O computador e o beija-flor

Alimentei a pretensão de escrever um romance desde que me formei em Letras. A trama já estava na minha cabeça desde 1992, quando um fato insólito varreu a cidade de Formiga, velho oeste de Minas. O prefeito mandou fazer um “gato” no sistema de retransmissão de TV e a MTV Brasil passou a pegar na cidade com todos os seus matizes de cultura pop. Era a época do surgimento do Nirvana, última banda revolucionária do rock, e infectada pela programação da emissora, a juventude formiguense pipocou bandas pra tudo quanto era bairro.

Recentemente, depois de muitos anos vivendo furacões junkies, reuni condições de me estacionar em casa para iniciar a ficção que teria como massa as histórias vividas no século passado por mim e meus amigos.  Ao computador, escrevi trinta páginas com a dedicação cevada de um trapista. Vivi a loucura de me apaixonar pelo texto, mesmo questionando se ele prestaria, como a gente faz com qualquer amor.

Numa tarde de solidão ereta e impetuosa, eu era Glenn Gold tocando o computador, quando… todo o meu texto desapareceu. A tela ficou em branco. Uma lavoura de caracteres sumiu, assim, cretinamente. Minha habilidade de Fred Flintstone vasculhou a máquina toda, e nada. Chamei o técnico, que não conseguiu resgatar meu texto e ainda me disse que nunca tinha visto nada parecido.

Eu quis martelar o computador. Eu quis morrer. Depois, quis processar, mas processar quem? Bill Gates? Tudo bem que a máquina tinha sido desaforada, mas o maior culpado fui eu mesmo. Alucinado pelo sexo com a escrita, não salvei nada no pen drive ou algo que o valesse.

Levei minha impotência burra até o jardim de inverno, reentrância de minha casa onde nunca havia entrado desde a reforma, e vi uma bolinha fofa num dos bambuzinhos. Era um ninho de beija-flor. A mamãe, verdinha de brilhar, deitava sua proteção sobre o filhotinho úmido. Se a Natureza colocara aquele mimo entre quatro paredes de concreto,  seria eu alvo de um sinal? Apesar de amarrotado pela frustração, a Criação não queria que eu  desistisse de criar.

Um barulhão me cuspiu da cama no dia seguinte. Divisei um vaso quebrado no jardim de inverno. Mamãe beija-flor estava no galho mais alto do bambuzinho, a fitar o ninho vazio. O miado branco da gata do vizinho havia triunfado. Acionei Elvis, meu cão pastor, para que esfolasse a ordinária. Latidos débeis. Altaneira, a gata engolira o filhotinho no alto da goiabeira. Com desprezo por nossa infantaria, lambeu as patas.

Despedi-me de mamãe beija-flor e conservei a foto da passarinha, ainda feliz com a maternidade, e voltei pro meu romance. A beija-flor foi voar sua vida.

Nem eu nem ela tínhamos como saber se valeria a pena começar de novo. Ambos sabíamos como este mundo é sacana.

 

11 comentários em “O computador e o beija-flor

  • 23/05/2012 em 19:17
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    Não sabemos porque coisas deste gênero acontecem!
    Mas sabemos que neste texto tem um poeta e escritor super bacana e super humano.
    Sim,sim Paulo… “mundo sacana”” rs!
    Abraço

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  • 23/03/2012 em 18:55
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    achei muito lindo o que li sobre o seu conto, acho que foi sim um aviso, quem gosta de escrever e publicar o que escreve não deve parar. Na maioria das vezes não sei o porquê mas dá um estalo quando nos vemos numa situaçaõ igual a sua, então a gente pensa e acaba descobrindo que o melhor a fazer é escrever tudo que sentimos naquele belo momento; se é magia, encantamento, sensibilidade à flor da pele não sei explicar o fato é que tudo que li achei maravilhoso, eu escreveria sem parar até os meus dedos ficarem dormentes, eu leria tudo novamente e só acabaria de escrever qundo me desse por satisfeita.
    Aconteceu comigo algo parecido, mas infelizmente não tive o mesmo sucesso, eu escrevi sem parar e hoje eu me pergunto porque parei, não devia não é? quando escrevo são fatos que aconteceram baseados na minha própria realidade, fatos corriqueiros mas vale a pena, então eu peço as pessoas que por favor, não parem nunca, quanto mais você vê suas linhas se estenderem em multiplicações de ideias aí é que você não deve parar mesmo, siga em frente, conclua tudo o que você sabe e sei que são muitas coisas. Não vale à pena deixar o que é belo quardado numa caixa para as traças corroerem, não vale mesmo!!!

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    • 26/03/2012 em 09:52
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      Muitíssimo obrigado, Maria das Graças, por palavras tão contundentes.

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  • 23/03/2012 em 10:23
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    Vamos combinar que eu não fazia a menor ideia de que as “formigas” do Atol da Manna eram da “Formiga” do Paulo Soraggi, olha aí a KBR nos 6 degraus de separação!! Gostei.

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  • 23/03/2012 em 09:53
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    OI PAULO.

    Eu estou morando a doze anos nos Estados Unidos em Palm Coast na Florida..Sinto saudades do Brasil, mas meu lar doce lar e’ onde estou. Falar de Formiga e; voltar ao passado. Minha familia paterna era de la e nunca conheci. Pelo que voce diz, e’ linda. Bom ter voce aqui, Meu livro Atlants, Atol de Formigas, olha a coincidencia, esta na Amazon pela KBR e estou pensando em publicar mais um. Mas sou pintora e tenho mais de dois mil quadros vendidos e desde 2005 so,pinto no computador. Na ArtWanted.com/mannam tem 960 pinturas digitais.
    Pior do que perder um texto e’ ter eles guardados na gaveta a tantos anos que a teia e’ seu manto. Mas com esforco vou ver se consigo reaver alguns. Abraco.

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    • 23/03/2012 em 10:09
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      Puxa! Uma artista de altíssimo nível gostou do meu texto! Vou passar o fim de semana sem dormir… Abraço.

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  • 22/03/2012 em 20:32
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    Olá Paulo.’
    Muito bem-vindo ao nosso grupo.
    Adorei sua crônica e me solidarizo com sua frunstração pela perda do texto, mas pelo bem da literatura não desanime.
    Parabéns

    Priscila Ferraz

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    • 23/03/2012 em 08:53
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      Oi, Priscila!

      É uma grande honra estar entre vocês.

      Obrigado pelo incentivo.

      Abraço.

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  • 22/03/2012 em 16:48
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    Oi Paulo. Linda, triste e muito real sua historia. Sabe, parece incrivel, mas pela primeira vez na minha vida, cruzei com alguem de Formiga.Achava que meu pai era o unico de la. Nunca ninguem disse que conhecia ou era de la.
    Eu tambem nao conheci, mas tenho comigo algumas fotos tirada la, quando minha irma esteve morando algum tempo com minha vo’. Sentadas na porta da casa com minha tia e tio. Nossa parece que voltei no tempo.
    Minha vo era Maria Goulart e meu pai Jose Goulart Machado, sei que viveram ai por muitos anos.E’ bom dizer que isso foi la pelos anos 1940 e tanto…Sei que minha tia Maria Machado ate candidata a prefeita ela foi. Se souber algo me conte, ta. Formiga e’ um nome diferente para uma cidade. Abraco, Manna.

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    • 23/03/2012 em 08:52
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      Bom dia, Manna!

      Formiga é uma cidade bacana, apesar dos políticos daqui. Tem duas lagoas lindas a 4 km do centro, com ótimos clubes. E fica pertinho da represa de Furnas, que o mineiro chama de Mar de Minas. Meu livro, que será publicado pela KBR, é ambientado aqui. Obrigado por ter apreciado minha crônica. Você mora no Rio? Abraço.

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