O cheiro do povo

Foliões lotaram a avenida principal de São Domingos do Prata FOTO: DIVULGAÇÃO

Os negros americanos inventaram o lamento do blues, que anos mais tarde seria capturado por Elvis Presley, Lennon, Clapton, Beatles e Stones, dando origem ao rock’n’roll, que nada mais é do que um blues com a batida mais rapidinha, na concepção de Keith Richards.

Os guitarristas ingleses “eram um bando de garotos brancos que queriam ser negros”, disse Slash, ex-guitarrista do Guns N’ Roses, em entrevista publicada no sítio Imprensa Rocker.

Quando os Rolling Stones botaram os pés nos estúdios de gravação da Chess, em Chicago, a Meca do Blues, passaram por um operário que pintava o teto: “O nome do operário era McKinley Morganfield, mais conhecido como Muddy Waters”, disse Keith Richards, em “Curtindo adoidado”, na Revista Piauí número 52.

Corria o ano de 1964. Pouco depois, os Stones ficariam milionários; “o mínimo que poderiam fazer era render homenagem aos seus heróis. Então, batizaram a banda com o título de uma música de Morganfield e cantaram louvores a ele e a todos os outros antepassados mais talentosos do que eles”.

Muddy Waters, ou “águas barrentas”, o guitarrista que influenciou a batida dos Stones, era um preto fodido; ganhava a vida pintando paredes e nunca veria o cheiro do próprio sucesso. Os herdeiros de Waters, igualmente pretos e pobres como ele, só veriam a cor da grana muitos anos depois de sua morte.  Keith Richards, o guitarrista porra-louca dos Stones, só queria ser Muddy Waters, “embora eu jamais vá ser tão bom ou tão preto”, declarou.

No Brasil, Cartola, um dos nomes mais criativos da MPB, só conseguiu gravar o primeiro disco aos 65 anos de idade. Antes de ser “redescoberto” por Stanislaw Ponte Preta, no final dos anos 50, “Cartola chegou a ser dado como morto. Foi encontrado trabalhando em uma garagem em Ipanema, onde lavava 11 carros por noite, apesar da idade já avançada”, vide matéria no sítio raizesmpb.folha.

No tempo negro da escravidão, a Santa Igreja Católica promovia debates pra decidir se os negros eram dotados de alma. Enquanto os brancos saiam de fraque e cartola pra ouvir música de câmara, os negros, sujos e maltrapilhos, vestindo apenas uma tanga de algodão, aproveitavam pra sacar da senzala seus tambores e atabaques e fazer a festa no terreiro, movidos a cachaça, pés de galinha e muita farofa.

Tudo que é original na música popular americana, do norte ao sul do continente, dos anos1920 em diante, nasceu das mãos sujas e calejadas dos pretos descendentes de escravos. Só o negro poderia ter criado o samba, o blues, o jazz e a capoeira. Só um negro poderia ter ensinado os brancos a tocar guitarra como Jimmy Hendrix. Tudo que veio depois, no mundo do rock, do jazz, do blues e na música popular, é fruto da admiração dos brancos pela arte suja nascida do sofrimento dos negros.

Apenas o homem escravizado teria motivos pra cantar e dançar, fazer oferendas ao sol, ao vento e à lua, pois não tendo nada a ganhar no reino dos brancos, exceto chicotadas no lombo, a única divindade que lhe restou para conquistar e obedecer morava nas forças que habitam a mãe natureza.

Difícil ouvir um batuque cadenciado, ao som de zabumba, pandeiro, chocalho, tamborim e o repique das baquetas no surdo e o corpo ficar parado, sem vontade de sapatear pra longe os problemas da vida.

“Porque o samba nasceu lá na Bahia, e se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração”, diz a letra do samba da benção.

 

O Bloco dos Sujos

Um rio de pernas e braços desfilando pelas ruas de São Domingos do Prata, não se sabe quem é preto quem é branco quem é rico quem é pobre quem é doutor ou quem é pé de chinelo. Atrás do Bloco dos Sujos, só não vai quem já caiu de bêbado…

O sujeito com grana ficaria intrigado: como pode um bando de sujos, sem fantasias ou adereços, fazer um batuque com tanta energia?

Algo vem de muito longe no samba, quem sabe os tambores ancestrais que nos chamam, ou talvez seja a vontade aprisionada de tornar a ser criança, de se “sujar” na lama, de se deixar levar pela batucada e cair na farra, livre como um passarinho.

Porque o povo é sujo, o povo é feio, o povo é branco, o povo é preto, o povo tem grana ou não tem grana. O povo não tem nada a ver com aquela gente que aparece nas novelas da tevê.

O povo é semente. No povo estão presentes todas as possibilidades, todas as virtudes e defeitos. O povo não cabe nas roupas de grife, o povo é gordo, o povo é magro. O povo é o húmus, o povo é o barro do qual são talhados todos os artistas. É preciso ir aonde o povo está — já dizia Milton em sua canção. O povo também pode ser rico, bonito, educado ou sem educação. Não importa. Todos somos povo. Nascemos povo e morreremos povo, ainda que em determinadas ocasiões alguns se julguem mais iguais do que os outros.

No Bloco dos Sujos não há ninguém mais limpo, ninguém mais sujo, branco ou cheiroso do que o samba mais preto que ecoa pelas ruas de São Domingos do Prata, desde que o negro foi para o cativeiro e de lá cantou.

O carnaval de rua oferece a oportunidade, única no ano, de nos reconectarmos com as forças originárias de nosso povo, de uma forma mais poderosa do que o exercício do voto, porque no samba aos pés só importa a alegria, e nas mãos do político o voto logo se transforma em um papel sem volta.

Quem tem coragem de dançar e batucar na rua está apto pra enfrentar no resto do ano os perigos da vida. Se algum extraterrestre chegasse em São Domingos do Prata, entre o dia 16 e 21 de fevereiro de 2012, ao ver aquele monte de pernas e braços desfilando nas ladeiras de pedra, com certeza ele perguntaria ao primeiro transeunte: “O que se passa?” É o Bloco do Sujo e sua batucada. Então tá explicado…

Há de algo de belo na sujeira. Como diziam os Racionais: até no lixão nasce flor. Deve ser por isso que todo bom político, principalmente em época de eleição, faz questão de frequentar os botecos de copos sujos, apertar a mão dos mais humildes, comer buchada de bode e pegar no colo crianças de fraldas borradas…

 

 

Um comentário em “O cheiro do povo

  • 27/02/2012 em 14:40
    Permalink

    Caro Peixoto, prazer em reconhecê-lo, que já o tinha lido em Refazenda. Também já procurei muito “cabelo branco em ovo de largatixa”, como você muito bem diz. Aposentado, tento escrever. Bela crônica que celebra o povo que, quando povo, reúne todo mundo sem as barreiras convencionais. Tenho sentido isso há uns 5 anos, comparecendo à festa de N. S. do Rosário na Comunidade do Açude, cá em Cardeal Mota, município de Santana do Riacho. Ali se toca o candombe – tambores e vozes.
    O futebol também tem sua parte nessa história: irmana todo mundo e fortalece a identidade “povo”.
    Há, aparentemente, dois movimentos (dentre múltiplos que não indentifico) que se contrapõem na atualidade: tem gente querendo fazer estádios luxuosos que separam e identificam por partes esse povo e assim quebram a magia subjacente. Por outro lado, há estímulos a encontros em espaços neutros onde o povo comparece na sua diversidade pacífica e acolhedora: a festa a que me referi é um desses espaços.
    Enfim, há de tudo um pouco nessa enorme aldeia virtual cibernética em que hoje nos havemos. Falar em desdobramentos é chover no molhado. A saga humana sempre surpreendeu apesar de profetas, políticos, poetas e escritores. Apenas hoje anda mais depressa. O problema, penso eu, é não parar pra pensar, é não observar o tempo natural, vital, planetário, cósmico. Sem misticismos mirabolantes.
    Grande abraço e bom trabalho.

    Resposta

Deixe você também o seu comentário