Noir

Fred MacMurray e Barbara Stanwick em "Dupla indenização".

Na crônica da semana passada falamos do hard boiled, detetive durão insensível, e seus primeiros expoentes: Hammett e Chandler.

Ambientadas em meados do século passado, entre a grande depressão e os “anos dourados”, muitas histórias foram criadas. E tratam de uma América em crise, onde a construção da futura maior nação capitalista do mundo convivia com hordas de desempregados e aventureiros lutando pela vida.

Era uma América contaminada pelo desencanto, onde não havia ilusões entre os desvalidos nem complacência entre os vencedores: um mundo contraditório, cheio de reações ambíguas e homens violentos, os chamados “durões” — expressão imortalizada justamente por este gênero.

Nas histórias há sempre um detetive particular, maltratado pela vida e pelos tiras, que se envolve em casos geralmente estranhos, num mundo com sua lógica própria; são ricaços inescrupulosos, mulheres enigmáticas, prostitutas de luxo, escroques, assassinos de aluguel, tiras corruptos, enfim, gente da pior qualidade mesclada a perdedores de coração mole, tudo a 25 dólares por dia, mais despesas.

Foi a partir dessas histórias publicadas em livros, e também na revista Black Mask, que foi criada na França uma coleção para publicar estas mesmas histórias, todas com capa preta e impressas em papel vagabundo.

O termo pegou. Embora o gênero não tivesse sido inventado na França, a ideia de publicá-las em livros baratos com capas pretas — “noir” — nomeou o gênero. Apropriando-se dele, o cinema — utilizando a fórmula “crime, investigação e solução” e retratando personagens cínicos e durões insensíveis — fez um tremendo sucesso com seus filmes em branco e preto.

Como já disse anteriormente, não sou especialista em livros policiais, sou viciada na leitura deles! Penso o livro policial como o jazz da literatura: as músicas ou movimentos musicais estão sempre superando o que aconteceu antes, inventando e mesclando ritmos, mas o jazz é o Jazz.

Foram criados temas que vão evoluindo à medida que evoluem tecnicamente os instrumentos, mas a base, o tom do jazz, não muda. Enquanto outros movimentos se esgotam, ele continua: é uma grande arte.

O mesmo se diz do romance policial. Enquanto outras formas vão tendendo para o caótico, o romance policial se mantém com começo, meio e fim, e com a mesma fórmula: crime, investigação, solução… e sucesso absoluto de vendas.

O noir, com a evolução de colocar o detetive nas ruas, usar e abusar do automóvel, com seus detetives durões e mulheres fatais, começando pelo Falcão Maltês, teve seguidores fantásticos.

James Cain (anos 1930/40), de O Destino Bate à Porta e A Mulher do Mágico, também foi dos inovadores. A maioria das suas tramas segue o mesmo esquema: um homem se apaixona por uma mulher, se envolve em uma atividade criminal com essa mulher e é traído por ela.

Ele desenvolveu o conceito de contar a história do ponto de vista do criminoso. Em o Destino Bate à Porta, um jovem errante deseja a esposa do velho dono de um boteco e, em consequência, os dois planejam o assassinato do marido. Foi um best-seller instantâneo, filmado logo depois. Cain diferia de seus antecessores por fazer de quase todos os seus personagens, senão todos, pessoas genuinamente desagradáveis e más, e revelar através das emoções delas como acabavam chegando ao assassinato.

Enquanto Hammett e Chandler escreviam sobre detetives bons/maus, delicados/durões, que tentavam desenredar a confusão causada por outra pessoa com um ato violento ou ganancioso, Cain criava personagens bidimensionais, interessados apenas em si mesmos, e motivados pelo desejo de dinheiro ou sexo. São personagens falhos, por serem demasiado e inteiramente maus, e o autor não demonstra piedade por eles.

Cain teve um biógrafo que o chamou de “o ovo de vinte minutos da ficção supercozida”, o Super Hard Boiled!

Ross Macdonald (anos 1960/70) criou o detetive Lew Archer, ex-policial de Long Beach, Califórnia, que foi demitido porque não tinha estômago para a administração corrupta da polícia à qual era forçado a servir, e por isso se tornou detetive particular (o mais famoso daquela época). Descrito como um homem solitário, que age com mais eficácia nas sombras, ele é também um “catalisador involuntário de problemas”. Trabalha num escritório pequeno e frio, mas surpreendentemente cheio de livros (que ele avidamente lê quando não está ocupado com um caso). As paredes têm pinturas modernas de boa qualidade.

Archer é diferente de muitos outros detetives durões, no sentido de que não se compraz com sexo promíscuo e tem uma verdadeira afinidade com pessoas jovens. Paul Newman o imortalizou.

Na próxima conto mais!

 

3 comentários em “Noir

  • 09/09/2011 em 21:17
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    Bacana, para mim que sou fã de histórias policiais a sua crônica foi uma ótima oportunidade para fisgar algumas dicas para as próximas leituras…

    salve,

    carlos

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  • 07/09/2011 em 20:40
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    Olá Magno,
    Boa Noite.
    Obrigadíssima pelas dicas!
    Como já falei anteriormente, vamos nos completando aqui nas crônicas.
    Conheço a revista do Alfred Hitchcock, mas a Ellery Queen vou usar a sua dica!
    Abraço

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  • 06/09/2011 em 22:19
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    Cara Vera,

    A editora que publica a Ellery Queen Magazine comprou, há dois anos mais ou menos, o acervo da Black Mask e tem publicado mensalmente um conto clássico em suas páginas.

    Para nós, o bom é que a EQM está disponível em formato de ebook, mediante assinatura na Amazon. São 10 exemplares por ano, com 2 volumes duplos, mais grossos.

    Vou dar uma dica que vale só para quem prestigia o Blog da KBR 😉 Para quem quiser conhecer essas revistas sem gastar um tostão é só entrar no site da Amazon e assinar a revista. O último número vem de graça para o Kindle e se a pessoa não desejar manter a assinatura é só entrar na sua conta pessoal e proceder ao cancelamento em até 14 dias que nada será cobrado. Mas, essa condição só vale para novas assinaturas, só para conhecer a revista. Uma segunda assinatura seguida de outra desistência gera a cobrança do exemplar baixado.

    Essa editora também publica outras revistas do gênero. Alfred Hitchcock Magazine, Isaac Asimov Magazine e Analog Science Fiction. É possível ler o último exemplar delas também.

    Um abraço!

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