O dia em que o mundo parou

O despertador tocou, tenho certeza! Este barulhinho de cigarra eletrônica não é da natureza. Procurei o danado e apertei-lhe a verruga na cabeça. Pronto! Hoje ele não toca mais. Me levantei devagar, sentei na beirada da cama, um ritual necessário para que eu não retornasse ao ponto de partida: minha cama, meu travesseiro, minha preguiça. Abri os olhos e cumprimentei:

— Bom dia, Ju!

O retrato pregado no painel me sorria como sempre. A bem da verdade, a foto era da turma toda e havia sido tirada como parte das comemorações do fim do ano, que era o nosso último no colégio.

Aqueles tempos não foram fáceis. Quando ela entrou na sala, confesso, baqueei. Vinha de outra escola. Era linda. Entrou como se já conhecesse todo mundo, com aquele sorriso que me conquistou à primeira vista. Sentou-se na cadeira em frente à minha, virou-se e falou:

— Oi. Meu nome é Juliana.

Fiquei sem palavras — esqueci de dizer que sou extremamente tímido —, engoli em seco e respondi:

— Gilberto!

Ela sorriu. A aula começou em seguida. Mas eu estava em outro planeta. Daquele dia em diante, minha vida mudou. Juliana, em pouco tempo, ganhou não só a mim, mas a todos os colegas. Ela é dessas pessoas fáceis de se gostar. Dali em diante, só sonhei com ela.

Voltei do devaneio e voltei ao quarto. Me arrumei, peguei a mochila e saí correndo, com um pão que peguei em cima da mesa. Ainda deu para ouvir minha mãe falar:

— Gilberto, come direito!

Ela queria que eu me sentasse à mesa e tomasse café com leite… Não percebeu que eu não era mais criança, que estava atrasado como sempre e que a vida corre. Saltei do ônibus na porta do colégio. Faltava menos de um mês para acabar o ano e eu sem saber o que fazer da vida.

Desde aquele dia eu me imaginava dizendo para Juliana o que sentia, mas ficamos tão amigos que não tive chance. Eu a vi namorar o Paulo, e sofri calado com a felicidade alheia. Ele era mais velho, estava na faculdade e, para piorar, ainda tinha uma moto. Ele a pegava na saída da escola. Abraçada a ele na garupa ia ela, sem ligar para o ronco do motor. Depois só ficava a imagem dos longos cabelos dela voando ao vento. Quando eles terminaram, no mês passado, fiquei alegre por mim e triste por ela. Ele a trocara por outra, uma garota da própria faculdade.

Pensando em tudo isso, e principalmente nela, fui entrando no pátio da escola distraído e envolto nos meus pensamentos. Então eu a vi. Estava sentada no banco do pátio, perto da cantina. Seus cabelos, de um castanho claro, eu conhecia de longe. Lia um livro e percebi pelo seu jeito — eu conhecia cada gesto dela —, que estava infeliz. Com as pernas cruzadas, ela olhava para baixo sem interesse. A mão esquerda apoiava o queixo; com a outra ela folheava as páginas sem vontade. Me aproximei:

— Oi, Ju!

Ela levantou os olhos verdes; estivera chorando.

— Oi, Gil!

— E aí, tudo bem?

Ela me olhou, me deu um meio sorriso e respondeu:

— Cê sabe que não!

(Apesar do namoro, continuamos amigos, e nos conhecíamos com um olhar.)

— O que foi?

— Tudo, nada, sei lá, tô meio perdida! A escola acabando, eu sem saber o que estudar e sem vontade de saber.

— Escuta, todo mundo tá meio assim…

— Eu sei, mas isso não ajuda muito. — Baixou a cabeça e a apoiou nas duas mãos.

Não aguentei vê-la assim. Sem saber como, toquei de leve seus cabelos. Ela me olhou. E eu me perdi em seu olhar.

— Ju!

Ela me tocou os lábios com dois dedos da mão, se aproximou de mim e seus lábios tocaram os meus; sua boca se abriu, senti sua língua na minha e o mundo parou.
A abracei meio sem jeito, senti seu corpo no meu, o coração disparou, as pernas tremeram, eu queria morrer ali naquele lugar, naquela hora.

Quando nos separamos, foi como se nos tivéssemos visto pela primeira vez. Ela sorriu, eu sorri de volta. Nos beijamos de novo, desta vez sem pressa. Levantamos e nos demos as mãos. Naquela hora eu descobri o que eu queria para minha vida: ela!

 

14 comentários em “O dia em que o mundo parou

  • 28/08/2011 em 20:40
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    Gu, parabéns! Seus contos são muito bem escritos e nos remetem à realidade. Vc é demais! Bj.

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    • 28/08/2011 em 20:45
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      Nana mostra para aquela amiga que queria ser minha amiga!bjo!

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  • 24/08/2011 em 10:31
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    Gustavo amigo, sua escrita É você, inconfundivel e muito bom continue nos encantando e agradeço pois estamos todos precisando de “leveza” bj

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  • 21/08/2011 em 00:46
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    Gustavo,
    Voce realmente tem o “Dom” de escrever bem!
    Estou adorando! Continue me enviando!
    Bjo
    Alessandra

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  • 18/08/2011 em 14:23
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    Gú.. não sei porque ainda me surpreendo com suas palavras, tudo o que vc escreve é lindo!!! Parabéns.

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  • 17/08/2011 em 20:47
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    história gostosa de ler e de imaginar… como todos os contos de (Um Tanto de Prosa). muito bom!!

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    • 18/08/2011 em 00:18
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      Vera
      É verdade!O que vivemos de bom,permanece independente do tempo!
      Beijo.

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  • 17/08/2011 em 12:07
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    Oi Guta!
    Parar o tempo com a força do coração.
    Ah!… É tudo o que precisamos.
    Muito bom!
    Bjs
    Zeze

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    • 17/08/2011 em 15:21
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      Oi Zé
      Então,tem um tempo que permanece em nosso coração!
      bjo,
      Guta.

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  • 17/08/2011 em 12:01
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    Delicioso de ler, de se imaginar, de se relembrar, de viajar… apenas.

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