O ano de 2045

Eliete Costa, Saquarema, RJ

Enquanto tomo o meu café na cozinha, assisto ao telejornal no qual a apresentadora anuncia a novidade: “O presidente assinou na noite de ontem a emenda constitucional que estabelece que o amor conjugal é prejudicial à saúde mental dos cidadãos, devendo, a partir de agora, ser encarado como alucinógeno proibido, e será levado à prisão todo aquele que for visto suspirando em qualquer canto do território nacional”.

Já pronto para o trabalho, Alberto entra na cozinha, beija a minha testa e se serve de café. Forneço um breve relato do noticiário matinal, e a novidade principal reacende o fervor de Alberto ao defender, com a veemência de sempre, a extinção do chamado “amor conjugal”.

— Finalmente! Enfim as autoridades intervieram para colocar uma pá de cal em cima de um assunto que todos achavam que deveria estar morto há muito tempo. O “amor conjugal” é extremamente nocivo à sociedade, mas foi necessária a morte de centenas de milhares de cidadãos, vítimas desse vício esmagador, para que o governo estabelecesse a proibição — disse.
A expressão de seu rosto se acalma, e ele acaricia a minha barriga de quase nove meses de gestação.

— E o meu filhinho? Dormiu bem esta noite?

— Como um bebê?

Alberto faz uma careta pela piada sem graça, mas eu continuo.

— É sério! Ele quase não chutou.

— É, parece que já sabe que vai nascer amanhã.

E ao perceber minha preocupação repentina, acrescenta:

— Não se preocupe, dará tudo certo, a equipe médica que fará a cirurgia é ótima e estarei lá o tempo todo. Você sabe que eu gostaria de estar no seu lugar, não sabe?

— Sei disso. Está tudo bem. Além do mais, foi escolha minha ter o nosso primeiro filho. Mas no próximo… quem sabe, né?

Alberto sorri e sai para o trabalho, ainda mastigando um pedaço de pão, enquanto fico pensando em todos os acontecimentos que me trouxeram até onde estou. Penso na minha vida e viajo num emaranhado de lembranças, chegando distante, até antes do meu nascimento. Foram necessários anos de evolução social, cultural e científica para que eu pudesse aguardar a chegada do meu filho, embora eu saiba que o que tenho hoje veio, casualmente, na esteira da mudança geral.

Alberto tem razão quando diz que muitos padeceram sob o jugo do vício denominado “amor conjugal”. No início, eram apenas os indivíduos fêmeas que morriam, vítimas da prepotência de seus amantes, e por isso leis foram criadas para proteger o lado mais fraco do acordo. Porém, aos poucos, as fêmeas passaram a tirar proveito da vantagem legal que haviam adquirido sobre os machos para, então, subjugá-los também e, consequentemente, matá-los.

Quantos crimes hediondos foram cometidos “em nome do amor”? Quantas famílias foram destroçadas? Quantos mães e pais se tornaram órfãos de seus filhos? Na contramão da carnificina, houve aqueles mais esclarecidos, quase visionários, que levantaram a voz contra o “amor conjugal”; e logo novas tendências de conduta surgiram como a salvação da nossa sociedade.
Apesar de saber que pessoas como Alberto têm certeza de que o caminho tomado é o correto, creio na constante evolução humana, que nos leva a buscar sempre um modelo ideal, mas utópico, de comportamento. Estamos bem hoje, como estivemos bem ontem em algum momento, e estaremos bem também no futuro de acordo com as nossas necessidades.

Com esta conclusão simplista, mas muito relaxante, termino o café, e o relógio denuncia o adiantado da hora. Levanto-me precipitadamente e uma pontada lancinante percorre toda a minha barriga, me obrigando a apoiar o corpo pesado nos móveis enquanto alcanço o telefone. De alguma forma sei que a hora chegou.

— Alô! É da emergência?… Por favor, preciso de uma ambulância com urgência… meu filho está nascendo antes da hora… na rua tal número tal… está bem, acho que posso esperar quinze minutos… meu nome?… me chamo José Raimundo da Silva… Obrigado.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

4 comentários em “O ano de 2045

  • 22/04/2013 em 10:39
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    A partir da visão de um futuro, hoje, absurdo, o texto faz-nos pensar sobre as relações humanas e sobre nossos próprios sentimentos, ultrapassando a (não tão) simples relação homem-mulher. Será que um dia estaremos assim? Há como mudar os rumos dos costumes e da tessitura social? Quais são os limites do saber humano, que manipula tudo através da ciência? Questões…

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  • 09/11/2012 em 14:20
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    O erro não esta no ser humano, porém na “Socialização” que nos impos regras “Ad Hoc”, totalmente artificiais, com a única finalidade de gerenciar muitos…

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  • 09/11/2012 em 12:41
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    Fantastico…que previa…so espero ver tudo…parabens e mais por estar na KBR, nao passou por mim desapercebida….

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