O banquete das bactérias

foto Rachel M.

No outro dia me envolvi numa discussão filosófica com meu “filho” Erik sobre o papel da “sorte” em nossas vidas, discussão de Facebook, claro, o Erik é americano, mora numa das Carolinas “do outro lado do Atlântico” — como gosta de se referir o querido ex-presidente Lula aos nossos irmãos do Hemisfério Norte — e só nos encontramos ao vivo uma vez, no Havaí, durante a primeira eleição de Obama, e olhem que a segunda já está vindo aí, o Alan que não me ouça, taí, como todo mundo já se cansou de ouvir, Alan é um conservador radical, republicano desde… bem, desde que desistiu de ser liberal,  hippie e maconheiro. Ufa.

Meu filho Erik, entendam bem, é um rapaz muito romântico, um homem raro, que embora jovem já apanhou da vida um bocado e se saiu muito bem, apenas um rapaz norte-americano, sem dinheiro no banco a não ser o que ele próprio já ganhou, e não é pouco, hahaha, e sem parentes importantes por enquanto, com a honrosa exceção desta editora que vos fala (ui!). Além do mais, Erik está naquela fase maravilhosa da vida em que encontrou sua outra metade faz pouco tempo, ah, o amor, e é a este tipo de sorte que ele (nós) está se (estamos nos) referindo na conversa abaixo — com aspas, ao estilo americano — ih, banquete de bactérias, vocês já vão pensando que… mas estariam enganados, no caminho muito errado, não é sobre nada disso que pretendo escrever.

“Sorte é algo que não se pode mencionar na presença de um homem que se fez por si mesmo”, disse E., mencionando um aforismo de… peraí que aí embaixo ele já vai dizer.

Vero. Ben trovato”, respondi, fazendo gracinha em italiano. Como todos sabem, não acredito nessa falácia de “ter sorte na vida”, só acredito em dureza, batalha e inteligência.

Ao que E. respondeu, charmoso, e, pasmem, em português, língua que o pai dele nem com oito anos de Brasil nas costas consegue sequer arranhar — português de internet, claro… ah, essa internet, Google Translate pelo menos, tudo bem, o que vale é a intenção, é ou não é? E eu adorei, mas quem está falando é ele, não sou eu, cala a boca, Noga, você nunca deixa ninguém falar:

“Certamente não há verdade nas palavras de E.B. White”, ah, pois é, ele estava sendo irônico e eu, logo eu, não pesquei o que ele queria dizer, feitiço encontra feiticeiro, mas deixa isso pra lá.

Pra encurtar a história, eu disse pra ele que o que ele acreditava ser “sorte” era, na verdade, “sabedoria”, estar no lugar certo na hora certa mas por escolha própria, sabem como é (ele conheceu a “bride-to-be” na internet, tal pai, tal filho, embora sejam quase vizinhos na vida real, vai entender). Mas depois, francamente, me arrependi, e um segundo mais tarde me corrigi: “Beem… talvez meio a meio” [50/50 em inglês].

O que importa é que na continuação do papo fragmentado, que só fui perceber horas mais tarde por ter me desconectado, o Erik acabou concordando comigo, ficou nos 50/50, o que me deixou muito feliz (vocês sabem, desde pequena tenho esse trauma de rejeitada, fico contente além da conta quando alguém me deixa participar de qualquer parada, mas isso eu não confesso nem sob tortura).

Bom. Vocês se lembram quando, crônicas atrás, contei minhas desventuras com a dentista de Corrêas, mais o abscesso crônico e a fila de espera do especialista… Pois na véspera do feriado eu estava num pico da infecção e não aguentava mais minha dependência da incompetência dentária alheia, vai daí que procurando uma cabeleireira enquanto Alan se embebedava no andar de baixo  (é mentira, Terta, no mínimo um exagero), dei de cara no shopping com um caro consultório de dentista. Resolvi entrar.

Veio ao meu encontro uma doce endodentista, digo, endodontista, juro, podem acreditar, então, isso é sorte ou sabedoria? O caso é que por desespero, ou por franco destempero, resolvi confiar. Naquele mesmo dia ela me diagnosticou com um canal malfeito e marcamos hora para consertar, tudo endossado pelo precioso raio-x, raio-x digital, pasmem, coisa da qual esta expert em vida digital nunca nem tinha ouvido falar, superprimeiro-mundo, e em Itaipava ainda por cima.

Me preparei para a cirurgia como todo neurótico de carteirinha se prepara para qualquer coisa hoje em dia: pesquisei no Google as histórias de medicoterror e fui me dispondo para o máximo amargor. Já cheguei no consultório preparada para a hecatombe total, dente quebrado, canal arrombado, boca inchada etc. e tal: reformar um canal, eu tinha aprendido, era das coisas mais arriscadas na rotina da endodontia, que sorte a minha, não é mesmo? E que falta de sabedoria por ter permitido que isso me acontecesse… Falta de cuidado comigo, sabem como é.

Foram cinco horas de boca aberta, televisão ligada e… um toque suave de dentista, pois gente, fala sério, já lá se vão sessenta anos de vida e eu nunca tinha tido um dentista que não tivesse mãos de açougueiro, vamos combinar. Juliana era a primeira com mãos de artista, ou cirurgiã, entendam como quiserem que eu vou ficando por aqui: elogio tem seu preço e não é nada barato, não vale a pena me envolver.

Na primeira sessão, a pior de todas, pois incluía perfurar a velha restauração e esvaziar o canal entulhado de plástico e cimento (“guta-percha”, esclarece a Dra. Juliana, com uma erudição esquisita, ah, e por falar em erudição, esqueci de contar como foi que ela me seduziu de vez, e enquanto eu estava impedida de me defender: comentou a capa do meu livro Hierosgamos,  baseada em Gustav Klimt e cujo pôster ela tinha na parede de casa, “sincronicidade” ou coincidência?), a doutora me deu opção quanto ao canal da televisão. Pedi telecine e recebi um sci-fi de Spielberg a que mal pude assistir, mas o ruído agoniante, monstros mecânicos assustadores e a perfuração do meu dente tinham tudo a ver, a ponto de provocar um comentário irônico da especialista: “Pra quem queria se acalmar é o filme ideal, né?”

Pois é. Além de seu toque suave, a Dra. Juliana foi a primeira dentista que realmente conseguiu me acalmar nesta vida, e isso não é pouca coisa. Eu até já tinha comentado, em outra situação igualmente dentária, que “meu negócio não era ficar calma, era ficar tensa”.

Na segunda sessão eu já estava mais confiante; faltavam somente a última limpeza e o acabamento, digo, fechamento do dente afetado, e adeus, infecção “crônica”. Tudo viraria apenas crônica, para o meu próprio deleite e algum prazer de vocês que leriam mais tarde os meus “toques de sorte e sabedoria”.

Dessa vez, o filme exibido no GNT era uma comédia romântica sobre uma garota — aquela japonesinha de “House” —, que não acreditava no amor e partira em campo para uma pesquisa no meio da qual, tsk, tsk, acabava encontrando o seu par ideal como não poderia deixar de ser… o que permitiu — outra coisa rara — que eu me desligasse completamente daquele antisséptico ambiente e voltasse a pensar somente na crônica, que, afinal de contas, giraria em torno da sorte no amor, enquanto a doutora se concentrava em fechar para sempre o malfadado “Hotel das Bactérias”, como Alan descrevera a raiz do meu problema, sem trocadilho.

O que nos leva de volta ao meu filho, sua amada e o estado atual de felicidade que ilumina a ambos, uma delícia. Isso ainda vai terminar em copo quebrado*, podem escrever.

E um bom domingo procês.

 

 

*  Pra quem não sabe, a cerimônia de casamento judaica termina com o noivo quebrando com o pé um copo envolto num fino guardanapo branco, para conter os cacos ­— uma referência ao templo derrubado de Jerusalém consagrando com alguma tristeza a alegria do amor, um sinal de equilíbrio emocional, afinal de contas, “os mais alegres momentos no ciclo da vida são temperados de uma tristeza nacional contínua”, mas isso é só coisa de judeu. Acho a tradição linda, profunda pra caramba, desculpem, só isso já valeria outra crônica, francamente. E falando em templo, tristeza e alegria, antes que a nota de rodapé fique mais longa do que o texto onde está inserida — coisa que apenas num trabalho acadêmico seria admitida, nota de rodapé com travessão e tudo, onde já se viu —, aproveitando que neste domingo se comemora o Ano Novo judaico de 5773, um feliz ano novo pra todos vocês, nunca é demais desejar, seja judaico, cristão, muçulmano ou chinês, não é mesmo? L’chaim! À vida!

Aproveitando, convido a todos para conferirem ao vivo e ao vídeo como fala pelos cotovelos esta editora, não deixa ninguém falar, tá doido, sô:

Noga Sklar no Brasil das Gerais, Parte 1

Noga Sklar no Brasil das Gerais, Parte 2 

 

3 comentários em “O banquete das bactérias

  • 16/09/2012 em 22:16
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    Sou um rapaz de fases e além disso tenho medo de “apostar francamente” na sorte ou na sabedoria – uma delas pode ficar profundamente irritada e me abandonar para sempre. Tenho medo também de tratamentos dentários. Muitos medos. Sempre fico feliz com a felicidade alheia, principalmente com a daqueles que a merecem. Um feliz Ano Novo judaico de 5773 para todos nós!

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  • 16/09/2012 em 12:40
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    “Não estamos preparados para lidar com o aleatório – e por isso não percebemos o quanto o acaso interfere em nossas vidas.” O Físico Leonard Miodinow explica sua tese num livro ; “O Andar do Bebado”.
    Uma leitura realmente desconcertante…. Segundo ele: Deus joga dados!

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