No império do estrangeirismo

Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta

As línguas, no sentido de nacionalidade, tendem a lento desaparecimento. No fim do século XIX e começo do XX, todo mundo falava ou tentava falar  francês, com todo o charme advindo da língua de Molière. Todo rico que se prezava, ou nem tão rico assim, mas noblesse oblige, mandava seus filhos e filhas estudarem em Paris. Quem não falasse ao menos um pouco de francês era considerado quase um pária.

Depois da Primeira Guerra Mundial, mas, principalmente, depois da Segunda, o inglês tomou conta do mundo; não o nobre inglês do bardo de Stratford-upon-Avon, mas o inglês americano, aquele que tanto intrigava o escritor e grande mestre das frases que foi Bernard Shaw — “A juventude é uma coisa maravilhosa. Que pena desperdiçá-la com os jovens” —, e que perguntava sempre qual era a língua que falavam nos Estados Unidos.

Quando os computadores tomaram conta do mundo e a informática dominou todos os setores, nesse momento o inglês deixou qualquer pessoa que não o entendesse como um idiota completo, quando o assunto é a onipresente informática. Não tem uma só palavrinha, um termo só, por mais simples que seja, que tenha seu equivalente em português. Os franceses tentaram, e continuam tentando implantar uma linguagem própria para os termos da informática, mas o melhor que conseguiram foi chamar o mouse de souris (rato).

Os espanhóis são mais dedicados, mas espanhol traduz tudo para espanhol. Pegue um jornal espanhol e você nem vai conseguir saber a qual presidente, rei, rainha ou príncipe estrangeiros estará se referindo: existe nome igual em espanhol, traduzem, sem dó nem piedade. E a coisa é meio louca.

Lembro um fato passado em Madri, no bar do hotel Mayorasco, a primeira vez que lá estive. Pedi um uísque e disse ao barman que queria um Black & White. O das terras de Quixote, sem nenhuma consternação, falou para seu colega me servir uma dose de Blanco y Negro. Na gozação, saí perguntando o nome dos outros uísques que se encontravam na prateleira e o atendente foi me informando: “Viejo Contrabandista (Old Smuggler), Juanito el Caminador (Johnnie Walker) e outros que não consigo lembrar.

Quando o Itamaraty — lugar onde as pessoas têm idéias extraordinárias para serem aplicadas em coisa nenhuma — resolveu publicar uma relação das nossas cachaças mais conhecidas para incrementar a importação, o grande Sérgio Porto publicou no final de uma de suas maravilhosas crônicas uma tradução para o inglês dos nomes de algumas, como ele afirmou, “a título de colaboração com o pessoal do Itamaraty”.

E assim ficaram: Eye of Water (Olho d’Água), Crying at the Slope (Chora na Rampa), Extra Grandmother (Vovó Extra), Big Shrimp ( Pitu), Anyone (Qualquer Uma), Old Monkey ( Macaco Velho), Virgin’s Teardrop (Lágrima de Virgem), Be Quiet Lion (Sossega Leão) e Exhalation of The Panther (Bafo de Onça). O querido Sérgio terminou com essa: “E será um bocado bacaninha ver os gringos tomando crash of lemon (batida de limão).”

Aproveitando o embalo, e como tenho que comprar uma peça de engrenagem que só se encontra nos subúrbios, vou enfrentar o trânsito maravilhoso do nosso Paes e sair por aí. Aguardem-me que estarei passando por Père Michel (Padre Miguel), Good Success (Bonsucesso) e acho que vou terminar em Hard Shell. Enfim, o que se pode fazer, mas parece que Cascadura é quente pra cachorro.

E como dizia o poeta Vinícius de Moraes, na música “Testamento”: “It’s fire, brother”.

 

 

 

 

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4 Resultados

  1. manuel funes disse:

    A torre de BABEL sob nossas cabeças!

    Tem toda a razão!
    Vi estas absolute pravas!
    ??? ???? ??????? ????!
    Wewe ni haki kabisa!
    ??????? ???????? ???????!
    ????????
    Tienes toda la razón!

    😉

    • paulo de faria pinho disse:

      E esta loucura, meu caro Manuel Funes, não está presente somente na linguagem. A maior perigo é que a Torre de Babel, como você bem citou, está invadindo todos os setores da vida humana e tenho a impressão que dentro de poucos anos o homem terá perdido completamente sua própria identidade. O que está acontecendo um muitos países. Abraços.

  2. maria anna machado disse:

    Gostei muito. Gostaria de saber o que houve com o Esperanto….esperanca de poder entender o mundo…

    • paulo de faria pinho disse:

      Acho que o mundo está perdendo toda e qualquer esperança. A solução é começar tudo de novo, com menos pressa em acabar tudo em seis dias, somente para descansar no sétimo. Deu no que deu.

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