O drama

Jeremy Irons e Glenn Close em “O reverso da fortuna”

Revi, recentemente, um filme do qual na época havia gostado muito. Chama-se “O reverso da fortuna”.

Eu havia apreciado o trabalho brilhante dos atores, especialmente Jeremy Irons, num papel muito complexo e ambíguo. O dilema era: matou ou não sua esposa? Ninguém sabe até hoje. Claus von Bulow é um advogado socialite, hoje com 85 anos; permaneceu casado com sua esposa, Sunny von Bulow, que viveu em estado vegetativo — por causa de uma overdose de insulina — desde 1980 até sua morte em 1987.

No filme, o que me chamou que a atenção foi a história dela, que é narrada na primeira pessoa. É muito interessante o fato de eles serem milionários, e isso não fazer a menor diferença na história inteira — apesar ser este o motivo apontado para o suposto crime: dinheiro. Ele, que já um homem rico, herdaria uma fortuna dela, que era muito mais rica, mas em momento algum o dinheiro tem participação ativa na história, no drama.

Drama é drama. O cenário pode variar, mas o móvel de qualquer drama são as emoções, as paixões. O fato é que o homem foi absolvido, porque ficou estabelecido no julgamento que ele não pretendia matá-la, não tinha motivos para isso. Num certo momento, ele diz que a ama, assim como a outras duas amantes.

Seu primeiro marido era um jovem mulherengo. Para dar o troco, ela resolveu traí-lo também, mas não foi uma traição fútil, como as do marido: se apaixonou pelo amante, que, aliás, já era um homem muito rico. Mas aí é que entra o drama.

Sua mente, acostumada a pensar ser esse o maior valor possível no mundo onde habitava, concluiu que ele se casara apenas por dinheiro, e passou a se comportar como tal: queria dele apenas a companhia, a maridagem, tinha comprado um marido. Inverteu, portanto, sua paixão; parou de desejá-lo, de encantar-se com ele, de usufruir os prazeres de um amor vivenciado na sua plenitude, para ter apenas um marido. E ali o perdeu, no começo do casamento.

Assim, ambos foram levando a situação por alguns anos, até que ela começou a adoecer fisicamente. Depois foi só uma morte lenta do amor, de um e de outro, como dupla amorosa, e sem sexo há muito tempo, segundo ela afirma no filme.

Ele se rebela: quer viver. E, discretamente, mantém um romance secreto. Com os filhos crescendo, e o surgimento de uma amante do mesmo nível social de ambos, ela julgou que havia perdido o jogo, para sempre. Ele não podia fazer mais nada, porque ela tinha se recusado a ceder diante do impasse criado por ele ao se recusar a ser seu boneco, caríssimo. A certa altura, ela diz: “Com o meu dinheiro, eu posso ter quem eu quiser!”

Tentou encontrar conforto nas drogas lícitas, muitos medicamentos. Ele não a impediu. Por quê? Por que queria vê-la morta? Tinha o plano maligno de matá-la com sua indiferença por que não a amava? Ele a amava, como dissera repetidas vezes. O que ele não disse é que ela é que não o amava mais, porque estava acostumada a se pensar sem valor. Seu valor era só o dinheiro, e se o dinheiro não comprava o que ela queria, para que continuar vivendo?

Esse filme me fez refletir; nesse campo emocional é que se tomam as pequenas e grandes decisões, das guerras sangrentas à escolha de um par para dançar, aqui no nosso mundinho, na superfície do nosso planeta, mesmo das formas mais disfarçadas.

Este é o drama fundamental: tu me amas? Eu te amo? Queremo-nos?

 

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4 comentários em “O drama

  • 21/07/2012 em 16:41
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    Eu te amo? Tu me amas? Tu me queres? Eu te quero? Até quando?
    A incerteza nossa de cada dia…
    Haja reflexão!
    Melhor seguir o coração e viver o dia a dia, um dia de cada vez, sentindo intensamente cada momento…
    Vai ser romântico assim lá na praia…
    Romântico? Antigo? Etc, etc…
    Parabéns, Rosângela!
    Bela crônica!
    Emocionante!
    abraço, Raul

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  • 21/07/2012 em 11:07
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    Grande Barbet Schroeder. (Direção)….Ele também fez a “Virgem dos Sicarios” de Vallejo….
    Tres coisas movem a humanidade: Sexo, Poder e Dolares!

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