O Bolo

Há dias ela sentia o desejo de comer um bom pedaço de broa, mas não de uma broa qualquer. Em suas lembranças, buscava o sabor das que costumava comer em casa, preparadas com todo o carinho pelas mãos hábeis da mãe.

Eram nove e meia da noite quando resolveu que faria, naquele mesmo dia, o tal bolo que desejava. O que importava se era terça-feira? Quem disse que bolos só devem ser assados ou comidos aos sábados e domingos? Por acaso existe hora para ser feliz?

Animada, vasculhou sua cozinha atrás dos ingredientes de que necessitaria. Porém, frustrada, descobriu que lhe faltava o fermento para a massa.
— Amor, dá pra fazer broa sem usar fermento? — gritou ela, desconcentrando o marido que trabalhava fechado, lá dentro, no quarto.

Já era tarde para pedir socorro à boa vizinha que sempre a acudia quando precisava de favores. Mas como se o universo dissesse que era justo ela se dar aquele gostinho, num passe de mágica ouviu a porta do apartamento ao lado se abrir, para talvez diminuir a distância que a separava do seu desejo.

— Leontina, me perdoe… Sei que já é tarde, não queria te incomodar, mas você tem aí algum fermento pra bolo?

Quando escutou o “acho que não, sinto muito”, entendeu que deveria se conformar em adiar, mais uma vez, a vontade que parecia matá-la. Porém “o vou lá conferir” lhe trouxe de volta a esperança; fé confirmada no potinho vermelho que a outra carregava na mão e pelo imenso sorriso que mostrava no rosto.

Agora ela tinha tudo, faltava-lhe a apenas a receita. Embora o relógio marcasse dez horas, precisava dar busca ao precioso livro onde as guardava. Vasculhou dez vezes em todos os cantos da casa, até se dar conta de que o havia esquecido lá no alto do armário. Precisaria da ajuda do marido para alcançá-lo, mas como ele continuava entretido, completamente absorvido pelo trabalho, se viu desistir de pesquisar qualquer receita que fosse. Inclusive as que poderia encontrar logo ali, ao alcance da mão, no computador que ele usava.

Será que a essa altura ela desistiria da broa? Nun-ca!

Acabava de colocar a massa no forno e agora era torcer para que assasse bem e ficasse deliciosa. Tinha feito a mistura apenas de cabeça, conforme se lembrava de ver a mãe prepará-la inúmeras vezes.

Ansiosa, se levantava para espiar sua obra borbulhando através do vidro do forno de dez em dez minutos. E ao vê-la finalmente pronta, apenas dourando, decidiu que a comeria inteira se fosse o caso, enquanto tivesse apetite, ainda naquele final de noite.

— Comer broa a esta hora? Antes de dormir? Tá maluca? — Era a voz da culpa torturando-a, ameaçando pesar em sua consciência.

Agora ela estava pronta, linda, quentinha. Daquelas broas que pedem que se ajoelhe para comê-las. Isso a fez pensar nas inúmeras bênçãos de se estar vivo e logo começou a rezar, agradecendo aos que lhe permitiram a realização do desejo: aos que plantaram e colheram o milho, aos que prepararam o fubá e o venderam, aos criadores e às galinhas que nos oferecem seus ovos, a todos que não nos deixam faltar leite e manteiga. Abençoou também a vizinha, para quem levaria uma bela porção do alimento, bem cedinho, ainda a tempo do café da manhã seguinte.

Afinal, se a única certeza absoluta é a morte, mais urgente é viver.

 

3 comentários em “O Bolo

  • 12/08/2011 em 08:26
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    Ethel, Bom Dia!!
    Que bom começar o dia lendo sua crônica! Um texto lindo que nos mostra a importância da força de vontade e a delícia de se poder realizar os desejos.

    Vou querer a receita!!!!
    beijo grande

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  • 11/08/2011 em 22:29
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    Tinha que ser uma mineirinha mesmo falando de comida boa hein!? Ahhh me deu até vontade de fazer umas broas aqui….. pena minha péssima mão para cozinha.

    Adoro seus textos Ethel. Parabéns sempre!!!!

    bjs da sua amiga aqui

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