Noite e dia

Ela parecia mais nova, apesar de seus 23 anos constarem na identidade. Sentada, apertando as mãos, com a cabeça baixa, reforçava essa impressão. Seus cabelos loiros caíam sobre seu rosto, o que acentuava a sua fragilidade.Os olhos, de um verde acinzentado, olhavam fixamente para as mãos, como se nelas houvesse algo de precioso.

— Silvia Klein! — chamou a mulher, segurando nas mãos um papel com várias marcações.

— Sou eu!  — respondeu, sem muita convicção.

— Por favor, me siga!

Caminharam juntas por um corredor. As paredes brancas só eram maculadas pelas placas que sinalizavam as áreas do hospital.

— Aguarde um pouco, o médico já virá falar com você!  — disse isso com um sorriso profissional e saiu.

Sentada agora dentro do consultório, apertou as mãos com mais força ainda. Tudo era estranho e desconexo, não parecia estar acontecendo, mas ao mesmo tempo já não era um sonho ruim. Na verdade, não se via ali. Mas ali estava. Enquanto aguardava, lembrou-se daquela manhã.

Acordara animada; era a semana do show que estava produzindo, e apesar das dificuldades conseguira o teatro certo, o artista adorara o lugar e tudo parecia caminhar bem. Sair da grande produtora, onde aprendera o ofício, fora um risco. Mas a vontade de realizar suas ideias fora mais forte. Riu, ao se lembrar da cara de Paulo quando lhe disse que pedira demissão:

— Você ficou louca! Largar tudo por um sonho!

Ela lhe deu um beijo, e com seu jeito de menina disse que tudo ia dar certo. Lembrou-se de que tinha que ligar para ele. Finalmente iam poder ter aquele fim de semana na praia, tão esperado. Sorriu consigo mesma, olhando o espelho e mexendo o cabelo do jeito que ele gostava. Entrou no chuveiro, deixou a água cair sobre o corpo, sem preocupação.

No início não deu muita importância ao passar a mão pelo local para tirar o sabonete. Mas algo lhe chamou a atenção, sem que ela se desse conta do porquê. Tocou o seio direito ainda molhado, ao mesmo tempo em que esticava a mão para alcançar a toalha. Sentiu então algo que não estava ali no passado. Enquanto se enxugava, passou novamente a mão pelo local. Um estremecer a atingiu, e não era de frio.

— Bom-dia, Silvia! — a voz do médico a trouxe de volta à realidade.

— Bom-dia, Dr. Humberto.

Ele a olhou, tentando passar tranquilidade. Mas para ela, tudo era medo e angústia.

— Seu resultado da biópsia!

Ela viu o envelope que ele lhe estendia, mas não conseguiu se mexer.

— Deu negativo! — ele lhe disse, sorrindo, sem que ela acreditasse que era a verdade.

Ela ouviu, como se não fosse com ela. As lágrimas surgiram sem esperar, essas de outro tipo, outro gosto: o gosto da vida!

 

 

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4 Resultados

  1. Gustavo. disse:

    Verdade!Por isso quando “A indesejada das gentes chegar,que encontre a mesa posta”…
    A idade é inevitável ,mas evita que nos vamos cedo.

  2. Manuel Funes disse:

    Yes my friend… Não é a mesma coisa falar dela… que ver chegar!
    A proposito…na minha idade…estou demorando para fazer aquele toque…

  3. Cristiane Duarte disse:

    A sensação e a ansiedade mesmo que neste breve momento deve ter sido de eternidade… ainda bem que o final foi feliz !!!

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