O Amor fala mais alto!

Eu a conheci há muitos anos, quando trabalhava com meu pai num armazém de secos e molhados no centro da cidade.

Irmã Paula nos visitava uma vez por mês. Por mais estranho que pareça, eram grandes amigos. Meu pai, árabe, com nariz proeminente, olhos negros e um grande bigode, impunha respeito e dava medo a quem não conhecia seu coração. Seu Elias era famoso pela pouca paciência e rispidez. Sua voz alta e acostumada a mandar era famosa na região do comércio varejista da cidade. Sua amiga era o oposto: tinha um semblante sereno, pele alva e uma voz calma e delicada. Seus olhos, porém, eram o que cativava a todos. De um tom âmbar, mais para o verde que para o castanho, tinham um brilho e uma energia tão intensos que a faziam mais bela.

Sim, era uma bela mulher! Apesar do hábito de freira, não havia como não notar sua beleza natural. Em garoto, eu a olhava com respeito e admiração. Para mim, ela era como aquelas imagens de santa que tínhamos em casa, na sala de jantar.

De origem libanesa, éramos católicos praticantes. Irmã Paula fazia justiça à minha imaginação. Meu pai comentara com minha mãe, mais de uma vez, a respeito da coragem e da determinação da religiosa na tarefa de cuidar de crianças abandonadas. Mantinha, com o auxílio de algumas outras religiosas e a ajuda financeira de alguns comerciantes, entre eles meu pai, uma creche com mais de 50 crianças.

Era de origem italiana e, pela educação e cultura, revelava uma origem nobre. Com sua identidade resguardada pelo nome que adotara ao assumir o hábito, não revelava nada de seu passado ou de sua família, que ainda morava em Roma. Viera para o Brasil aos vinte anos, em missão da ordem religiosa que desposara, e que tinha no cuidado e abrigo de crianças órfãs seu objetivo principal. Embora atualmente tivesse vivido no país o mesmo número de anos que vivera em sua pátria, ainda trazia no falar um leve sotaque que denunciava sua origem italiana, apesar de ela se dirigir a todos num português fluente e correto.

Toda sexta-feira, após o expediente, enquanto eu voltava para casa com o necessário para o almoço de domingo, meu pai ia ao encontro dos amigos do comércio, no bar da região. Sua intenção era rever os patrícios e conversar, pois não era homem que gostasse de beber. Enchia um copo de cerveja e pedia um quibe. Enquanto comia e conversava com os companheiros, fingia que bebia.

Naquela sexta, porém, algo diferente aconteceu, pois já passava das sete horas da noite e ele não chegava. Enquanto minha mãe arrumava a mesa do jantar com uma mal disfarçada intranquilidade, eu terminava meu banho. Normalmente eu tomava banho após o jantar, mas como meu pai não viera na hora de costume, minha mãe inverteu a rotina. Eu mal tinha acabado de me arrumar, quando ouvi o barulho da porta da casa e a inconfundível voz anunciar:

— Luciana, cheguei! Vamos jantar!

Minha mãe mandou-me sentar no lugar de costume, enquanto ela colocava a travessa de sopa sobre a mesa.
Um aroma conhecido aumentou meu apetite, mas, aos 12 anos, eu já sabia a ordem das coisas. Meu pai veio do quarto, já sem paletó e com o perfume do sabonete ainda em seu rosto e nas mãos, e sentou-se à cabeceira da mesa. Minha mãe o serviu, em seguida serviu a si mesma e por último meu prato surgiu diante de mim. Ao ver a carne e as batatas, quase me esqueci das orações. Me recompus e me detive a tempo, enquanto meu pai agradecia o alimento que Deus nos proporcionava.

Comemos em silêncio, saboreando a refeição e a companhia reconfortante uns dos outros. Após terminarmos, fomos juntos para a sala de estar, pequena mas acolhedora. Meu pai sentou-se em sua poltrona e acendeu o abajur, que se encontrava sobre a mesa ao lado do móvel. Iluminado o caminho, ligou o rádio num movimento conhecido. Minha mãe sentou-se diante dele no sofá de dois lugares e pegou a cesta de tricô. Eu me sentei no chão, simulando ler um livro enquanto aguardava os acontecimentos. Meu pai procurou sua estação preferida; o som e a voz de Nat King Cole se ouviram ao fundo e então ele começou:

— Você não sabe o que aconteceu hoje!

Minha mãe levantou os olhos de seu trabalho, dando ao amado a atenção requerida.

— Estávamos conversando, lá no bar do José, quando chegou o Rachid, pediu um copo de cachaça e virou de uma vez. E você sabe que ele não bebe!

Eu escutava com o cabelo em pé, sem me mexer, com medo de me mandarem dormir, mas o perigo passou e meu pai, entusiasmado, continuou a história. Contou que estabeleceu com o recém-chegado o seguinte diálogo:

— O que é isso, homem?! O que aconteceu?

Rachid olhou para os companheiros, com vergonha, e disse:

— Eu estava lá no armazém, carregando o caminhão novo todo feliz, quando chegou o fiscal da prefeitura e pediu para ver a documentação da mercadoria. Estava tudo certo, mas o sujeito era arrogante e começou a gritar comigo. Disse que eu o estava enrolando… Vocês sabem que eu faço tudo certo! E aquele sujeitinho resolveu me desacatar na frente dos funcionários. O sangue me subiu à cabeça! Começamos a discutir, ele me deu uma multa e foi embora. Nesta hora, enquanto eu ainda ruminava minha raiva, quem chega? Irmã Paula! Eu ali bufando e ela sem saber de nada me chamou de um jeito todo calmo:

— Seu Rachid!

Eu me virei, mas não a enxerguei e gritei:

— O que a senhora quer?

Ela se assustou. Mas, com todo jeito, esclareceu que percebia que chegara em uma hora errada, mas a necessidade era grande e ela se lembrara dele, que nunca lhe faltava, quando não havia solução.
Nessa hora, explicou meu pai, Rachid limpou o nariz com as costas da mão para esconder o desconforto e a lágrima e prosseguiu:

— Eu olhei para ela e soltei os cachorros: “Mas não é possível, a senhora veio aqui não faz uma semana e já está de volta! Será que não chega? Só pede, só pede parece um saco sem fundo!”

Ela ouvia em silêncio, e eu ali xingando e gritando até babar… O comerciante parou de novo e o grupo, ansioso, aguardava o final.

Eu, olhando para meu pai, nem respirava, aguardando também. Ele não se fez de rogado e continuou:

— Então, homem de Deus? — perguntei ao desafortunado amigo.

— Então! — respondeu ele — Então! Ela me olhou com aqueles olhos que ela tem, mas eles estavam com um brilho diferente, brilhavam ainda mais que o normal. Seu rosto estava ruborizado e percebi que estava quase chorando. Ela então respondeu:

— Seu Rachid, noto que não cheguei numa hora ruim; na verdade eu tinha a obrigação de perceber que algo o chateava muito. Mas escutei tudo o que o senhor falou, e me parece que o senhor tem razão. Eu peço muito e peço sempre. E deveria estar atenta ao modo como me aproximo das pessoas. Elas podem estar sofrendo e eu não ser capaz de perceber. Nesta noite, em minhas reflexões, pedirei a Deus que me faça mais lúcida e cuidadosa. Guardarei tudo o que me disse, mas sou obrigada a voltar ao senhor, não por minha causa, pois já tive o que merecia, mas por aquelas que me trouxeram até aqui, as crianças. Infelizmente nesta semana não nos sobrou nada para alimentá-las. Por isso retorno mais uma vez à sua presença e lhe peço por elas, pois o que é meu eu levarei comigo. O senhor pode ajudá-las?

Depois de uma pausa interminável meu pai concluiu:

— Nesta hora, todo mundo no bar engasgou; o Rachid, então, chorava igual a um menino!

— E o que ele fez? — perguntou, de forma inusitada, minha mãe. Meu pai, quase surpreso, concluiu:

— Ele mandou encher o caminhão de arroz e feijão e mandou levar para a creche da irmã! — Sorriu para minha mãe, ela lhe sorriu e nada mais foi dito.

Quanto a mim, até hoje guardo na memória este dia: o dia em que o amor falou mais alto!

 

 

 

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7 Resultados

  1. Cristiane disse:

    Meus olhos ficaram como os do Rachid, cheio de lágrimas ! Quem dera se todos nós tivessemos esta sabedoria…

  2. Cinthia de Castro disse:

    Lindo! Aprendi com o conto, obrigada.
    Cinthia

  3. Cinthia de Castro disse:

    Lindo! Aprendi com o conto, obrigada.

  4. Linda cronica, emocionante.

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