Noir malandro

Marcos Rey e sua São Paulo

Marcos Rey, pseudônimo de Edmundo Donato, foi um escritor de fôlego. São Paulo foi a capital inspiradora desse escritor de múltiplas mídias e gerações: são mais de cinquenta livros, entre romances, contos, novelas e ensaios. Escreveu crônicas e contos, se destacou escrevendo romances para o público juvenil e escreveu também várias obras literárias para adultos. Durante os anos 1970 foi roteirista de diversos filmes do gênero pornochanchada, produzidos na Boca do Lixo, em São Paulo, como “As Cangaceiras Eróticas” e “O Inseto do Amor”.

Sempre gostei das histórias de Marcos Rey. Meu personagem Alyrio Cobra, como ele, é um paulistano que transita no cenário da cidade de São Paulo. O escritor faleceu no dia 1º de abril de 1999, aos 74 anos. Foi cremado e, um mês depois, sua esposa sobrevoou o centro da cidade com um helicóptero, espalhando as cinzas sobre São Paulo e realizando assim a reunião eterna de Marcos Rey com a metrópole que foi a grande personagem de toda a sua obra.

Nos tempos em que a Livraria Cultura do Conjunto Nacional era um local de encontro de escritores, todos os sábados, lá pelas 11 da manhã, Marcos Rey batia ponto por lá. Havia um grupo muito grande que frequentava o local do qual ele fazia parte, sempre animado, contando detalhes de suas aventuras literárias.

Rey usou a fórmula policial, e se poderia dizer que foi o precursor de Jô Soares, com seu policial cheio de ironia. Beirando o cronista, mas não o sendo, consegue em seus livros retratar o cotidiano paulistano de meados do século passado; na verdade, usa e abusa do humor, tornando a leitura de sua obra ainda mais interessante. Seus protagonistas são figuras típicas da cidade e vale a pena um olhar sobre eles.

Em sua larga obra, Malditos Paulistas é um ótimo exemplo, um romance que mistura a veia policial e o picaresco. A narrativa está centrada na trajetória singular de Raul, um carioca na faixa dos trinta anos que já fez muita coisa na vida, mas em nenhuma de suas atividades logrou sucesso. Desiludido, decide tentar a sorte em São Paulo, onde amplia suas experiências profissionais: trabalha como instrutor de natação, figurante de novela, garçom de cantina no Bixiga. Um anúncio classificado “Precisa-se de motorista” muda sua sorte na capital paulista. Ele vai trabalhar de motorista particular para Duílio Paleardi, que mora numa mansão do Morumbi. Ali, Raul se ocupa de flertes fortuitos com as empregadas e com a patroa, até que encontra, na garagem da mansão, uma marionete vestida de Carmem Miranda. A descoberta promove uma virada nos rumos da história, transformando-a numa narrativa vertiginosa em torno das investigações de Raul sobre os negócios escusos de Paleardi.

Num “noir” tipicamente brasileiro, Raul é o protótipo do pequeno malandro. Depois que lemos no primeiro parágrafo do livro o anúncio do emprego em que “dispensam-se referências”, a primeira dica sobre a personalidade de Raul aparece logo no segundo, quando ele pensa: “O emprego é para mim”.

A alusão deixada em aberto nessa primeira passagem é preenchida a seguir, quando Raul nos conta resumidamente seu currículo profissional: salva-vidas, cabo eleitoral, motorista, garçom, extra de telenovela, instrutor de natação, não sem antes avisar que não é motorista por vocação: “Meu sonho brasileiro, acalentado em mil camas e tipos de colchões, era ter um belo emprego público, que atrelasse meu pequeno destino ao glorioso futuro da Nação, mas à falta de um curso ginasial completo, cartuchos e pistolões, meu nome nunca foi impresso no Diário Oficial.”

A afirmação do “sonho brasileiro” de um “belo emprego público…” é intercalada pelo aposto de que esse sonho era “acalentado em mil camas e tipos de colchões”, o que insere o caráter errante da personagem e seu aspecto de volubilidade sexual — muitas mulheres, apartamentos no Guarujá e bares ao redor do porto, tudo isso envolve o personagem, que não cessa sua busca por respostas e por justiça (pessoal, claro).

No decorrer da história, o protagonista vai nos oferecendo outras características, sempre mobilizando algum recurso cômico. Por várias vezes Raul tem relações sexuais de maneira utilitária, ou seja, para conseguir vantagens; também ensaia alguns passos como chantagista, mas percebe-se que não é um contraventor real — só quer ver se “descola algum”. Mesmo ao chantagear contrabandistas Raul não deseja mexer com armas, ou seja, até em atividades “não louváveis” ele não quer se arriscar muito, É o malandro típico, que mesmo na contravenção só quer aquilo que não seja perigoso — atividades que não requerem o uso da violência, mas somente daquilo que Raul sabe que tem: “cabeça, picardia, manha e cancha”.

Claro que ele gostaria muito mais de ver seu nome no Diário Oficial numa nomeação, com um belo salário, ou seja, numa boa “mamata”. Usando a fórmula policial e criando um fantástico suspense, Marcos Rey nos mostra a alma do pequeno malandro que, em não descolando uma “mamata” do Estado, se deixa envolver pelo mundo das mansões do Morumbi onde as pessoas não são tão corretas assim, e de apartamentos no Guarujá, reduto dos ricos em meados do século passado.

Até a próxima!

 

 

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