Nostrosdanos

compras-online-com-cartao-de-creditoOutro dia reclamei no Facebook que não aguentava mais a incompetência brasileira, que viver no Brasil me provocava tristeza e que andava muito cansada de certas coisas. A maioria das pessoas reclamou, mas um de meus amigos (Alan detesta quando qualifico como “amigos” meus “amigos” de Facebook) disse que estava cansado mesmo é dos boatos apocalípticos que abundam cada vez mais por aí. Eu também.

Mas esta semana estou vivendo uma experiência no mínimo esquisita. Não acredito que um asteroide vá colidir com a terra e mandar a humanidade pelos ares em breve, como fez com os dinossauros. No entanto, não faz muito tempo, caiu na Rússia um meteoro, meteorito, não sei,  e causou uma boa destruição por lá. Não acredito em aquecimento global, matem-me, se quiserem. Mas neste verão aqui na serra temos tido temperaturas inclementes, ventanias, tempestades de raios violentas que não só amedrontam como causam prejuízos reais. Na última “fritura” (devo esclarecer que a rede elétrica é protegida, mas não a telefônica, e às vezes não dá tempo de desconectar tudo) tive que substituir vários aparelhos na casa, telefone com fio, sem fio, modem, roteador. O último vento que bateu por aqui há três dias teve a duração de cinco minutos (quantos quilômetros por hora não sei, mas fez muito barulho e levantou muita poeira), e o resultado, habitual para quem mora na minha rua, pelo menos, foi mais de 24 horas sem luz: cai um galho quebrado na rede e pronto, cai a energia no quadro geral e entra-se na fila de espera da Ampla.

O problema é que falta de luz, depois de algumas horas, resulta também numa falta de computador, e aí, meus amigos, é o caos. Não posso trabalhar, Alan não pode se comunicar com a vida de rotina dele no exterior, instala-se em casa um nervosismo geral. Nome: dependência de tecnologia. Alan não perde um segundo para começar a me chatear, afirmar que eu devo me preparar porque no fim dos tempos será assim: sem energia, sem bateria, sem “conexão” de qualquer espécie, e como a nossa espécie Homo Conectadus poderá sobreviver em tais inóspitas condições?

Foi eleito um novo papa, argentino, desta vez, eu quis dizer “ainda bem que não é um negro”, mas não disse, por medo de passar por racista, mas não seria nada disso, estaria apenas me referindo a uma das centúrias apocalípticas de Nostradamus que diz algo a respeito de um papa negro, sei lá, e com tantos sinais trombeteando…

Mas, amigos, se preparem, porque ainda não cheguei ao “clímax” desta crônica de pesadelo. Na quinta-feira à noite, minha recarga automática de skype (a cada vez que Alan conversa com os filhos pelo celular há uma recarga de quinze euros) havia sido descontinuada por problemas com o meu cartão de crédito. Achei estranho, retentei, passou dessa vez. Na sexta-feira recebi um aviso do Facebook de que minha conta de publicidade estava bloqueada por falta de pagamento. Valor da dívida: seis dólares. Liguei para a administradora do cartão. A atendente, incompetente como sempre, me afiançou que o problema ocorrera porque eu “digitara errado” o código de segurança do cartão. Argumentei:

— Mas, minha amiga, trata-se de um débito automático, eu não mudei nada, e nem sequer há um campo na conta do Facebook para se digitar o código de segurança…

Tentei novamente, por três vezes, mas não houve solução. Na mesma sexta à noite decidi comprar um livro de Philip Roth que estava em promoção na Amazon, para me distrair um pouco ao final de uma semana pesada demais. Compra rejeitada: R$9,90. Não me contive. Liguei para a operadora novamente e pedi para falar com o supervisor, disse a ele que algo estava acontecendo, que naquele mesmo dia efetuara várias compras em Itaipava, com valores muito mais altos, e não tinha tido nenhum problema, conversa vai conversa vem (querem ouvir? a conversa foi gravada, ele me garante) o sujeito de nome “Lucas” acabou me dizendo que estava ocorrendo um problema não identificado de sistema e todas as compras pela internet estavam sendo bloqueadas, e não era só comigo.

A partir daí, foi um castelo de cartas. Todas as minhas assinaturas no exterior, que são várias, começaram a pipocar na minha caixa de email com ameaças de cancelamento por falta de pagamento: Boxnet, New York Times, Adobe… instalou-se o caos. Minha vida tão ativa e organizada de criatura cem por cento conectada foi por água abaixo sem que eu pudesse me defender, Alan já se preparando para dizer que no fim dos tempos…

Mas não teve coragem, porque, amigos, quando algo assim acontece (bem, tão grave e generalizado ainda não tinha acontecido) eu entro em parafuso, fico muito deprimida mesmo, porque já me sinto nos últimos estágios de alzheimer, eu tenho motivos, sabem como é.

Liguei para a Amazon e a atendente na Costa Rica (eu perguntei) me disse que tinha tido problemas com outros clientes, mas não sei se estava apenas querendo ser gentil, porque na loja online a lista de mais vendidos continuava em sua frenética atividade com a emoção de um videogame (confiro de hora em hora para aferir a presença de autores da KBR, eu mesma incluída, pois felizmente estamos sempre lá).

Fiquei muito indignada e decidi cumprir meu dever de cidadã: liguei para O Globo (lembrem-se, o supervisor do Mastercard havia me assegurado de que o problema era generalizado, mas por outro lado afirmou que não seria divulgado) e contei tudo ao atendente do Infoglobo; ele ouviu com a maior paciência, me chamando de senhora (senhora maluca, deveria estar pensando), prometeu passar adiante para a redação, concordou comigo que a nossa vida conectada era muito fragilizada e ainda se vangloriou de conseguir viver sem cartão, e eu, muito tecnologicamente avançada, disse a ele que não queria voltar para uma era das trevas passada, mas sim evoluir sempre, e em breve, antes de morrer, transferir meu cérebro privilegiado para a memória de um computador para o bem de todos e a felicidade geral, ufa.

Nada aconteceu. O Globo não comentou nada, nem na edição impressa deste sábado, onde denuncia em primeira página uma queda de sistema no DETRAN que prejudicou o consumidor. Publiquei um post no Facebook sobre o que estava acontecendo, e ninguém reagiu. Fiz até uma jogadinha simpática de marketing, informando aos leitores que quem tinha problemas com o cartão de crédito poderia baixar nossos livros grátis. Ninguém comentou.

Fui me sentido cada vez mais louca, cada vez mais acuada, cada vez mais sufocada com a situação inexplicada, digna de uma embrulhada kafkiana. Desmoronei. Meu deus, desta vez eu pirei.

Enquanto escrevo esta crônica nada ainda se resolveu. Mandei emails de desculpas aos meus prestadores de serviço internacionais relatando a “falha no sistema” do Mastercard, a quem solicitei que me enviassem uma declaração por escrito para evitar meus prejuízos financeiros e morais, mas eles afirmaram que isso não seria possível. “Em último caso”, disseram, “eles podem ligar para nós e explicaremos”. Sim, claro. Tranquilo. Pedirei à Amazon, ao Facebook, ao Skype, à Adobe, à Boxnet e ao New York Times para ligarem para o Mastercard do Brasil — cujo 0800 informado ainda por cima está errado no verso do cartão —, e perguntarem se Noga Sklar está mentindo, ou enlouquecendo, e isso certamente esclarecerá tudo em poucos segundos.

O mais incômodo para mim é a solidão desta rejeição radical: olho ao meu redor e pareço ser a única deste país aprisionada na “falha do sistema”. Será que é por vergonha de declarar que seus cartões foram recusados?

Amanhã, semana que vem, ou a qualquer momento online, conto pra vocês como tudo terminou num derradeiro update. O último prazo da operadora para solucionar o problema é segunda pela manhã, isso, claro, se aquele raio ou furacão definitivo não nos destruir antes que o fim de semana termine.

Quem tiver certeza ao ler este relato de que minha mente lúcida me abandonou de vez, e tudo isso que estou lhes contando jamais aconteceu de verdade, não passou de um delírio de senilidade, por favor, não me mande email nenhum para lamentar nem comentário para se solidarizar. Apenas me apague de sua vida, me desligue de seu sistema e esqueça que um dia existi como cidadã, tive despesas, contas de crédito, assinaturas internacionais e uma bela presença no Facebook.

Um bom fim de semana procês.

 

 

8 comentários em “Nostrosdanos

  • 16/03/2013 em 21:21
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    Bem, cedo ou tarde,minha incrédula editora em conspirações, tinha que ser vitima de “Fatos inexplicáveis”. Pessoalmente, trabalho com informática, vi desaparecer milhares de clientes e termos que trazer de volta por meios… digamos pouco técnicos… ainda estou esperando explicações…

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  • Pingback: Noga Sklar | Nostrosdanos

  • 16/03/2013 em 11:45
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    Noga, li com grande interesse o seu “catastrofico” porem divertido artigo. Como eu gosto muito de natureza e apenas recentemente comprei um desses “smart phones” para mim o mundo pode acabar. Bom, sei la’, pois mudancas extremas de temperatura tambem acontecem aqui onde vivo. Ainda bem que o meu cartao de credito nunca “falhou” ao contrario do seu.
    Eu creio que vc. sobrevivera’ estar desconectada temporariamente.
    Adoro ler suas cronicas.
    Um abraco,

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    • 16/03/2013 em 11:59
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      Obrigada, Nilson! Pensei que vc morava em Londres, ou no Canadá… Eu também recentemente comprei meu primeiro smartphone, tem que dar outra crônica… mas se o seu crédito falhar, vc não vai poder falar… rsrs. Abraço

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      • 16/03/2013 em 22:06
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        Canada’, eh que tambem tivemos mudancas de temperatura extrema por aqui neste inverno.

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  • 16/03/2013 em 11:07
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    Noga, não se desespere, você não está louca! Eu realmente não estava acompanhando seus posts porque também estamos aqui, descabelados e enlouquecidos, nos debatendo com a absurda burocracia brasileira que te emperra e te rouba de todos os modos, por mais que você queira trabalhar legalmente. Tá difícil mesmo!

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