Nostálgica “boutade”

block-party_5_lg“Me parece bem melhor que o anterior”, escreve em email Caetano Maia, meu webmaster, a respeito da nova versão do vídeo-release “Um tango para sobreviver”, que publiquei esta semana no YouTube. Não sabe da missa a metade.

Lembro-me, não sei se com saudade, de outra época de minha vida vibrante de atividade. Eu era então um misto inusitado de comerciante e designer de móveis. Tinha uma loja bem avançada no Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, a Pólen — encerrada em 1987, tem fãs fiéis até hoje, e é recordada com carinho, podem acreditar — e era casada com meu primeiro marido, Nelson Sirotsky, publicitário e filho de publicitário, na época (época, época, desculpem, deve ser cansaço mental) um dos mais importantes do Brasil, presidente da ABP e o escambau, o Sirotsky pai, digo, não o filho: Sani. Nobreza, é, já estive lá.

Tinha também uma fábrica de móveis em São Cristóvão que, não por acaso, citei para o Alan (marido nº 3, nossa mãe) nesta semana de chuvas e tragédias: a cada chuva a fábrica inundava, e lá vinha telefonema do vigia no meio da noite: “Dona Noga, estamos debaixo de água, a senhora tem que vir imediatamente”.

As periódicas enchentes em São Cristóvão, os flagelados que me perdoem, tinham a mesma dose de imprevidência que as casas desabadas em Petrópolis: quem, em sã consciência, instalaria uma fábrica de móveis, cujo insumo principal eram gigantescos blocos de espuma maciça, em uma casa que, por estar abaixo do nível da rua, inundava a cada vez que chovia um pouco mais? Francamente.

A Pólen cresceu, o Brasil se desenvolveu, e a fábrica se mudou para o Lins de Vasconcelos, nem vou chorar de saudades do querido Fred Campos, arquiteto e ex-sócio, precocemente falecido e que até hoje ainda não me lembro de ter citado em livro, que dizia que eu era “seu ídolo, não fugia a nenhum desafio”. Com o desabastecimento geral de 1986 — não fui fiscal do Sarney, faço questão de relembrar —, fui obrigada a contrair um empréstimo no Bradesco para comprar uma gigantesca cortadeira de espuma, pois devido à intensificação do consumo no Plano Cruzado o meu fornecedor já não se dispunha mais a cortá-la para mim nos formatos desejados, males do crescimento, dirão as estrelas, e a minha não duraria muito mais. Nem blocos nem cortadeira de blocos cabiam na antiga fábrica sujeita a enchentes, e as dores do tal desenvolvimento desencadearam uma série de gastos extras que eu não seria capaz de honrar. Veio o Plano Crucificado, ou Crucificante, sei lá, desencadeando a maior onda de inadimplência generalizada de que já se teve notícia neste país, Lula teria inveja. Não conseguimos nos manter na superfície, e lá se foi na enxurrada de empresas fechadas, pelo excesso de vendas e concomitante excesso de dívidas e devedores, a querida Pólen, com vanguarda e tudo.

Esse negócio de ser vanguarda não é mole, nem novidade para mim. Mas vai indo, cansa.

Voltando à vibrante atividade, Nélson e eu malhávamos todos os dias na academia do Hotel Intercontinental, com o saudoso Carlão, mas deixemos os demais mortos precoces para depois. E depois das três horas diárias de malhação, corrida na orla de São Conrado seguida de duas aulas em seguida — olha aí a repetição de novo, gente —, tomávamos um lauto café da manhã internacional no Intercontinental, à beira da piscina. Vida dura. Bem malhados e bem alimentados, seguia cada um para a respectiva labuta, eu para o Lins, depois para cada uma das minhas três lojas, e o Nelson para a agência, acho. Mais tarde ele diria que por colocá-lo para trabalhar na fábrica, com seus tóxicos odores de pintura, eu o estaria “matando”, perdoem se a cronologia estiver um pouco errada, mas a minha memória… bem. Deixa pra lá. Além do quê, a ordem dos temores não altera os problemas com o produto, é ou não é? Nem vale confessar que depois de fechada a fábrica passei a fabricar meus sofás de pura espuma na cobertura do Shopping da Gávea, onde o cheiro inebriante de cola viria a incomodar a muito mais, que falta de espírito esportivo, né, gente? Um pouco de cola não faz mal para a sobriedade de ninguém, vamos combinar.

O fato é que já naquela época eu trabalhava como uma condenada, mas esse trabalho na maior parte da jornada se limitava a ficar sentada atrás de uma mesa, dando ordens aos meus 50 empregados ou batendo papo com alguma celebridade que frequentava as tardes da Pólen no Shopping da Gávea, papel em que me sentia muito bem. Já deu pra entender muito bem porque hoje em dia faço questão de não ter nenhum funcionário na sede da editora, mas ainda gasto tempo com o prazer de bater papo com algumas celebridades, agora apenas pelo Facebook e sendo as celebridades de outro teor, vítimas da vida dura de escritor. Tudo bem, mas onde é que eu estava mesmo?

Pois é. Se naquela época eu já ralava, hoje, meus amigos, devo confessar que ralo muito mais. Acumulando vários cargos na editora, me deparei esta semana com uma reformulagem (existiria esta palavra estranha? o corretor do Word avisa que não) crucial de todos os métodos de envio de ebooks para a Amazon e outras manobras radicais, tenham dó. E entre os problemas que enfrentei, além da falta de luz, bloqueio parcial do meu cartão e histeria generalizada por parte do meu 3º marido, achando que interrompi o fornecimento de energia por tantos dias intencionalmente, só para tentar matá-lo lentamente por falta de conexão… estava a questão do novo software de vídeo.

Explico. Numa dessas atualizações involuntárias do Windows — eu odeio a Microsoft —, algo ocorreu com meu software grátis simplesinho, fácil de manusear, e a tela ficou preta definitivamente, impedindo qualquer edição. A solução indolor que a Dell me apresentou foi reformatar o meu computador, como é que é? E eu lá tenho tempo para isso?

Entre comprar um novo computador assim inesperadamente e apenas um novo software de vídeo… já deu pra saber qual foi a minha decisão. Pesquisei no mercado, digo, no Google de cartas marcadas como sabemos, qual seria o mais fácil de manusear — afinal de contas não me resta muito tempo para estudar —, e adquiri o Sony Movie Studio ou algo platinum do gênero, confiante de que saberia operá-lo. Instalei e esqueci. E o dia de criar o vídeo chegou sem nenhum alerta em especial.

Ah, gente. Pra quê. Comecei de manhã bem cedo a desbravar uma selva de comandos, opções e efeitos, todos para mim parecendo defeitos, pois era o resultado que pareciam acarretar. O manual de operação não me apresentou solução alguma, e acabei me socorrendo ao longo do dia com tutoriais online meio obtusos de um australiano dadivoso — Alan não se furtou a comentar que estava todo orgulhoso por eu ter conseguido entender o que dizia o bendito “aussie”, com aquele sotaque todo. Conversa vai conversa vem, muitas lágrimas depois e a certeza de que minha acuidade mental já vai me matando (se matando) aos poucos, a ameaça definitiva do alzheimer chegando já me deixando em estado de franco desespero — tô com essa mania agora, pode? —, em menos de 20 horas de trabalho consegui me sair com um vídeo de um minuto e alguns poucos segundos, esse que mencionei na primeira linha desta crônica, bem, minha memória não vai tão mal assim, pelo menos ainda dou conta da continuidade, não é mesmo?

Pois é. Agora vocês entendem porque me lembro com nostálgica saudade — fosse eu uma autora da KBR e minha editora estaria aos berros, “sua cretina ignorante, redundante, toda saudade é nostálgica por natureza!” — dos tempos de frenética atividade da minha profissão do passado, marido incluído. Bons tempos aqueles, em que a jornada de trabalho intenso, além de durar apenas oito horas diárias, com sábados e domingos para recarregar, ainda me permitia um lauto café da manhã num hotel classe A. Isso, pra nem mencionar que nem existia computador.

Resta acrescentar que na sexta-feira à tarde choveu de novo, morreu gente de novo, e Alan, marido nº 3,  manteve-se calmo dessa vez à custa de um romance policial que meu velho Kindle 2 leu para ele numa voz mecânica de mulher, enquanto de meu próprio lado eu lia à luz de velas, no Kindle novo, um romance antigo de Philip Roth até adormecer. Santo Kindle.

E um bom domingo procês.

 

 

Noga Sklar

Editor, KBR Editora digital

2 comentários em “Nostálgica “boutade”

  • 24/03/2013 em 12:29
    Permalink

    Entào você grita quando a gente erra? Fica com dor de garganta toda sexta-feira.
    Rsrsrs

    Resposta

Deixe você também o seu comentário