O diário secreto de Noga Sklar

diarioNão confie em ninguém com mais de trinta anos.
Marcos Valle

 

Nos meus tempos de esotérica, quando cultivava um amor e respeito à “deusa” — fosse lá o que fosse que eu queria dizer com isso —, fiz uma promessa a mim mesma, digo, ao alvo hipotético de minha fé espiritual(ista), de nunca mentir nem dizer palavrões.

Nossa, eu era carente nessa época. Some os dois parágrafos num só e as conclusões são por sua própria conta. Mas quanto a mentir e dizer palavrões…

Bem. Tenho andado meio assoberbada ultimamente, muitos diriam que passo por uma séria crise de estresse com todas as suas incômodas características, falta de sono e excesso de cansaço entre elas e ambos aparentemente irremediáveis, sendo assim, como escapar do eventual “puta que o pariu” sonoramente verbalizado? Francamente. O mundo é para os fortes, quem sabe para os dementes.

O que nos leva ao hábito prosaico da mentira. Tá certo que o tom da minha literatura é o livro aberto, o transparente. Mas à medida que vamos nos enredando nas malhas que a vida nos oferece, seja profissional, seja pessoal, sempre apaixonadamente, criamos também um espécie de compromisso com aquilo que alardeamos publicamente, não é mesmo? Quem lê tanta verdade?

E cumprir compromissos conflitantes vai ficando… bem, no mínimo complicado, no máximo entediante. A fé é para os simples de espírito, para os que se mantêm simples no cotidiano, o que não é uma coisa ruim necessariamente, a simplicidade, digo, que evita que muitos hoje em dia mergulhem profundamente, seja no que for.

A profundidade pode ser um pecado, um horror, já falo mais da fé, em nome da qual tantas atrocidades são diariamente cometidas.

Imaginem se de agora em diante eu me dispusesse a falar verdades sem tolos matizes, como fazia antigamente? O que penso de tudo que leio enquanto trabalho? Pior: se vez ou outra, por puro cansaço ou ilusão de mudança, traio alguém, ainda que apenas em pensamento? Trair é o quê? Basta sonhar, gostar de alguém novo intimamente, viajar numa vida diferente?

Todos temos escolhas, mas quanto nos custa mantê-las quando às vezes desejamos algo que não possuímos? Ah, tá bom, não aconteceu comigo, mas com aquela amiga oculta bastante parecida, que talvez até more comigo, bem no fundo conforme eu já ia dizendo.

Devo confessar: tais indagações, que têm sido frequentes, foram espicaçadas recentemente por um despretensioso comentário do Alan num desses cafés-da-manhã em que falávamos da vida, de filhos, de marca deixada no mundo, herança genética, família, essas coisas, Alan costumava me provocar dizendo que por não ter filhos eu não tinha nenhum valor, tá certo, nenhum valor para a cadeia da sobrevivência (entendam como quiserem), eu entendo. Mas daí ele veio como um leve toque de cruel… ops, realidade a mais: “Life has passed you by”.

Pois é: se for pra falar em mera sobrevivência darwiniana, nenhum de nós interessa à natureza depois dos 30 e poucos anos, quando demos o melhor de nós para a perpetuação da espécie e viramos uma espécie de lixo genético, corpos caquéticos, seres descartáveis, pura e viva teimosia. Ainda assim podem ser nossos melhores anos, os mais produtivos se não for pra tratar de filhos, vocês me entendem. Somos “criados para morrer” como tantos outros bichos, melhor nem se incomodar tanto com isso. Ah, é, falta de fé.

Pra bom poliglota uma frase em inglês basta, mas pros outros de nós (o idioma inglês falado e pensado continua sendo um ponto de discórdia em nosso casamento, o que me leva a concluir que essa “facilidade” de relacionamento intercultural na verdade não existe, não passa de mais uma falácia da internet), precisa traduzir: “A vida passou e você não viu” ou algo assim, sendo o algo assim uma opção obrigatória em todos os casos de tradução, traduttore traditore, sabem como é. Já traímos por princípio, antes mesmo de nos apaixonar.

O caso é que aí eu caí em mim e percebi que essa coisa de filhos tinha ficado mesmo anos atrás, uns 30, pelo menos, assim como tantas outras coisas que desejei, embora, claro, hoje em dia eu esteja bastante satisfeita com a minha vida, mas já me contradizendo, não o suficiente. E daí a gente começa a entender, ainda que tarde, a sabedoria da mãe da gente, talvez transmitida de forma pouco convincente. A minha, por exemplo, me ensinou o valor de pequenas mentirinhas, algumas mais necessárias para a felicidade diária que o trivial “passa lá em casa pra tomar um drinque”.

Os anos passados como já disse vão complicando a vida, mas deveriam facilitar, não é mesmo? A gente devia se desligar de tudo que vai incomodando, restringindo, causando dor, mas não é assim que a banda toca de jeito nenhum. Afinal de contas, quanto mais velha, maior o desejo e o medo da solidão, é isso mesmo, fui conflitante de propósito, e é assim que me sinto.

O que me leva a afirmar algo bastante impopular que comecei a dizer mais acima, e que volto a escrever, nem é pela primeira vez, já estava no sem graus e bota uns bons anos nisso: “Religião é coisa primitiva, meu amor”. Algo sobre o que venho acumulando evidências, experimentadas e lidas, ultimamente no livro de Dawkins que estou lendo no meu Kindle nas horas de lazer, The God delusion, e que sem hesitar recomendo.

Bom, vou deixá-los em paz por ora. Não estou num bom dia para afirmações impopulares pra qualquer hora, porque, como já disse, estou atravessando uma fase de estresse. Passará.

A última coisa que eu queria contar é que comecei uma empreitada nova, que jeito esquisito de tentar descansar, não é mesmo? Não, não se trata de um hipotético “Diário secreto de Noga Sklar”, coisa mais fora de moda, não é mesmo? Se bem que eu teria uma meia dúzia de coisas para escrever lá sob o lacre sagrado “para abrir só depois que eu morrer”, mas depois de minha morte, como eu disse pro Alan, por que eu haveria de me incomodar? Os vivos que se incomodem em meu lugar, não estarei nem aí para o que se revelar.

Pois a tal coisa nova é a KB+, um novo selo editorial onde eu, a figura da editora, pretendo um dia desaparecer, me desapegar do meu imenso “poder” como recomendam os budistas na busca da felicidade, em resumo: um selo onde pode tudo, menos a falta de qualidade, e onde pretendo, se conseguir e a ânsia de “fazer eu mesma” me permitir, delegar a alguns seguidores o conhecimento para converter. Já estou planejando ensinar tudo que inventei e aprendi, e quem sabe um dia poderei me confortar com o que amealhei, não é mesmo?

Enquanto o curso não vem (virá em breve, em Paraty), transferi para a KB+ três de meus livros publicados, nem é por assunto nem nada, nem dá uma dica do que pretendo dizer com “não vou controlar nada”, embora dois deles, claro, incluam minha fase de fé da qual não perco por me desligar, ops, fechei. O critério, simplesmente, enquanto Noga como primeira autora, é que esses três livros não têm edição impressa, só isso, tinha que começar de algum lugar, não é mesmo? Lancei. Com o tempo, caberá muito mais.

Porque no projeto em si coloquei, estou colocando o melhor de mim, muita coisa que prometi (a mim mesma) e (ainda) não cumpri: é a plataforma de publicar mais moderna deste país, isso eu posso garantir, ou não seria eu a mais velha “vanguarda do Brasil”, como disse há uns 30 anos uma respeitada jornalista  Iesa Rodrigues, dou nome e endereço , ih, esse troço cansa como já disse, mas também vicia. Fui.

E um bom domingo procês.

 

 

 

7 comentários em “O diário secreto de Noga Sklar

  • 07/04/2013 em 17:43
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    Muito bom, Noga. Concordo plenamente que, quanto mais o tempo passa, mais forte é a ansiedade de concretizar os planos que a gente traz guardado há anos. Mas acho que tudo acontece como deve acontecer, as peças sempre se encaixam como deveriam. Não atribuiria isso a um(a) deus(a), mas à força da natureza, talvez, que vai guiando a gente pelos rumos certos, mesmo quando eles parecem errados. Quanto a The God Delusion, li a versão em português e escutei a narração do próprio Dawkins no audiolivro em inglês. Uma maravilha, se bem que algumas coisinhas poderiam ter sido aprimoradas na tradução. De qualquer maneira, fica mais do que recomendado mesmo 🙂

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    • 07/04/2013 em 18:00
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      Rafa, estou lendo o Dawkins em inglês, embora as traduções sejam necessárias, o melhor é sempre o original quando a gente entende, né? Goethes fora, rsrs.

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  • 07/04/2013 em 13:35
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    “Os anos passados como já disse vão complicando a vida, mas deveriam facilitar, não é mesmo? A gente devia se desligar de tudo que vai incomodando, restringindo, causando dor, mas não é assim que a banda toca de jeito nenhum. Afinal de contas, quanto mais velha, maior o desejo e o medo da solidão, é isso mesmo, fui conflitante de propósito, e é assim que me sinto”.

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  • 07/04/2013 em 12:58
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    Querida Noga, li e reli teu texto fascinada com a facilidade com que você expressa o que vai no coração de todos. Texto limpo, aberto, sentido, verdadeiro, incomodativo ( porque não?) e um enorme sinal de alerta para que vivamos com plena consciência do que somos , para onde queremos ir e porque devemos ir. Adorei…

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    • 07/04/2013 em 14:51
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      Leonor querida, a melhor coisa de se ouvir é a frase que vc disse, então vou repetir: “a facilidade com que você expressa o que vai no coração de todos”. Valeu mesmo, obrigada!

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