O boi nosso de cada dia

beijao_da_vaca

E praquele que provar que eu tô mentindo, eu tiro o meu chapéu.

Raul Seixas

 

 

Eu estava de férias em Brasília quando resolvi visitar a exposição “Modernização no Senado nas gestões de José Sarney”. Eu não sabia que o Sarney, aos 82 anos, era “o cara” capaz de morrer pelo bem comum. E havia mais: em dezessete painéis Sarney explicava em detalhes como implantou a administração por resultados, investiu em informatização e fez um choque de gestão no Senado.

Nunca fui bom em lembrar datas, nomes ou rostos, mas não me esqueço de uma anca, quando me deparo com uma que mereça ser montada. Ao ver a foto de uma secretária gostosa, tomando as notas taquigráficas em mais uma sessão histórica no Senado, foi como se eu houvesse ingerido um cogumelo alucinógeno: um duplo clique bateu em minha cachola, entrei em páginas esquecidas na memória.

Nasci para o mundo da política no longínquo ano de 1986. O Brasil sofria com a inflação. O congelamento de preços não vingara, veio a tablita, Funaro, Bresser. Chegou o verão e a Lilian Fritibe não saia da televisão, os açougueiros escondiam carne, os padeiros negavam leite, as montadoras cobravam ágio: o plano cruzado fazia água. Desesperado, um presidente bigodudo colocou a Polícia Federal no encalço dos marginais, com helicóptero e bazuca. Depois de muitos anos de mordaça, chegara o tempo dos discursos inflamados. Os futuros eleitores não queriam apenas ovos, fogo, sapatos. O povo pedia carne, cerveja gelada, pagode e mulher pelada, além do direito de votar pra presidente. Nessa época, eu morava em uma fazenda no sertão de Goiás. Pra despistar os “home”, meu patrão mandou confeccionar milhares de reses de plástico, coalhando de branco o verde dos pastos com bois de mentira, como os ingleses fizeram com os alemães antes de os aliados invadirem a Normandia.

Voltando ao ano de 1986, evocado pelo traseiro da secretária. Devia ser por volta das dezesseis horas, eu havia saído pra fumar um charuto havana, quando apareceram os caras da PF, pistolas engatilhadas, coletes à prova de balas. Um deles trazia um cartaz em preto e branco onde estava escrito “procurado: gordo ou magro”, inquirindo se eu havia visto o vilão da inflação. Não aguentei a ignorância do agente e falei, “isso é uma cabra, seu jumento. Eu sou o boi gordo”, cuspi uma gosma de fumo e lhe apontei a porta do confinamento, atrás de um quadro gigante da Mona Lisa, onde meus irmãos, que não tinham noção de seu trágico destino, passavam os dias comendo, urinando e peidando à espera do cutelo final.

Naquela noite, ao ver minha cara assustada no Jornal Nacional, foi como se os americanos tivessem libertado a França.  Eu nunca havia falado, não sabia o que era televisão até ser apresentado ao Cid Moreira. O Brasil respirava aliviado: o boi gordo fora libertado. Por eu ser o único exemplar da raça bovina que sabia falar português, desde então, por decreto presidencial, passei a integrar a equipe de informantes da Polícia Federal. Depois de vinte anos de regime de emagrecimento militar, perdoados os torturadores e anistiados os presos políticos, o disfarce de boi era perfeito para suportar o cheiro de estrume assoprado pelos ventos da Nova República.

Eu não era concursado, mas fiquei tranquilo. A Constituição Federal de 1988 estava pra nascer, e fiquei sabendo através de um assessor especial do Senado que a Carta Mãe regularizaria a situação de todos os funcionários que entraram no serviço público pela porta dos fundos. Enquanto Mamãe não fosse promulgada, o Ministério da Justiça me pagaria o salário com recursos de uma conta secreta abastecida pela CIA, que mesmo após o fim da Ditadura ainda mandava tubos de dólares para combater o comunismo na América Latina.

Mas, vamos ao que interessa. O Brasil possui o segundo maior rebanho bovino do mundo, 212 milhões de cabeças. Em primeiro lugar vem a Índia, com 324 milhões de cabeças de gado vacum. Os hindus, por motivos religiosos, não comem carne vermelha. Perto do gado brasileiro, as vacas indianas são vira-latas, produzem um bife tão duro que nem cachorro come — deve ser por isso que as vacas de lá não valorizam suas crias. Na Índia, as vacas não são comerciais, não frequentam shopping, passeiam pelas ruas enfeitadas com guirlandas de flores vagabundas, comem qualquer porcaria, espalham o lixo, furam filas, defecam na piscina do Taj Mahal, cruzam no sinal vermelho e não aparece nenhum policial honesto para incomodá-las. Aqui, nosso gado também não respeita as normas de trânsito, estaciona em fila dupla, dirige bêbados, odeia filas, mas é mais exigente em matéria de rango, exige capim de primeira. Nossas vacas, ao contrário das indianas, dão mais leite e também mais amores, frequentam os melhores ambientes, e quando o touro do vizinho pula a cerca pra corneá-las, se o sêmen for da marca “senador”, a pensão do bezerrinho de ouro não sai por menos de R$ 50 mil por mês.

Enquanto na Índia o gado bovino é um animal sagrado, no Brasil o boi e a vaca foram transformados em dupla do diabo. Tempos atrás, um espertalhão criou uma empresa chamada “Gautama”, que significa vaca sagrada no idioma hindu. Descobriu-se depois que a Gautama, com a conivência de uma quadrilha de deputados federais, vivia de mamar nas tetas do Erário, recebendo por ambulâncias que nunca entregou. Até o dia em que a vaca foi para o brejo.

O gado brasileiro não merece confiança. Existem propriedades rurais no país que produzem milhões de toneladas de picanha sem plantar um pé de boi no cerrado. Fazendas com vastas extensões de terra, que emitem notas fiscais (frias), declaram imposto de renda e pagam todos os tributos, inclusive o ITR, mas que nunca abateram uma cabeça de gado. No Rio de Janeiro, em setembro de 2005, a PF desmantelou uma quadrilha de traficantes de drogas que atuava entre Brasil e Portugal, país que servia de ponte para a distribuição de cocaína na Europa. O esquema começou a ser investigado em 1980, “quando um açougueiro português, ao desossar uma carne comprada de um grande fornecedor, encontrou dentro dela um pacote de cocaína.” (Revista Piauí, 75, dezembro de 2012). Quando os policiais federais encontraram a pista do “Frigorífico Transcontinental, responsável por exportar a carne recheada com cocaína para Portugal, descobriram que as atividades da empresa haviam sido encerradas. As investigações continuaram, até que em setembro de 2005 a Polícia Federal apreendeu 1691 quilos de cocaína armazenada em 90 toneladas de bucho, encontradas em galpão frigorífico no Mercado São Sebastião, zona norte do Rio de Janeiro.

Não faz muito tempo um senador vendeu R$1,9 milhões em gado, para justificar fonte de renda, mas os bois que o doutor criava, formados nas melhores faculdades, tinham o péssimo hábito de sair para as baladas sem documentos, e em várias ocasiões viajaram sem portar a GTA — a guia de transporte animal. Como é que um boi adulto, vacinado, sai de casa sem identidade? — eu me perguntava, enquanto pensava numa maneira de aliviar a barra do senador. Conclusão da perícia feita pela Polícia Federal: para algumas saídas havia nota fiscal, mas não havia boi; noutras, constatou-se a emissão da GTA acobertada por notas fiscais frias, ou seja os bois nunca saíram da fazenda ou a guia circulou sozinha, “viajou”; e em outras operações não havia boi nem GTA, muito menos nota fiscal, mas quem comprou o boi que não recebeu fez questão de pagar a compra do gado com cheques de terceiros — cujos emitentes também não foram localizados.

Eu trabalhava na assessoria de comunicação do Senado, eu sei que vocês não vão acreditar, mas uma vaca, isso mesmo, uma estagiária deliciosa, tatuada com a marca “RC” logo acima do bumbum, foi filmada pelas câmeras do COAF descontando um cheque de R$2,2 milhões, sacado contra o Banco do Brasil no Banco Regional de Brasília. Na semana seguinte a imprensa descobriria que a dona das divinas tetas tinha um filho com o homem forte do Senado. Ouviu-se, pelo mugido do berrante, que o dinheiro seria dividido entre os amigos do peito de um sujeito que se dizia o Rei do Gado, senador em quarto mandato, a quem caberia uma parte da grana pra ser utilizada na aquisição de uma bezerra que estava de casamento marcado nas Ilhas Cayman. Detalhe: a bezerra, que inicialmente custava R$532 mil, saiu por R$271 mil e o troco foi dado a outro amigo do Senador, para comprar leite para as crianças órfãs de Brasília.

Vida de gado. Os prejuízos ocasionados ao país, em decorrência da falta de educação e de cidadania dos bois, que se consideram os únicos donos do pasto, são incomensuráveis. Como se não bastasse, o PUM expelido pelo gado é responsável por 30% do volume de metano emitido em território brasileiro. A título de informação, o gás metano é um dos principais causadores do efeito estufa. Aliado ao desmatamento de áreas imensas de florestas no Norte do País, para dar espaço ao capim braquiária, o gado é um arraso para o meio ambiente.

Sem falar no custo de vidas humanas, no prejuízo material, no atravancamento do trânsito e em outros dissabores, em vista do atropelamento de veículos em alta velocidade ocasionado pelo gado que pasta livre ao longo das rodovias. Os bichos invadem o acostamento, atravessam de um lado para o outro da via sem dar seta, trafegam pela contramão, em verdadeiro desrespeito ao Código de Trânsito Brasileiro. O gado abandonado é tão temido nas estradas que algumas cidades optaram por desativar os pardais e colocar uma vaca de plástico como vigilante do trânsito. Pesquisas comprovam: o gado errante no asfalto exerce um puta efeito educativo. Depois do primeiro animal atropelado, a solidariedade se instala entre os motoristas, que piscam os faróis de seus carros, alertando os demais a reduzirem a velocidade nos limites da lei.

A farra do boi. Infelizmente, não há como escapar da degradação moral da espécie. Já existem escritórios de advocacia especializados em produzir álibis usando a mais nova desculpa do mercado financeiro. São duas horas da madrugada e o sujeito chega em casa, bêbado feito uma vaca.

— Onde você estava até essa hora? — pergunta a esposa, indignada.

— Ora, onde eu poderia estar? Eu estava garantindo o leite das crianças! — responde o marido, balançando uma caixinha de longa vida. — Se você duvida, é só ligar para a Jurema!

E pra provar o alegado, o pândego tira do bolso a foto de uma vaquinha holandesa, muito simpática.

 

 

4 comentários em “O boi nosso de cada dia

  • 24/02/2013 em 12:05
    Permalink

    Bão, bão.
    Mais bombado que a Bom-Bom.
    Maluco e bombado o escriba historiador ou maluca e bombada a nossa história contemporânea (e passada) e seus maravilhosos personagens?
    Saravá, Peixoto
    ailton vale

    Resposta
  • 18/02/2013 em 18:20
    Permalink

    Gato, esta cronica me faz lembrar da historia da Alice no pai’s das maravilhas: quanto mais um entra na toca do coelho atr’as do gado elusivo mais complexo e bizarro a coisa fica… Parece o mesmo Brasil que eu deixei a anos atra’s!

    Resposta
  • 18/02/2013 em 11:28
    Permalink

    Bem que eu desconfiava daquela musiquinha….Boi… Boi…boi da cara preta….pega essa menina….

    Resposta
  • 18/02/2013 em 08:57
    Permalink

    nesse caso o Raul deveria andar sem chapeu, assim como o Paulo Coelho que omitiu creditos em “Eu nasci a cem mil anos…. de Presley
    adorei a sua cronica

    Resposta

Deixe você também o seu comentário