Nossa Senhora, rogai pelo dragão

Criado em berço católico, fui ajudante de padre por quatro anos. Quase entrei para o seminário de Lavras era um contrito frequentador de missas. Mas as aulas de História e os furacões da juventude dispensaram no Barbudo Gente Fina os atravessadores da minha fé. Das minhas origens católicas, ficou o fascínio pelas igrejas e pelas imagens dos santos. E convenhamos: até mesmo um adventista xiita tem que tirar o chapéu para Aleijadinho.

Já meu pai, é católico de rocha, reza aqueles terços bizantinos do Padre Marcelo. Meu velho não passa um dia sem a missa da Rede Vida, só reclama dos corais esganiçados em músicas compridas. Quando o padre anuncia que vai benzer a água, lá vai meu pai encher o copo americano, outrora protagonista da pinga com queijo canastra; o padre diz as palavras místicas no interior de São Paulo e a água fica benta perante a TV do velho Soraggi.  Estou pensando em pedir ao pessoal da Rede Vida para abençoar, por e-mail, meu exemplar de Assim Falava Zaratustra.

Meu pai só não embarca nas promoções de viagens anunciadas pelo canal católico; é quando ataca aquela voz, estilo filme de John Ford em que Deus conversa com Moisés: “Venha conhecer as maravilhas de Portugal: um refrescante banho no mar do Algarve; a culinária nas tascas de Lisboa e uma esticada até Cascais. E, é claro, uma visita ao Santuário de Nossa Senhora de Fátimaaaa!”. Fico pensando na maioria dos espectadores da Rede Vida, gente muito sofrida e mal paga que aperta trocados no fim do dia.  A viagem não rola, mas a missa continua.

Uma imagem de Nossa Senhora da Piedade, aquela em que Cristo está morto no colo desolado da mãe, passou a morar na casa do velho Soraggi. A vestimenta de Maria possui o avermelhado da dor; um véu azul dá conta de sua pureza e uma espécie de xale mostra o negro pela morte do filho, o mais ilustre dos presos políticos torturados. As feições dos rostos são muito comoventes, e todas as curvas da peça mostram a habilidade do artesão.

A estatueta tem uma plaquinha em seu suporte: “Virgen de la Piedad”. Achei que o objeto tinha sido confeccionado por nossos vizinhos paraguaios, com quem comungamos alguns tipos de fé e outros tipos de negócio, mas observei a parte de baixo do suporte e não vi nenhuma identificação da origem do produto. Foi quando localizei a caixa na qual ele viera acondicionado, e, estarrecido, li: “Made in China”.

Meu Deus, os chineses estão fabricando até Nossa Senhora! Comem cachorro, rezam para Buda e vão produzir peças do misticismo ocidental. Não é à toa que o crescimento da China deve estar assustando o Vaticano; ao fazer santos que inflariam o PIB mandarim, muitos trabalhadores poderiam se transferir para o cristianismo.  Já pensou? Papa Jiin Ho Zai! Pois é, Papa amarelo tem que valer também.

A essa altura, as indústrias de Xangai estão fabricando exus, iemanjás, oxóssis, oguns e todas as entidades de nossos terreiros. Acho que é por essas e outras que os chineses não querem valorizar sua moeda: a exportação de santos e similares parece fundamental à economia do velho dragão.

Buda que é bom, eles devem ter deixado de fabricar. Passaram a bola para os artesãos do Vale do Jequitinhonha, só que o Buda do Vale vai ficar escurinho e magrinho, é, tempos de globalização. E de Nossa Senhora da Aparecida com olhos puxadinhos…

Amém, irmão.

 

 

4 comentários em “Nossa Senhora, rogai pelo dragão

  • 23/05/2012 em 19:04
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    Texto genial Paulo!!
    Você é muito criativo,espontaneo,excepcional!!!
    Parabéns!
    Célia

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    • 24/05/2012 em 14:40
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      Obrigado pelo incentivo, Célia!

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  • 10/04/2012 em 15:47
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    kkkkkkkkkkkkkk
    Apreciei demais o texto! Li me divertindo!! Gostoso de ler, aguça meu imaginário. Parabéns, Paulo Lima!!

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  • 05/04/2012 em 15:08
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    ‘Gostei muito. Minha neta quer ir conhecer a China…nenhum outro paiz…so’ a China…da pra enender????Talvez la ela encontre resposta para essas doidices que voce mencionou….e para as dela….

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