e meticuloso, via imperfeiçoes onde já não se via mais nada; mas naquele local, imperceptível para os menos treinados, ele permanecia aplainando e olhando a superfície, enxergando o que ninguém mais podia, até que, como mágico ou avisado por alguém, sorria e dava como concluída a inspeção. Encaixava a peça no mobiliário, e era como se tivesse nascido ali.

Agora sua imobilidade me doía, não era de seu feitio se deixar estar assim, faltava seu dinamismo, sua vitalidade. Mexeu-se um pouco no leito. Levantei-me e me aproximei devagar. Seus olhos azuis me reconheceram, e um sorriso que eu conhecia bem me saudou primeiro:

— Pedro!

— Sou eu, vô!

— Eu sei, meu filho, tava acordado quando você chegou, mas deu preguiça de abrir os olhos! Estou meio cansado!

— Não se preocupe, só vim ficar um pouco com o senhor.

— Eu sei! Você é um bom menino! — fechou os olhos e suspirou fundo.

Estava mais magro e mais abatido. A doença o consumia por dentro, mas o deixava consciente do feito.

— Sua mãe veio com você? — perguntou-me, sem pressa.

— Veio, vô, ela está lá fora. Como não é o horário de visita regular, só nos deixam entrar um de cada vez.

— Tava sentindo sua falta!

Mal consegui responder. Sabia que ele perguntara por que eu não viera vê-lo: faltou coragem, mas quando seu pedido chegou, não pude recusar. Queria que eu fosse estar com ele.

— Eu também, e desculpe por não ter vindo antes!

Ele sorriu, com tristeza e compreensão.

— Venha aqui, vamos conversar.

Sentei-me na cama e segurei sua mão. Ele me olhou e disse:

— Você sabe que é uma despedida, não sabe?

Balancei a cabeça, afirmativamente. Não conseguia falar. Apertei suas mãos nas minhas, e senti as lágrimas descerem pelo meu rosto. Ele mexeu no meu cabelo, como fazia quando era criança. E ficamos ali, sem nada a dizer e dizendo tudo.

Vi as mesmas lágrimas em seus olhos. Vi no espelho de sua alma, me vi ali.

 

 

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