O coronel e o curioso

No norte de Minas, o coronel Vergílio era famoso por tudo: pela extensão de terras que possuía; pelo dinheiro; pelo número de cabeças de gado e de afilhados. Na verdade, destes últimos dizia-se mesmo que, por coincidência ou destino, eram a cara do coronel.

Em dia de festa na cidade, quando o velho senhor ia ao centro do vilarejo para prestigiar o forrobodó, dava gosto a procissão que se formava diante dele para lhe pedir benção. Era menino de tudo quanto é idade, tamanho e cor. A todos ele recebia com prazer. Sentado na cadeira de palha em frente à pensão da cidade, resguardado pelo puxado que se estendia adiante da casa, ele estendia a mão aos “afilhados” e os abençoava.

— Bença, padinho! — pedia um.

— Deus te abençoe, meu filho!

— A bênção, meu padrinho! — pedia outro.

— Deus te abençoe, meu filho!

E o velho Coronel se aprazia e sorria, feliz com o respeito e admiração dos seus. Certa vez, tendo ao seu lado um amigo recente, um paulista que viera de longe comprar uma partilha de gado e estava agora admirado de ver tanto menino junto, foi interpelado pelo companheiro. Já, de certa forma, próximo do velho fazendeiro por causa da negociação, e animado por ter saboreado um legítimo scotch com gelo que, impávido diante dos dois, se destacava na mesa entre os comensais, o visitante tomou coragem e perguntou:

— Coronel, me permite uma pergunta?

O Coronel, satisfeito com o movimento e com a venda de seu rebanho por um bom preço, sorriu e respondeu:

— Fique à vontade, Genésio, pergunte o que lhe aprouver!

O comerciante paulista, encorajado pela bebida, questionou:

— Quantos filhos o senhor tem?

O Coronel, algo surpreendido com a questão, não se fez de rogado e devolveu a pergunta:

— De modo geral ou com a minha senhora?

Disse isso olhando para a consorte, que, distante da conversa e do assunto, ajudava as outras mulheres na arrumação do almoço que o marido ia oferecer à comunidade.

O rapaz se assustou com a réplica, mas não retrocedeu e prontamente desembrulhou o embrulho.

— Com sua esposa, Coronel!

O Coronel sorriu, senhor de si, e declarou:

— Tirei dezesseis filhos, na cadeira desta mulher!

Um silêncio de admiração e respeito foi a resposta que o jovem questionador ofereceu ao homem poderoso. Mas, ajudado pelo “cão engarrafado”, o rapaz, num misto de coragem e destempero, voltou à carga, depois de mais um gole do malte escocês:

— Coronel, já que o senhor me deu liberdade além do que mereço, gostaria de indagar: e de modo geral?

O homem mais velho riu da curiosidade do jovem colega e, parecendo se divertir com tanta curiosidade, esclareceu a questão:

— Rapaz! Nesse caso vou ter que ajuntar, levar no curral e mandar apartar!

Assim falou e, antes que o comerciante se refizesse da confissão, mandou chamar o Zelão.

O capataz da fazenda chegou ligeiro, com o chapéu nas mãos e pronto para o que desse e viesse. Do alto de seus quase dois metros de altura de músculo e de força, era pura admiração pelo patrão. Era o encarregado da fazenda, do gado e de outros assuntos “especiais” que se faziam necessários vez por outra, por precisão. Na cintura do colosso se destacava o trinta e oito cano duplo presente do patrão, utilizado nessas ocasiões.

O moço engoliu em seco com tal aproximação. A voz do coronel soou forte e decidida:

— Zelão!

— Pronto, meu coronel!

— Conhece o padre Juca?

— Conheço não, meu coronel, mas já estou com raiva dele — retrucou, apertando a coronha do revólver.

— Não, rapaz, se assossegue, o padre é amigo nosso. Mate uma rês e dê a ele para a quermesse da Igreja!

— Está certo coronel. Eu tenho raiva, de tanto que eu gosto desse padre. Ô homem bom, sô! É pra já!

E saiu para resolver a tarefa. Genésio, mal refeito do susto, achou que já perguntara demais. E, não querendo em nada desagradar o amigo, achou melhor partir antes de Zelão voltar.

 

 

2 comentários em “O coronel e o curioso

  • 09/06/2012 em 22:49
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    Esse conto me fez lembrar de uma ” história antiga”…contada em almoços na copa da cozinha…
    Beijo, Cinthia.

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    • 10/06/2012 em 11:39
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      Boas lembranças que nos acompanham pela vida.
      Beijo.Guta.

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